Crônicas da Surdez Deficiência Auditiva

O que você deve saber se ama um surdo oralizado

Se você se relaciona íntima e romanticamente com uma pessoa que convive com a deficiência auditiva, precisa prestar mais atenção a alguns detalhes. Cada um tem seus desafios na vida, mas o nosso é constante e não sumirá de repente. Em alguns casos, conseguimos atenuar e melhorar bastante as dificuldades que a surdez nos causa; em outros, nem tanto. Cada um de nós gostaria que as pessoas que nos amam se ligassem em algumas coisas, como essas…

O cansaço

A surdez é MUITO cansativa. Começamos o dia no silêncio mas, quando ligamos nossos aparelhos auditivos e implantes cocleares, o som entra como um tsunami, inundando tudo. Nós somos diferentes nesse quesito de vocês que ouvem. Nosso cérebro é bombardeado o dia inteiro com informações e barulhos que não conseguimos filtrar e separar como vocês, por isso, ele trabalha mais e é mais exigido. O resultado é um cansaço mental difícil de explicar, mas fácil de notar. Tente entender!

A vontade de desligar os aparelhos

Se você tivesse um botão OFF para barulhos, ruídos, chatices, gritos, você o usaria? Tenho certeza que sim! Nós temos essa possibilidade e em muitos momentos queremos desligar os aparelhos e ter a paz do silêncio, afinal, nós podemos fazer isso se quisermos. Qual o problema? Você acha que isso é falta de educação? Tente ver pelo outro lado, tenha um pouco de empatia. Não estou falando que você deve achar legal ou concordar quando eu cônjuge resolve ser teimoso ou não muito inteligente e aposentar os aparelhos. Estou só dando a dica: às vezes, nós queremos ficar OFF. Eu, por exemplo, para me concentrar numa leitura ou no trabalho (que é basicamente em frente ao computador), preciso tirar meus IC’s. Quando chega de noite, após um dia corrido, não vejo problema em conversar lendo lábios. E gritos de crianças e barulho de obra de vizinho são automaticamente anulados, sem dó nem piedade.

As perguntas  e comentários indelicados

“Você está de AASI/IC?”, “Você não me ouviu?”, “Você está berrando!”, “Tem certeza que esse AASI/IC está funcionando hoje?”, “Para que fez IC se não usa?” e todos os derivados. Para você soa tão ok dizer essas coisas, né? Para nós, desculpe a sinceridade, não. É como se nossa ferida fosse cutucada com unha comprida quando ouvimos isso da pessoa que amamos. Você já sabe a resposta, para que perguntar? Se estamos gritando é porque não controlamos nossa voz como uma pessoa que ouve. Se não ouvimos é porque não ouvimos.

A sua família e os seus amigos

Não sei se você sabe, mas não achamos bacana as piadinhas, as gracinhas, os comentários ‘inofensivos’. O seu papel é orientá-los a não achar que têm conosco a intimidade que não demos. Eduque a sua turma em todas as oportunidades que tiver. Alguns de nós levam na esportiva ou têm sangue de barata, outros, não. Fique esperto! Não é divertido quando sua tia ou seu melhor amigo vêm com perguntas difíceis como: “Será que o filho de vocês vai ser surdo?“, “Ela/Ele ainda vai perder mais audição?”, etc. Já vivemos constantemente assombrados por esses pensamentos, não precisamos que outras pessoas – não solicitadas – venham nos lembrar disso.

A intimidade física

Quando eu usava aparelhos, odiava mais que tudo que alguém passasse a mão na minha cabeça ou perto deles. A microfonia me deixava nervosa, e não há nada que possamos fazer para que ela não exista. Ela existe e sempre existirá, e nos causará desconforto forever. A gente ri para descontrair, mas, lá no fundo, a vontade é jogar o AASI no chão e pisar em cima. Na hora da intimidade física, siga as nossas regras. Você gosta de fazer sexo ouvindo? Bem, nós também, só que temos que lidar com AASI apitando, IC caindo, molde machucando, pilha acabando, IC saindo de trás de orelha. Às vezes só relaxamos de verdade sem eles. Fala sério, não é possível que você se incomode tanto assim…

A questão financeira

Seu sonho de consumo deve ser o carro do ano mas, para nós, ele geralmente envolve o último modelo de aparelho auditivo ou de implante coclear. Nossas prioridades acabam sendo outras, já que somos privados do tesouro que é a facilidade plena de comunicação. Saiba que nós daríamos tudo se pudéssemos caso esse ‘tudo’ nos devolvesse a audição natural – e tudo o que vem junto com ela. Estamos cansados de saber que a tecnologia que nos ajuda é cara e agradecemos se vocês não ficarem jogando isso na nossa cara o tempo todo, porque machuca bastante.

A nossa gratidão

Sempre que vocês atendem um telefonema para nós, quando abrem a porta, quando atendem o interfone, quando prestam atenção aos barulhos que não ouvimos, quando fingem que são a gente num 0800 cretino, quando nos dão pilhas de presente, quando articulam bem os lábios, quando nos cutucam para chamar nossa atenção em vez de gritar nosso nome, quando nos defendem das gracinhas alheias, quando elogiam nossa voz, quando nos põem para cima, quando nos incentivam a melhorar, quando nos incentivam a correr atrás dos nossos sonhos independente da surdez, somos gratos. Gratos demais! Obrigada por ajudarem a transformar o peso da nossa surdez em leveza, obrigada por fazerem com que nossa passagem por este planeta tenha mais graça e seja mais leve.

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Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010, e também escrevo o blog Sweetest Person desde 2007. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 34 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

6 Comentários

  • O problema do cansaço é que as pessoas não entendem e acabam achando que você é enrolada ou lenta das ideias.
    Eu sofro muito com esse cansaço e com o ouvido meio “tampado” que é consequencia desses dias mais frios.
    p.s: escreve outro livro contando a experiência de usar dois ics.

    Bjs

  • Boa noite!!
    Dá para notar as queixas quanto ao cansaço ao final do dia.
    As demais dicas super aprendendo com a situação!

    Agradeço pela publicação e dicas!
    Ana Lucia Santiago

  • Oi Paula, vc disse tudo.
    Muito obrigado.
    Sou usuário de ic e passo por todos esses problemas que mencionou,
    Abraço

  • Essas crônicas estão me lapidando para que eu mesmo possa ser mais útil nos tratos da minha mãe que tem 85 e está nessa fase de perca da audição, porém não sei dizer o grau, pois ainda não fomos a um especialista médico, mas já estamos percebendo as dificuldades e que nos causa incômodos, mas muito menos do que a falta da perfeição que um dia ela teve. É uma pena e diante disso fico grato por você compartilhar o seu dia a dia, mesmo sendo de uma pessoa mais nova e com essa mesma dificuldade, fazendo relatos ao ponto de nos ajudar a nos adaptar ao mundo do silêncio imposto pela natureza humana ao nascermos ou quando se hospedam em nosso endereço. Obrigado Paula!

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