Crônicas da Surdez Viagem Viajante Biônica

Viajante biônica: ida a Nova Iorque

E a saga da Viajante Bîônica continua, desta vez em Nova York. Fico impressionada com o quanto o tema surdez me persegue aonde quer que eu vá. Passei dez dias fora, em Nova Iorque e na Califórnia, e não pensei que veria tantas coisas legais sobre o assunto que domina boa parte da minha vida! Neste post divido com vocês achados, impressões e descobertas.

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Em frente ao Rockfeller Center, uma obra de arte que é uma piscina que remete à orelha de Van Gogh! Entenderam a ligação? Pois é, nem eu. À primeira vista achei que fosse uma guitarra gigante, mas ao me aproximar e ler a placa com as informações é que fui saber do que se tratava…Muito doido! 😀

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Milhares de pessoas já compartilharam o link com a notícia da marca de bonecas American Doll, que criou uma linha de bonecas com deficiência, usuárias de cadeira de rodas, aparelho auditivo, implante coclear, óculos, aparelho dentário, enfim, tudo! Entrei na loja para ver com os meus próprios olhos as fofuras e saí de lá querendo levar uma de cada pra casa. Essa é a que usa um aparelho auditivo ou implante coclear – na verdade olhando dá para achar que é um ou outro, tanto faz! Achei o máximo! As crianças precisam mesmo sentir essa identificação. Comentei com o Luciano que a pessoa responsável por isso merece ficar milionária, pois sua criação fez um bem danado para a autoestima de milhares de crianças do mundo inteiro. É cara, a boneca custa U$120 e as roupas e acessórios (incluindo o AASI/IC) são vendidos à parte. E a loja parece um sonho, tem até salão de beleza para os cabelos das bonecas e tudo o que vocês forem capazes de imaginar. Os olhos das garotinhas brilhavam lá dentro…

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O T-Coil (hearing loop ou indução magnética) está disponível pela cidade inteira. Esse da foto foi no The Frick Collection. Ative a chave T do seu aparelho auditivo ou implante e vá ser feliz ouvindo tudo direto neles! <3 Lembro de uma viagem à Londres em que fiquei cho-ca-da ao perceber que os táxis (Black Cabs) londrinos possuem T-Coil. Enquanto isso, no Brasil, a Associação Nacional de Escolas Particulares entrou com uma ação para que as escolas não sejam obrigadas a aceitar a matrícula de alunos com deficiência. É o apocalipse, mesmo.

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A Catedral de St Patrick, que é enorme, colocou inúmeras TV’s e melhorou muito a acústica com caixas de som estrategicamente posicionadas. Faltou um closed caption ao vivo – nesse dia o Prefeito de NY estava falando para os fiéis na missa sobre o atentado que matou policiais americanos em Dallas. Em inúmeras situações o que falta é o feedback de um deficiente auditivo, não? Se põem TV’s enormes, custa ter closed caption? A falta de acessibilidade em igrejas é recordista das reclamações que recebo de pessoas mais velhas, e, nesse caso específico, tudo se resolveria com legendas.

  • Fui na Parede do Eco dentro da Grand Central Station e achei que fosse conversa pra boi dormir aquele papo de que se você fala numa coluna a pessoa que está na outra coluna, a uns 50 metros, escuta e entende direitinho o seu sussurro! E não é que fizemos o teste e deu certo? Mal consegui acreditar quando ouvi os sussurros do Luciano…Vale fazer o teste numa ida a NY, é divertido e interessante!
  • Observei feliz da vida que todos os locais que deixam a TV ligada também deixam as legendas ativadas. E o botão de Closed Caption nos controles remotos é grande e bem visível. Sem falar que a qualidade das legendas é outro nível, esqueçam as legendas que nos oferecem no Brasil, nos EUA isso é levado a sério. Perfeição define!
  • O UBER quebra um galho enorme para nós, pois colocamos os endereços de início e fim e não precisamos sofrer num bate-papo com o motorista, que em geral é estrangeiro e com sotaque carregado, o que dificulta mais nosso entendimento.
  • Recebi vários alertas por SMS no meu celular sobre tempo e trânsito, e olha que nem estava com ele habilitado para uso no exterior. Muito bom! Principalmente em caso de tragédias, incêndios, atentados, etc.
  • Em Valencia, na Califórnia, fiquei impressionada quando passei por um cinema e nele havia uma placa enorme avisando que eles possuíam dispositivos de acessibilidade para surdos à disposição, além do hearing loop (indução magnética, T-coil). Infelizmente não pude tirar foto porque quebrei o meu celular na saída da visita à AB na sexta-feira, e fiquei offline a partir daí. 🙁
  • A grande maioria dos dispositivos eletrônicos à venda nos EUA possui um selo que diz “Compatible with Hearing Aid T-Coil“, ou seja, o negócio é ter um aparelho auditivo que possua a chave T!
  • Em viagens, se vocês ficarem atentos, vão perceber inúmeras coisas diferentes e legais que envolvem acessibilidade para surdos. Basta ficar com as antenas bem ligadas! 😉
52 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010, e também escrevo o blog Sweetest Person desde 2007. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

3 Comentários

  • Oi Paula. Adorei a sua história da viagem. Fico admirada com as suas histórias. Nunca fui para o estrangeiro. Vc desculpe a minha ignorância, o que faz o T-Coil? Sou usuária de aparelho auditivo bilateral, não existe chave T nele. Obrigada pela sua atenção.

  • Olá. Sou surdo oralizado, estudante de direito e gostaria de saber se é possível seguir carreira pública no judiciário à despeito da deficiência auditiva?

    Parabéns pelo blog!

    • Oi, Joaquim.
      Claro que é possível, caso seja isso mesmo que deseja. Eu sou analista judiciário do TRE e tb sou surda oralizada.

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