Destaques Implante Coclear

Três anos de implante coclear

Três anos de implante coclear: três anos desse sentimento delicioso de ter ganhado a minha vida de volta. Em 11/11/2013 tudo mudou para mim, e desde então venho vivendo um dia após o outro. Não parece que foi ontem, na verdade, parece que foi há uma década. O tempo passa de um jeito estranho: parece que, quando estamos infelizes, é em câmera lenta; quando estamos felizes, no fast-foward.

Não faço idéia de onde eu estaria se tivesse continuado no silêncio – às vezes fico pensando nisso, por mais sem sentido que esse pensamento seja.

Hoje, bilateral, me vejo às voltas com um cérebro que está se reajustando aos meus dois ouvidos biônicos, tirando a dominância do direito e misturando com o esquerdo. Tá bem bonito de perceber as mudanças, gente. Até alguns meses atrás, tanto fazia se estivesse só com o direito ou com os dois, agora qualquer mísero som é mais completo e mais robusto com ambos. O esquerdo somou TANTO que hoje se fico só com o direito acho a coisa mais esquisita. E pensar que eu achava que o modo como o direito estava era imutável! Santa ignorância, Batman.

Que bom que tive coragem de me dar essa chance, pois em muitos momentos me perguntei qual era a minha grande desculpa para não me permitir tentar ouvir do lado esquerdo. Há três anos atrás, eu renascia. Devagarinho, meio assustada, meio perdida. Hoje, vivo um processo de ressignificação, e acho que ele só é possível porque ter voltado a ouvir consertou muitas partes minhas de dentro que estavam quebradas. Precisei voltar a ouvir e conhecer a morte para começar a entender a pessoa que sou, as coisas que ainda quero fazer e os sonhos que tenho. A surdez me ensinou a não me colocar nunca como prioridade. A volta da audição me mostrou o quanto isso era ridículo.

Ter tudo (audição), perder tudo, se conformar com isso e um belo dia ganhar tudo de volta é, para dizer o mínimo, insano. Sigo me acostumando. Sigo me deliciando com as possibilidades que o retorno da audição me abriu. Sigo com esse sentimento de gratidão por todos os medos perdidos e todas as vontades recuperadas. E, o mais forte de todos, o de responsabilidade com as pessoas que me procuram querendo orientação e encorajamento para tentar trilhar esse mesmo caminho.

Nos aniversários, a gente pode fazer um desejo. O meu é um só: que muito em breve a tecnologia consiga ajudar TODOS os casos de surdez a experimentar o som, a ter essa opção, a conhecer o mundo sonoro. Me deixa triste o fato de que muitos possam, e outros ainda não.

40 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010, e também escrevo o blog Sweetest Person desde 2007. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

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