Deficiência Auditiva

Surdez unilateral: os desafios enfrentados por quem convive com ela

Foto: Shutterstock

A surdez unilateral traz uma série de desafios para as vidas diárias daqueles que convivem com ela. Imaginem que a surdez é a deficiência invisível e que quem é surdo de um ouvido, além de passar o tempo inteiro sendo questionado sobre isso (afinal, possui um ouvido ‘bom’) sequer é considerado como deficiente aos olhos da lei. É uma situação bem complicada.

Minha surdez sempre foi bilateral, mas durante os anos em que tive implante coclear no ouvido direito e surdez profunda no ouvido esquerdo, entendi melhor alguns desafios da surdez unilateral. Perdi a capacidade de localizar de onde vêm alguns sons e precisava me posicionar estrategicamente em qualquer situação. Pensando nisso, pedi lá no Grupo da Surdez Unilateral no Facebook que o pessoal contasse sobre os seus maiores desafios. Cá estão eles!

 

Leitor 1

No ouvido que não escuto nada tenho um chiado tremendo 24 hs por dia. Quanto maior o barulho externo maior meu chiado. Telefone é um caos. Se não estiver posicionada corretamente ao falar com as pessoas pareço a velha surda da Praça É Nossa. Fiquei muito restrita no mercado de trabalho e passei a trabalhar como ambulante vendendo doces. Assim seguimos a vida enquanto a lei não nos reconhece como deficientes. Temos vários impedimentos e o governo se faz de cego.

Leitor 2

Na minha opinião, o maior desafio do surdo unilateral é encarar a falta de compreensão das demais pessoas. Por se tratar de uma deficiência invisível e possuir características que são bem especificas, as pessoas no geral tendem a subestimar e minimizar os problemas que passamos. Só que esses problemas são reais e causam uma série de dificuldades no nosso dia dia.

Leitor 3

 1) Impossibilidade de identificar a fonte sonora, ou seja, de descobrir de onde o som está vindo. Eu costumo explicar isso para as pessoas mais próximas dizendo que eu não consigo conectar som e espaço. Que o som da buzina de um carro, por exemplo, pode vir de qualquer lugar. Eu não consigo identificar que ele veio do carro “x”. Essa desorientação espacial é problemática na medida em que atrapalha a identificação imediata de nosso interlocutor (a pessoa que fala algo com a gente para iniciar uma conversa). E justamente por não conseguir identificar de forma instantânea de onde vem (quem que falou “aquilo”) é que o nosso processamento auditivo é mais lento. De tal forma que, ele demora mais tempo para entender o inicio de algo que foi dito – para decifrar a mensagem (conteúdo) de uma frase dita por um terceiro.

2) Zumbido. Os especialistas dizem que a maior causa do zumbido é a perda auditiva. Como a perda auditiva do surdo unilateral é grande, o zumbido que ele escuta também é grande, ou pior, é alto. Das explicações eu que eu já vi até hoje sobre a origem daquele som do zumbido, a mais logica, pra mim, é uma que diz que ao perder parte da audição, as células que “restam” tentam compensar o deficit auditivo decorrente dessa perda. E para tanto elas se “movimentam” mais, “trabalham” mais, o que provocaria uma maior vibração e, consequentemente, aquele som fino e chato que ouvimos.

3) Dificuldade de ler um texto e manter a concentração. Os especialistas chamam isso de “dificuldade de fazer figura-fundo”. De manter o olhar fixo e focado por certo tempo sobre determinado objeto. Se fosse pra chutar, eu diria que isso ocorre porque os surdos unilaterais, por terem dificuldade de entender de forma imediata aquilo que escutam, tendem por instinto a dar prioridade a esse sentido, deixando um pouco de lado, outros, como a visão, por exemplo. Como se, por instinto, desfocássemos a visão para redobrar a atenção com a audição, e isso com o objetivo de entender melhor o que ouvimos e de tentar identificar a origem dos sons.

Leitor 4

Não consigo ir num barzinho onde tem diversas pessoas conversando, me falta concentração para compreender a fala de quem está conversando comigo. A irritabilidade. Estudar, meu Deus, como é difícil, pois eu que tenho surdez total do OE e com zumbido, não consigo estudar nem me obrigando. Distinguir de qual lado estão me chamando.

Leitor 5

Limitações profissionais (ambientes ruidosos, identificar fonte sonora, lidar com pessoas com máscaras -EPI), desatenção, dificuldade em estabelecer diálogos com multiplas pessoas, falta de compreensão das pessoas, zumbido…

Leitor 6

Zumbido constante no ouvido bom. Dificuldade de identificar de onde vem o som. Dificuldade de identificar o som. Não entender o que as pessoas dizem, é elas só repetirem a última palavra. Não conseguir ficar próximo a caixas de som (desmaio). Se sentir desconfortável em rodas de conversas. Lidar com a incompreensão das pessoas, que dizem que a gente é maior que isso, que não somos deficientes. Dificuldade em estudar/concentrar. Não adaptação a aparelhos auditivos. Não sei de onde exatamente vem o som. Dificuldade de manter múltiplas conversas, inclusive no celular. Desatenção. Não ser aprovado em exame médico em alguns concursos, porque para uns (concursos) você é deficiente, mas pra outros não, inclusive pra cotas. Tenho a impressão que muito barulho me incomoda muito mais do que quem tem as duas audições perfeitas. Ficar pedindo pra as pessoas repetirem o que falaram, até mais de uma vez ( as vezes finjo que ouvi e entendi) dou só um sorriso, mas no fim das contas, só vi a boca da pessoas mexer.

Leitor 7

Dificuldade em saber de onde vem o som. Não poder falar ao telefone com o ouvido surdo. Na sala de aula sempre é preciso sentar à frente com o ouvido ruim pra parede para poder acompanhar as aulas. Dificuldade de dialogar com a pessoa que está do lado do ouvido ruim. Entre outras dificuldades citadas pelos nossos colegas acima

Leitor 8

Zumbido 24 horas por dia, dificuldade para entender o que as pessoas falam quando estamos em ambientes com vários sons ao mesmo tempo exemplo: shopping, na rua, em uma festa. Sensibilidade aos sons altos e muitos barulhos ao mesmo tempo. Se isolar de todos, por saber quanto seria difícil a conversa com mais de uma pessoa. Se posicionar a todo tempo pra conseguir escutar, no final do dia meus ombros pescoço estão exaustos. Odeio telefone, no trabalho sempre q atendo o telefone tem alguém p conversa cmg ao msm tempo, não sei se presto atenção no telefone ou na pessoa, no final não entendo nenhum dos dois.

Leitor 9

Vergonha quando alguém te acha metida porque te falou “oi” e você não respondeu. Nasci assim, logo faço leitura labial, fico chateada quando a pessoa sabe que não escuto e acha que pode sair falando asneira porque eu não vou ouvir, mais vejo de longe e consigo entender o que falou. Pensei em fazer uma tatuagem no ouvido para identificar – poxa a pessoa sabe que você não escuta e insiste em falar no ouvido ruim.

Leitor 10

O zumbido constante já é quase insuportável, porém no silêncio da noite é massacrante. Haja psicológico para tentar tirar o foco daquilo que te acompanha 24hs…e agora no silêncioConversas em grupo ou não, sempre existe um trechinho do papo que passa sem ser ouvido. Além dos “Hãn? Pode repetir? O quê?”, existem os “Eu já te falei”, “Acabei de falar isso”.

Leitor 11

Olhar paisagens em passeios de carros, ônibus é fora de cogitação. Aquele passa passa dá uma vertigem, uma tontura do nada. O som não tem origem certa. De onde vem? Só Deus na causa, não dá pra identificar. O pior é quando alguém pede licença, porque aí são 2 problemas: ou não ouvimos ou olhamos pro lado errado. Aí bate uma sensação muito ruim de impotência e a pessoa te achando um mal educado.

Leitor 12

Em festas já ficamos menos participativos, afinal, depois da diversão virá uma tempestade e nem sempre estamos dispostos a passar por ela. Sensação de cabeça leve, dor de cabeça, vertigens, zumbidos e agora com apitos e 10x maiores….e infelizmente ficamos com vida social bem reduzida. Concentração é complicado, logo estudar se torna mais difícil. Precisamos direcionar o ouvido bom para quem fala. Sem falar de coisas simples como dormir com o lado bom no travesseiro – aí esquece o resto, não ouvimos mais nada. Pode tocar telefone, campainha, o que for, somente com um toque físico ou uma vibração iremos acordar. Fora a incompreensão das pessoas. Lamentável, porém, real.

Leitor 13

A própria família esquece de nossas limitações, quem dirá os estranhos! Quando você pede para a pessoa repetir o que falou ela diz ‘nada, nada!’ Dificuldade e pânico quando ouço sirene enquanto estou dirigindo e não faço a menor ideia de onde vem! Risco certo! Já tive que apelar para um otorrino me dar um laudo para trocar de lado na estação de trabalho para neutralizar o ouvido ruim., uma vez que só pedindo sem o laudo não consegui. Consegui mudar de lugar para um no canto e inexplicavelmente 1 mês depois fui demitida! Em vagas de emprego somos barradas em funções do tipo Telemarketing, Indústrias barulhentas mesmo com fone de ouvido, telefonista nem pensar. O médico otorrino desaprova na hora do exame, e nos concursos públicos não nos encaixamos nas vagas PCD.

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Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010, e também escrevo o blog Sweetest Person desde 2007. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

2 Comentários

  • A PIOR PARTE PARTICULARMENTE POR SER SURDA UNILATERAL É A FALTA DE COMPREENSÃO E DE SEGURANÇA DAS PESSOAS OU NA LEI. É HORRIVEL NÃO IDENTIFICAR O SOM E PIOR AINDA PEDIR PARA REPETIR E DIZER “NÃO FOI NADA” “ESQUECE”….

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