Crônicas da Surdez Deficiência Auditiva

Um papo sobre deficiência

Foto: Shutterstock

Bati um papo sobre deficiência com um amigo jornalista esses dias. Disse a ele que matérias que versam sobre o tema deficiência podem ser um pouco chatas – tanto para quem lê quanto para quem dá o depoimento. Você pode ter escalado o Everest, descoberto a cura do câncer e ganho um prêmio Nobel, mas se isso for citado junto com a palavra deficiência, é nela que as pessoas vão se focar, não importanto o resto.

D-E-F-I-C-I-E-N-T-E

Pergunte a qualquer deficiente se ele se sente D-E-F-I-C-I-E-N-T-E e você vai se surpreender com as respostas. Na verdade, não é nem deficiente. É pessoa com deficiência – embora ninguém se dê ao trabalho de entender que a pessoa vem ANTES da deficiência. Bem antes, por sinal!

O que a falta de um sentido acarreta na vida de alguém é simples: isso nos priva de algumas coisas. No caso da deficiência auditiva, eu poderia dizer que sou privada da delícia de compreender as conversas humanas sem esforço. Nunca pude fechar os olhos enquanto assistia à TV ou estava no cinema, por exemplo. Tenho que estar 1000% alerta se quiser me comunicar.

Quando leio que ‘um deficiente está quebrando tabus’ e coisas do tipo, só fico imaginando o que se passa pela cabeça de quem escreve algo assim. Na boa, o inconsciente coletivo brasileiro lê deficiência e pensa logo “infeliz, coitado, pobrezinho, incapaz, inútil”.

Pior é quando escrevem que ‘apesar da deficiência, fulano conseguiu fazer tal coisa’. Bem, isso só faria sentido, no meu caso pelo menos, se a frase fosse ‘apesar da deficiência, fulana conseguiu ouvir’. Porque, de resto, a minha surdez não tem nada a ver com as minhas capacidades e incapacidades!

É uma pena que jornais e TV gostem tanto de apelar pro coitadismo, enquanto poderiam estar prestando um grande trabalho ao mudar o foco para o tema acessibilidade. Nós que somos surdos oralizados temos um longo caminho pela frente no que diz respeito a isso: falta acessibilidade para nós nas escolas, nas universidades, nos cursinhos preparatórios para concursos, nos cursos de idiomas, e por aí vai.

Exemplo de superação

Ah, e há também o fatídico ‘exemplo de superação’. Já falei aqui em outras ocasiões e repito: na minha opinião, a palavra correta é adaptação. Eu não superei a surdez porque ela não é ‘superável’, jamais terei meu sentido de volta naturalmente. Mas me adaptei a ela e o meu foco não são as coisas que não consigo fazer, porque se passar 24hs pensando nisso, além de ficar louca não vou ajudar nem a mim, nem a ninguém.

E o objetivo do Crônicas, desde o início, é inspirar as pessoas a entender que a vida continua e a gente é muito mais capaz do que pensa ser.

Por isso me dói quando alguém me escreve dizendo que acha que a sua vida acabou porque descobriu que tem deficiência auditiva e vai ter que usar aparelhos auditivos. Dá vontade de dar um chacoalhão, um ‘pedala Robinho’. Sério!

A vida acaba quando a gente morre ou então quando entrega os pontos e decide que é mais fácil ser um coitadinho do que um lutador. E realmente é mais fácil, já que ser um coitadinho não requer esforço algum: basta sentar, reclamar e praguejar até o fim dos dias.

Enfrentar fonoterapia, aguentar o cérebro irritado com o uso dos AASI, precisar aprender a controlar a própria voz, virar expert em leitura labial  – e outros pormenores que vocês estão carecas de saber – isso sim é jogo duro!!

Deficiências têm a ver com recomeços. E recomeços têm a ver com encontrar aquela força interna que fica lá dentro escondida para as horas em que mais precisamos. Trate de encontrar a sua! 😉

73 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010, e também escrevo o blog Sweetest Person desde 2007. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 34 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

36 Comentários

  • Vou contar algo que me aconteceu, aliás, acho que com todos em algum lugar ou momento. Fui a uma repartição, não lembro se pública ou privada. Fui chamado e me aproximando da atendente não entendi o que ela disse. – tenho deficiência auditiva e ela exclamou -ho coitado. Eu ri, me soou como piada.
    Acho que como todos os portadores de deficiências sensoriais ou físicas passamos por situações que são mesmo estranhas.
    Toda vez que converso com alguém sobre minha deficiência auditiva dou enfase ao que ela me trouxe de bom, como por exemplo uma sensibilidade maior, percepção maior do campo de visão, o olfato melhor e etc. São coisas que acredito tiram de nosso interlocutor esta ideia de “pobre coitado”. Abraços.

  • Olá, gostei muito de seus textos. Não sou deficiente auditiva nem surda. estou estudando Libras, fazendo curso de especialização para ser intérprete. Não imaginava que havia tantos obstáculos para os deficientes auditivos. E realmente, há maior ênfase quando se trata da surdez, exemplo disso é a lei 10.436/2002 – que dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais – LIBRAS; o decreto 5626/2005.
    Estou super admirada com seu blog, quero ler o livro e concordo em número, gênero e grau com tudo que você disse.
    PARABÉNS!!!
    Desejo muito sucesso a você.
    Abraços

  • Parabéns, muito bom o texto. Mu filho recém foi diagnosticado com surdez profunda, efeito da meningite. Eu e minha esposa estamos começando agora a trilhar esse caminho de aprender sobre a surdez, pois queremos estimular nosso filho e fazer de tudo que pudermos para ele.

  • Concordo plenamente com suas colocações no texto…Sabias palavras que faz agente refletir bastante pois sempre nos limitamos principalmente quando nos deparamos com alguma situação de dificuldade e nos intitulamos de ”coitadinhos”…a vitoria depende do esforço e da vontade de cada um.

  • Paula, boa tarde!

    Sou Daniella, não possuo nenhuma Deficiência, mas tive contato direto com deficientes Auditivos, e visuais. Acredito que ainda a limitação auditiva, seja alvo de muita falta de conhecimento, estive em aula em um curso Técnico de Manutenção de Computadores, e abortei que não há pessoas especializadas em atender esse público, e também o quanto os Softwares livres poderiam influenciar na infância da criança portadora, ou até mesmo as pessoas que tem essa perda auditiva em casos de acidentes e ou por outros motivos. O que vejo é que a resposta é, há escolas especiais, para tais pessoas, e isso me revolta imensamente. Como mudar isso?! Como implantar a linguagem de Libras nas escolas, e a integração social, entre crianças sem a audição sem nenhum tipo de discriminação. Eu tenho filhos, e são muitos, e para a sociedade isso já é feio, e para ajudar, não tenho um companheiro, minha mãe que vem sendo meu braço direito, sei que é o preconceito.E gostaria de fazer algo em prol, para que possamos aprender e também ajudar a todos, seja em conhecimento, ou atravessar a rua, ou entender um pedido, e principalmente ao combate da violência, seja física ou moral, de seres humanos, que merecem respeito e dedicação.
    Grande beijo meninas!

    Inté

    Dani Faraday

  • Gostaria de saber a tua opinião sobre Escola Bilingue para Surdos pois o movimento está bastante forte e confesso ter um montão de duvidas a este respeito.Se souberes de algum documento que eu possa ler sobre este assunto….Bjão!

  • Pô sensacional este texto, sempre temos o estigma de coitadinho e quando conseguimos algo somos taxados de excepcionais como que a surdez (ou outra deficiencia) fosse o obstaculo que superamos, ô loco ehehehe, ignorancia, mas o que nos impulsiona é que diante de nós essa dificuldade (deficiencia) é como se fosse alguém que estivesse nos desafiando, mas de forma saudavel e amiga, aí cada vez mais vamos se adaptando e sabendo como lidar com as dificuldades que nos sobrevem, mas que a deficiencia nos torna sabios isso é verdade, em muita coisa a gente tem a capacidade e maturidade de saber agir, basta usar o cerebro eheheheh, muito bom este texto, parabéns Paula e Lak !!!

    Abração

    Glauber

  • Paula, parabéns pelo excelente texto, às vezes é complicado mesmo conviver com as pessoas, pois elas parecem que possuem algum receio com o diferente, mas hoje vejo que este tipo de gente é minoria no meu “círculo de convivência”.
    Abraços

  • Gente, que coincidência, a Paula colocar essa semana a cerca desse assunto! Olha, eu tava, semana passada, irritadamente chateada com esse tratamento, exatamente como a Paula colocou “endeusamento X coitadismo”, palavras que caíram como luva no que venho sentindo esses dias.

    Eu nunca, desde minha infância/adolescência/entrando agora na adulta, conseguir ficar feliz quando vivia em torno na minha deficiência, imaginem a situação:

    “Ooooooooooooooooooooh”(imitando uma cara como se tivesse falando com uma criança de 4 anos), é exatamente assim que o pessoal adepto do “endeusamento X coitadismo” começam, “A Gabi é megaaa inteligente porque passou numa federal”, “A gabi anda de bike bla bla”, ” A gabi tem um NAMORADO”, pasmem gente, até isso, ” A gabi é braba, não dá pra acreditar”.

    Na minha cabeça passa um misto de sentimento e frustração, eu me imagino naquela cena do Rambo, faixa na testa e pegando uma metralhadora disparando todo mundo..Desculpem galera, não sou mais nem menos inteligente, só estudei muito pra passar, ando de bike pq minha bicicleta é adaptada, nada tem a ver com minha surdez, tenho namorado, ele não namora comigo por pena, namora pq eu tive sorte de conhecê-lo, sou braba sim, gente, curta e grossa e ando e @#$%..não preciso ser santa q nem Madre de Calcutá por causa da minha deficiência.

    Como a Lak colocou, sou simplesmente humana. Não passo 24 horas por dia pensando na minha deficiência, já estou 100% adaptada, eu passo é 24horas por dia pensando no meu café da manhã, encontrar um emprego, almoçar, emagrecer (tirar minhas banhas) e cuidar da minha cadelinha Rayca e ver meu namorado todo fim de semana, fazer amor, é claro! E fofocar com minhas amigas sobre o maquiagem mal feita da fulana, a roupa rasgada do fulano, o cara feia do vizinho enjoado. 😀

    Beijos, adoro esse Blog.

  • Paula, maravilhoso texto! Mesmo imaginando o que leria abaixo no texto, você me surpreendeu, com a sua simplicidade. Beijos.

  • Parabéns Paula, por produzir um dos mais brilhantes textos sobre o assunto, que eu já li. Nossa singularidade acaba ficando mais “colada” na gente que a singularidade dos outros. Devemos sempre evitar os rótulo que nos impõem por causa dessa singularidade. Nen coitados e nem heróis. Gente é o que somos. Abração.

  • Será que os artigos sobre deficiencia são um tanto chatos devido ao medo que as pessoas tem em ofender e nisso se limitam a escrever textos com cara de “técnicos”?

  • Eu nunca gostei das palavras “deficiência” e “deficiente” pois possui o sentido pejorativo. Prefiro me definir como surda, e ponto! É bem difícil fazer as pessoas entenderem que eu sou muitíssimo feliz sendo surda e que nunca foi um peso na minha vida.

    Quem não nos conhece como pessoa, sempre vão pensar: “ah tem deficiência, coitadinho!” como se fossemos inferiores às pessoas “normais”. E esquecem que por dentro somos iguais ao todos os outros; e que no dia a dia fazemos as mesmas coisas que todo mundo como pagar as contas, limpar a casa, ter momentos de alegria ou tristeza e matar um leão a cada dia para alcançar os nossos sonhos da vida!

    P.S.: Paula, adoro tudo o que você escreve!

  • Parabéns pelo Texto. Fala o que a tchurma queria explicar.
    A cada texto preciso como o seu, trato logo de passar o link por e-mail para meus conhecidos esperando que repliquem a mensagem.
    Minha humilde opinião é de que a “mídia” faz o que faz com os malacabados (do Tio Jairo) porque não SABE ou ninguém explica.
    Temos de colocar/passar textos claros e bonitos como este e sem frescuras para quem Não é da turma saberem o que se passa.
    Depende de nós mesmos.

  • Parabéns pelo texto. concordo inteiramente ,com ele, em genero, número e grau!!! “estou deficiente auditiva” há nove meses. só agora consegui passar por cirurgia de implante coclear e estou aguardando período de cictrzaçãopara ativar os eletrodos e começar , novamente,aouvir. sempre pensei, comigo mesma, vencerei!!!

    • Parabéns pelo IC. Espero que goste bastante. Pode ser estranho no começo, principalmente para quem tem muito parâmetro de comparação – o som é mais metálico, pois trata-se de uma tecnologia – mas vale a pena ouvir, mesmo que dessa maneira. E depois, o cérebro acostuma e ignora a metalização do som!
      Beijos

  • Incrível, a clareza da realidade nua e crua do que é o mundo em relação a deficiência, qualquer uma que seja. Parabéns!

  • Meu filho ‘deficinte’ me ensina a cada dia! Um grande exemplo de que sentir- se deficiente é Aprendido e não nato, tamanha a adaptação e sim, com muitos recomeços… Parabéns pela reflexão!

  • Concordo em gênero, número e grau… quanto mais estudo sobre o discurso da deficiência na mídia, mais vejo que essa ideia de superar-se a todo custo é disseminada e acaba incutindo na cabeça das pessoas uma ideia errada sobre o que é viver com uma deficiência. Parece que quem vive com a deficiência tem que ser um misto de coitadinho com super homem né?
    Bjs

    • parabéns pelo seu comentário,até me achei mais valorizada sério.Minha deficiência é mental mis o texto foi o que precisava e o site e a página demais!!!!!!Vamos fazer um movimento para requerermos mais direitos,é isso mesmo!!!!precisamos ter tudo inclusive aposentadoria sem pagar o inss quer enrrolação maior que éssa?Vamos com força total somos os mais inteligentes do mundo vamos ter do bom e do melhor ísso mesmo aqueles que nos respeitam com um pé atrás ainda não sabem oquê está por vir,eles já estãocaretas de saber que nós é mudamos este país pois merecemos muito muito mais do que já temos.Bilhete único grátis emprego só dão para os deficientes físicos hhhaaaa péra[i né?nós os mentais vamos conquistar um posto maior pois somos os mais iteligentes,chamam a propaganda, aglobo ,o sbt e por ai podemos mudar esta nação criando coisas novas novidades para tudo é só investirem em nós.penssa a[i gente tem tudo a nosso favor a música a saúde tudo!!!festas….mídias ,moda olha quanta coisa…vamo lá vamo criar!!!e abaixo a solterisse,não somos tão loucos a ponto de sermos chamados de capados funcionamos melhor que muitos normais por ai,somos nós quem ajuda eles,não é verdade?
      asss Sofia Malimpensa de Lima.PODE CHECAR.

  • Gente, que surpresa ver meu comentário colocado no blog do Jairo no meio de um desabafo seu, que expressa nitidamente o que eu sinto, em relação aos textos e reportagens sobre deficiência. Sempre extremistas, sempre endeusando ou ‘coitadizando’ as pessoas com deficiência…
    E, o que me estimula nada mais é que ver alguém com deficiencia que tem uma vida normal. Foi lá, casou e teve filhos. Fez uma faculdade e trabalha na sua área. Escreveu um livro – sobre qualquer assunto, menos biografia sobre a deficiencia – e fez sucesso. Etc… que falta faz ver isso na mídia. Alguém gritar: Cara, ter uma deficiência é chato, mas não precisa acabar com a sua vida nem se tornar o centro dela. Se adapta e continua vivendo!
    Mas, né? Isso não dá ibope! C’est la vie…
    Beijinhos e obrigada por completar, com maestria, meu pensamento.

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