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Três irmãs surdas: Lela, Mima, Ires e a otosclerose

Somos três de seis filhos: Lela Santos, Mima Santos e Ires Lopes. Segunda, quarta e sexta, uma ordem que só Deus consegue explicar. O que nós temos em comum? Um amor inexplicável, somos irmãs e o mais importante, somos ligadas não só pelo nosso sangue, mas também pela nossa deficiência auditiva.

Nós crescemos pessoas normais, com ouvidos aparentemente normais, escutávamos muito bem. Até que um dia Lela começou a dar sinais de que não estava escutando bem, procurou um especialista e foi diagnosticada com otosclerose bilateral. Ela teve que passar usar aparelho auditivo, ficamos todos surpresos e foi aí que descobrimos que era uma doença genética.

O tempo passou, e então eu (Mima) percebi que estava sendo difícil ouvir a TV, pedia para que as pessoas repetissem o que foi dito, meu esposo e as minhas filhas reclamavam muito que falavam  e eu não respondia. Resolvi também procurar um especialista e descobri que também estava os meus ouvidos doentes e precisava de aparelhos auditivos. Meu mundo caiu naquele instante, mas não parou por aí.

Em 2014, Ires,  a nossa caçulinha, também começou a sinalizar a perda auditiva. Outro caso de otosclerose e ela também iria usar aparelho auditivo.

No momento em que descobrimos, passamos a viver distantes das pessoas, trancadas no nosso mundo silencioso, tristes e com medo do que estava vindo à nossa frente. Enfrentamos muitas dificuldades e desafios, deixamos de socializar. Eu e Lela tínhamos a opção de nos submetermos à cirurgia, mas aí nos  45min  do segundo tempo, nós  desistimos….

Hoje levamos uma vida normal dentro dos padrões da surdez, somos felizes, a nossa família tem nos ajudado, encontramos sim muita resistência da parte de alguns, mas é a vida. Não pedimos e nem tampouco reclamamos. Passamos por dificuldades? Sim, muitas, mas procuramos nos fortalecer sempre porque cremos que para tudo existe uma saída e quando não conseguimos só, buscamos nas outras a vontade de seguir. Somos guerreiras, pois alcançamos as nossas metas e continuaremos seguindo porque o nosso alvo está à nossa frente.

Tínhamos o sonho de ter a nossa vida profissional, e estamos hoje capacitadas e encarando o mundo de frente (pois de costas fica difícil ouvir, rsrsrsss) brincamos com as piadinhas de mau gosto, quebramos a resistência do outro com o nosso bom humor.

Agradecemos a existência do Grupo Crônicas da Surdez no Facebook,  em especial  à Paula que criou esse mundo para a gente, pois aqui sentimos que verdadeiramente estamos no nosso mundo, são histórias parecidas, as mesmas experiências e dificuldades. Temos otosclerose, graus diferentes, mas a deficiência é a mesma, somos surdas oralizadas, uma doutora de bichinhos (veterinária) e as outras profissionais de beleza. Trabalhamos com o que gostamos, trabalhamos com o público. Muitas vezes é difícil, pois encontramos pessoas incompreensíveis e mal educadas, pessoas sem paciência, mas também encontramos pessoas que nos ajudam e compreendem a nossa deficiência.

Não somos amargas e nem acomodadas e também não nos conformamos com a surdez, apenas aceitamos que nesse mundo ninguém é perfeito todos temos um certo defeitinho  de fábrica, rsrsrs. Essa é  nossa história, a nossa realidade.

27 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010, e também escrevo o blog Sweetest Person desde 2007. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

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