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Treinamento auditivo: otimize os benefícios do aparelho auditivo e do implante coclear

Por Aline Albuquerque Morais (Fonoaudióloga)

Você já ouviu falar em treinamento auditivo? Convidei uma fonoaudióloga especialista no assunto para escrever esse post, que acho que vocês irão amar! E o melhor é que os teimosos que insistem em não se esforçar para se adaptar aos seus aparelhos e implantes – ou, pior, insistem em não usá-los tendo indicação para isso – poderão se convencer a mudar de comportamento. Leiam com calma, pois tem muita informação importante para entender como ouvimos e como podemos melhorar o modo como ouvimos através da tecnologia.

Ouvimos com o cérebro?

É muito comum que logo após adaptação dos AASIS ou ativação do IC, junto com a maravilhosa sensação de ouvir novamente, os usuários estranhem ou até mesmo apresentem dificuldades em se acostumar com o novo mundo sonoro. Sons que não eram mais ouvidos, agora parecem altos demais, sons que eram percebidos de uma certa maneira, agora parecem distorcidos: a voz da amiga ficou mais fina, o latido do cachorro ficou super estridente, o telefone abafado, e outras tantas mudanças e sensações! Isso acontece, pois não ouvimos com a orelha somente, ouvimos com o cérebro também!

 

headphones brain

 

O AASI e o IC atuam inicialmente no problema que ocorre na orelha média e/ou na orelha interna, eles fazem o papel de amplificadores do som, de forma que o som que não era mais detectado, ou que precisava de muita intensidade (volume) para isto, passa a ser ouvido. Assim é resolvido o problema da quantidade de som que chega ao cérebro, mas e a qualidade? A compreensão e interpretação do som (qualidade), quem faz é o Processamento Auditivo! Vamos conhecer melhor como tudo acontece:

Audição e Processamento Auditivo

Somos feitos para ouvir desde o quinto mês de gestação. A audição é um dos sentidos que se desenvolve aos poucos, principalmente nos primeiros anos de vida. O som, para ser compreendido, deve entrar por nossas orelhas e ser traduzido pelo nosso cérebro. Nesse caminho, o estímulo sonoro é transformado (pela cóclea ou IC) em impulso elétrico, que é a linguagem que o cérebro compreende. Esse sinal elétrico é processado pelos neurônios da via auditiva, que estão em diferentes regiões do Sistema Nervoso Central.

Para processar o som são necessárias diferentes habilidades auditivas que são responsáveis pela nossa capacidade de localizar e memorizar os sons, discriminar diferentes tipos de som (agudo, grave), entender em ambientes ruidosos (como em festas, restaurantes), entre outras habilidades.

Deficiência Auditiva e Processamento Auditivo

As habilidades auditivas podem estar alteradas em pessoas com a audição normal e de todas as idades, sendo mais comum a detecção na fase escolar, devido às dificuldades de aprendizagem que podem surgir com a alteração do processamento auditivo. Em indivíduos com perda auditiva, um pior desempenho de uma ou mais habilidades auditivas é quase sempre encontrado, e você logo irá entender o porquê.

Inúmeras pesquisas científicas procuram investigar e explicar as razões que levam os indivíduos com perda auditiva apresentarem maior dificuldade de entender a fala em ambientes ruidosos, discriminar os sons da fala entre outras queixas comuns, mesmo após a reabilitação com AASI ou IC. Mas, para simplificar, vamos fazer uma comparação com carros e as péssimas estradas do Brasil:

Imagine uma estrada novinha, recém inaugurada, lisinha, sem nenhum buraco ou desnível, pronta para os carros correrem livremente em direção ao destino final. Uma maravilha, não é? A partir de agora, vamos supor que essa estrada é a sua via auditiva, pronta para receber os carros, que no caso da audição, correspondem aos estímulos auditivos. O destino final é o córtex cerebral auditivo, onde os sons serão interpretados e compreendidos.

Caso você tenha nascido ou desenvolvido uma perda auditiva, poucos carros (som) ou nenhum deles passarão nesta estrada, pois serão bloqueados no pedágio (que podemos comparar com uma cóclea danificada, por exemplo). Sem carros transitando, com o tempo, a estrada ficará deserta, descuidada, a ação dos ventos e das chuvas criará buracos, mato crescerá no asfalto, tornando-a inadequada para a passagem livre e veloz dos carros.

A estrada abandonada é a sua via auditiva se tornando cada vez mais “fraca” pela privação auditiva, ou seja, a falta de estimulação sonora adequada causada pela perda auditiva faz com que os neurônios responsáveis processamento e compreensão do som “atrofiem”. Por isso, é fundamental iniciar a adaptação do AASI ou realizar a cirurgia do IC assim que a perda auditiva é diagnosticada, para que não dê tempo do nervo auditivo e as demais estruturas do sistema auditivo sofrerem com a falta de estimulação sonora.

Certo, então ao colocar o AASI ou IC, a minha via auditiva levará o som em perfeito estado para o cérebro?

Vamos reformular a pergunta utilizando os carros e as estradas:

Certo, agora que comprei uma Ferrari vou conseguir correr na estrada e levar os doces, a tempo, na casa da vovó e em perfeito estado?

A resposta você já sabe: Depende de como está a estrada, muito ou pouco esburacada! Não adianta ter uma Ferrari se você só tem a oportunidade de andar em péssimas estradas, certo?

 

via auditiva - road

 

O estado da via auditiva até o córtex cerebral vai depender do tempo de privação auditiva (tempo que a pessoa ficou sem ouvir direito), causa da perda auditiva (otoesclerose, presbiacusia, neuropatia auditiva…) e outros fatores.

Treinamento Auditivo

Quando está via auditiva está muito prejudicada, mesmo após a adaptação dos AASI ou IC, os usuários podem apresentar muitas queixas, principalmente de compreensão da fala quando o interlocutor fala mais rápido, ou em ambientes ruidosos, pois as habilidades auditivas necessárias para uma boa compreensão nestas situações estão prejudicadas.

Nesses casos, o treinamento auditivo pode ser uma ótima opção para melhorar as habilidades auditivas e proporcionar maior capacidade de discriminação e compreensão da fala e consequentemente, uma melhor qualidade de vida aos usuários de AASI e IC. O treinamento auditivo baseia-se na capacidade do cérebro em se modificar mediante à uma estimulação intensa, a chamada neuroplasticidade.

 

brain-training

 

No treinamento auditivo, as habilidades auditivas são estimuladas por meio de exercícios auditivos que também envolvem atenção e memória, como discriminar sons de frequência e intensidades diferentes, prestar atenção na fala de uma pessoa enquanto ouve uma história na outra orelha, memorizar sons em sequências, entre tantos outros!

A realização desses exercícios em uma certa frequência e por certo período de tempo é capaz de modificar as estruturas cerebrais, aumentando e fortalecendo as redes neurais responsáveis pelo processamento auditivo, resultando em uma audição mais eficiente e, é claro, melhorando a compreensão da fala!

É importante ressaltar que somente adaptação dos AASI e do IC já gera uma estimulação e “tratamento” daquela via auditiva abandonada. É como se os carros voltassem à estrada, trazendo mais movimento e vivacidade ao local. Por isso que, após um período de 3 meses em média, as queixas auditivas diminuem e a maioria dos usuários ficam bem adaptados.

O fonoaudiólogo responsável pela adaptação e acompanhamento dos seus ASSIs ou do IC provavelmente irá saber identificar se há indicação de treinamento auditivo para o seu caso. O treinamento auditivo é realizado por fonoaudiólogos especializados, geralmente com o uso do audiômetro e cabine acústica, além de softwares desenvolvidos para esta finalidade.

Pela a quantidade de estudos, discussões em congressos e reuniões científicas acerca dos benefícios do treinamento auditivo para indivíduos com perda auditiva, acredito que esta poderosa ferramenta será cada vez mais frequente na prática da reabilitação auditiva no Brasil. Bom, espero que esse longo texto tenha sido útil, informativo e suficientemente prazeroso para que tenham ânimo de ler mais nas próximas oportunidades!

Para mais informações sobre processamento auditivo e treinamento auditivo, você pode acessar a página do Laboratório de Investigação Fonoaudiológica em Processamento Auditivo da USP.

Onde fazer treinamento auditivo

131 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010, e também escrevo o blog Sweetest Person desde 2007. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 34 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

17 Comentários

  • Amei este post, ele nos lembra que não adianta só colocar o aparelho ou implante e não se esforçar tem todo um tratamento, mais vale a pena é uma esperança no meu caso pra minha sobrinha de 5 anos que acabou de ativar o implante dela, ainda está se adaptando mais é muito prazeroso ver ela parada observando tudo ao seu redor tentando decifrar os sons.

  • Olá à todos… nossa, que post agitado…risos

    Uso meus AASIs sempre! Tiro apenas na hora do banho, piscina, praia e para dormir.
    Banho – óbvio, meus aparelho não são à prova d’água;
    Piscina – por causa da água;
    Praia – tenho medo que a areia o estrague devido aos componentes delicados e por causa do mar, claro;
    Dormir – só tiro porque machuca, caso contrário, dormiria com eles, pois quando os tiro, entro numa bolha, perco os sons. A única coisa que infelizmente ouço, e o danado do zumbido.

    Bjs

  • Estou vivendo um momento muito difícil e jamais esperado por alguém. Meu esposo teve surdez súbita bilateral grave. E está no processo preparatório para a única solução possível de ele poder novamente voltar a ouvir. O Implante Coclear. Eu preciso de ajuda. Por favor socorro.

  • olá Dr gostaria de saber se entro na lei da cotas ,essa é minha audimetria
    ,tenho perda auditiva condutiva bilateral curvas timpanométricas tipo b,presença de reflexos acústicos ipse em 2000-4000 hz com ausências nas outras frequências e em reflexos contralateral em orelha direita presença de reflexo contralateral em 1000hz ausências nas outras e frequências nas outras.

  • Oi Paula, tudo bem?
    Por favor, poderia me passar o valor do treinamento auditivo, e poderia me informar o endereço do bairro de Pinheiro da Aline.
    Muito obrigada,
    Parabéns pelo blog,
    Bjs
    Cristiane.

  • Ola Fonoaudiologa

    Gostei muito sua explicação clareza, parabéns! Interressante…

    Apesar sou bilateral anacusia e profunda. Nao gosto de uso de aparelho audivito mas preciso usar porque sou oralizada.

    Posso te pergunta?

    usar implante coclear pode participar esporte? Pode afetar ou nao?

    Pode acontecer alguma coisa bater coclear perto do cerebro?

    Há risco?

    Se surdo e ou deficiente auditiva quiser participar como profissional: atletismo, futebol, volei, basquete, maratona aquatica?

    existe olimpiada de surdos no Brasil e do mundo, que proibe uso de coclear? voce sabia?

    veja sites:

    http://www.cbds.org.br/ (brasil)

    http://tomazbeche.wix.com/mister#!olimpiada-surdo-de-todo-mundo!!/zoom/galleryPage/imagefl5http://pt.wikipedia.org/wiki/Surdolimp%C3%ADadas

    http://pt.wikipedia.org/wiki/Comit%C3%AA_Internacional_de_Esportes_para_Surdos

    http://www.deaflympics.com/

    Por isso, maioria dos surdos aqui Brasil teme uso de coclear por causa dos esportes, sociais, lazer e educacao (lingua brasileira de sinais)

    Bom para pessoa unilateral!

    abracos para todos

    andrea

    • Andrea,

      Discordo que ‘a maioria dos surdos tem medo do implante coclear’, o que acontece hoje é exatamente o contrário, mais e mais pessoas aderindo a ele como forma de voltar a ouvir ou de ouvir pela primeira vez.

      Você pode continuar praticando esportes, até mesmo aquáticos (existe capa a prova dágua para o implante).

      O implante não fica perto do cerebro, é uma cirurgia NO OUVIDO, para inserir eletrodos na cóclea.

      Não há motivo algum para ter medo do implante coclear. Digo por experiência própria.

      bjo

    • Olá Andrea, tudo bem?
      Que bom que gostou do texto!
      Sobre sua dúvida a respeito da prática de esportes, posso te dizer que conheço implantados que praticam esportes como ciclismo e futebol sem problemas, mas sabendo que quedas ou uma pancadas na cabeça podem causar deslocamento ou danificar o componente interno, sendo necessário mais uma cirurgia ou coisa do tipo. É um risco. Se você pensa em fazer o implante, o ideal é que você converse com o cirurgiões experientes, como Dr. Luciano do portal otorrino para esclarecer melhor essas dívidas…

      Talvez esses links também possa ajudar!
      http://www.politecsaude.com.br/tutoriais-e-faq/perguntas-frequentes/

      http://www.adap.org.br/site/index.php/artigos/94-a-pratica-de-esportes-dicas-e-cuidados-com-o-implante-coclear

      Quanto a pratica do esporte profissional, acredito que os eventos e organizações tenham suas regras próprias. Já trabalhei com inclusão de deficientes auditivos no esporte unificado (com ouvintes) e nunca me deparei com restrição… Mas realmente no regulamento da Surdolimpiadas o uso de aparelho não é permitido nas competições. De qualquer forma, acredito que muitos surdos tem medo do IC por uma questão de falta de informação ou até mesmo preconceito, infelizmente.

      Por isso esse blog é tão importante, a troca de experiências entre as pessoas é muito importante para a decisão!

      Um abraço,

  • Sou leve/moderada bilateral, estou a 2 meses com o aparelho, muita coisa o pessoal fala e eu escuto, mas não compreendi nada, fico preocupado de ser da qualidade do aparelho, mas espero que meu cérebro se adapte logo a isto, uso ele apenas no serviço, na rua ele pega muito vento e é chato utilizar assim, chega a doer o ouvido .

    • Olá Leandro, tudo bem?
      Realmente dois meses ainda é pouco para quem está começando a usar o aparelho. É precisa dar um tempo para o sistema auditivo se acostumar como o novo padrão sonoro. Usar o aparelho apenas no serviço não é muito recomendado. O ideal é usar em diferentes ambientes sonoros, inclusive na rua (com barulho), para o cérebro acostumar e o ruído de fundo não ser tão incômodo! Além disso, alguns aparelhos possuem recursos como supressor de ruído de vento, converse com o seu fonoaudiólogo sobre isso. O treinamento auditivo pode ajudar e para saber se é indicado para você seria necessária uma analise do seu histórico e exames auditivos. Mas, de cara, recomendo usar por mais tempo e ambientes diferentes!As habilidades auditivas podem ser estimuladas nas situações diárias!
      Espero ter ajudado!
      Um abraço,

  • Bom dia!
    Tenho o ouvido-biônico desde 2011, depois que sofri um traumatismo craniano decorrente de um acidente de trânsito. Fui muito bem assistido pelo SUS, aonde eu recebi a cirurgia e um aparelho da Oticon, importado da Áustria. Preciso e devo saber qual o melhor aparelho na possibilidade de comprá-lo, pois a manutenção e consertos aqui no Brasil é muito restrita e difícil, além de cara.
    Muito obrigado pela atenção!

  • Sou engenheiro e ainda na infância (após um acidente) me deram canamicina no hospital. Este antibiótico foi ototóxico e me tirou 100% da audição no ouvido esquerdo e hoje em torno de 95% do OD (neste a perda foi progressiva). Apesar de tudo e de ter me afastado de tudo, minha paixão era a leitura e isto desenvolveu um sentido de raciocínio que me fez, inclusive, gostar da matemática. Aprendi cálculo sozinho, fiz vestibular, passei e cursei engenharia. Meus professores, sabendo do meu problema, deram-me (quase todos) a liberdade de nem frequentar as aulas (o estudo era feito sozinho e nas bibliografias adotadas). Como engenheiro, minha vida foi normal e marquei época na CEEE. Após me aposentar, coloquei minha própria empresa de engenharia que hoje é um sucesso no projeto e execução de usinas hidrelétricas. Fiz estes comentários para mostrar que sou um vencedor. Pois bem, me ofereci várias vezes a algumas instituições para ser “cobaia” na utilização de células-tronco; nunca consegui que aceitassem por vários motivos (a maioria por desinteresse dessa pesquisa no Brasil). Agora vi o post de voces e também de uma moça daqui de Santa Maria (Paula Pfeifer, a quem vou procurar) no programa da Fátima Bernardes. Gostaria de ver o que voces poderiam oferecer a mim para uma melhoria de vida. Um médico (o melhor destas redondezas) me disse que o IC é uma “coisa horrorosa” e que eu deveria fazer tratamento psicológico após para não “pirar”, etc. Agora vejo a Paula dizer que foi a melhor coisa que lhe aconteceu, etc. Gostaria de encetar diálogos com voces a fim de saber melhor sobre esta tecnologia ou outra capaz de me fazer mais sociável uma vez que minha tendência é a do isolamento. Os aparelhos auditivos (tenho talvez o mais caro da atualidade)acho que me fazem mais mal do que bem. Ouço mas não separo os sons e isto me constrange muito. Esperando uma resposta desta tentativa de contato, subscrevo-me atenciosamente,

    Samuel

  • Meu filho tem 21 anos é surdo bilateral severa quase profunda,qual beneficio o implante traria pra ele,tenho muitas duvidas sobre se valeria a pena .

  • Oi bom dia te vi no Encontro com Fátima Bernades e achei interessante,pois tenho uma filha adolescente(hoje com 17 anos) que fez o IC há 3 anos.
    obrigada e continuaremos te seguindo.

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