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Tudo é comunicação

Foto: Shutterstock

Na minha ida à Califórnia no ano passado, visitei o Pier Santa Monica. Neste dia, enquanto apreciava a paisagem e trocava a bateria do meu implante coclear, fiquei observando aquela movimentação frenética de pessoas e pensando:

Tudo é comunicação!

Meu dia começa sem som. Acordo sempre com a claridade da manhã quando estou em casa; descobri que como surda sou muito sensível à qualquer luz enquanto estou dormindo – é meu cérebro me alertando de um possível perigo. Meu dia começa com luz e sem som, e quando ligo o som já volto a esse entendimento de que tudo é comunicação.

Ao ouvir o ‘bom dia’ da pessoa com a qual você divide a vida já dá para descobrir se ela(ele) acordou de mau humor. Ao ouvir o barulho das patas do seu cachorro arranhando a porta do quarto, já dá pra sacar que ele quer sair para passear. Ao ouvir o canto dos pássaros pela sua janela você percebe que até na natureza essa máxima é verdadeira.

As pessoas se comunicam o tempo todo, consciente ou inconscientemente

Uma placa de trânsito é comunicação. Um apito do policial na rua é comunicação. Fogos de artifício nos morros perto da minha casa são comunicação (só fui aprender o que significavam ano passado, hehehe). Um alarme anti-furto dentro de uma loja é comunicação. Uma propaganda num outdoor é comunicação. A campainha da casa é comunicação. Um olhar cúmplice é comunicação – e uma piscadela, mais ainda.

Você pode olhar, ouvir, sentir, junto ou separado, ao mesmo tempo ou não, e tudo isso será, de alguma forma, comunicação.

Perder a audição ao longo de 30 anos me fez olhar para a comunicação humana de um jeito diferente. Não ouvir me mostrou o poder da comunicação de um jeito que nada mais seria capaz. Ter voltado a ouvir me mostrou que ter esse poder intacto de novo fez com que as pessoas ao meu redor voltassem a me respeitar.

Ser capaz de me comunicar de igual para igual com qualquer pessoa outra vez me devolveu a sensação de estar viva, de estar presente, de fazer parte. Quando estou presa no silêncio, volto a me tornar mera observadora. Quando deixo o som entrar, viro protagonista. Só sei que não quero ser coadjuvante nunca mais. 🙂

Comunicação é pertencimento

É pertencer à sua família, sua turma, sua relação, seus colegas. Ouvir, de alguma forma, ajuda demais com esse pertencimento, pois nos deixa em pé de igualdade com qualquer um.

Eu lembro especificamente de um dia, logo apos ativar meu primeiro IC, quando eu estava ao lado do meu irmão no sofá da sala e minha mãe deu um grito do quarto perguntando ‘onde está a Paula?‘. Como vi que ele não deu muita bola, eu mesma respondi ‘A Paula está aqui e está te ouvindo‘. Naquele momento, percebi que durante muitos anos as pessoas não se comunicaram comigo do mesmo jeito como se comunicavam com as outras, pelo simples motivo de que a mensagem enviada a mim não me alcançava. Era como falar com as paredes…

Hoje, é maravilhoso saber que a mensagem não precisa passear até me atingir. Ela chega na hora, sem telefone sem fio, sem atraso, sem mal entendido. E quando temos deficiência auditiva, só a tecnologia nos proporciona isso; benditos sejam os aparelhos auditivos e os implantes cocleares.

Uma das sensações mais lindas que vivi após 2013 foi quando entrei numa sala de aula ouvindo. Um dos locais mais tensos e difíceis para mim havia se transformado num ambiente tranquilo, sereno e sonoro. O som chegava sem esforço, sem desespero, sem leitura labial. E isso modificou para sempre a minha percepção de dificuldade e a transformou no entendimento de que você só terá a vista do topo da montanha que se propôs a subir. A montanha da reabilitação auditiva é alta, cheia de percalços, desafios, dias nublados e cinzentos, tombos, choros e vontade de desistir – mas aqueles que perseveram e chegam ao cume têm a vista mais espetacular de todas!

28 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010, e também escrevo o blog Sweetest Person desde 2007. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 34 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

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