Acessibilidade Viagem Viajante Biônica

Viajante biônica: mais sobre Paris

Podemos dizer que nesta ida à Paris virei a legítima caçadora de aro magnético pela cidade luz. De tanto ler sobre o assunto através da Sô Ramires não sosseguei até matar minha curiosidade – o que me levou a mandar instalar aro magnético na Sonora, inclusive! O que descobri? Todos os museus e a maioria absoluta dos locais públicos possuem a tecnologia, e além disso praticamente todo elevador moderno que entrei também possuía. Paula dando pulinhos mode ON!

 

A foto abaixo com sorrisão de felicidade foi na minha ida à Maison de Victor Hugo, na Place des Vosges no Marais. Que experiência bonita e transformadora – pela primeira vez me senti PLENA num museu. Antes, ficava olhando as pessoas com seus fones de ouvido e audioguias explicando as obras e a história e chupando o dedo.

Assim que cheguei, tentei meu ingresso grátis – em Paris reza a lenda que todos os museus de Paris dão ingresso grátis a PCD’s com identificação e um acompanhante. Minha única identificação como PCD é a carteirinha de implantada (tenho em português e em inglês, o fabricante dos meus IC’s que forneceu) que, convenhamos, não é nada crível. Para bom desavisado, ela não quer dizer nada, além de também não possuir validade legal alguma. Pois bem, apresentei a bendita no caixa e os olhinhos dele brilharam. Fiquei com a pulga atrás da orelha, porque ele cutucou uma senhora, que cutucou outra senhora e, quando vi, havia duas mulheres atrás de mim sorrindo e querendo conversar!

Meu ingresso foi gratuito e elas começaram a falar comigo. A primeira (esqueci os nomes, perdoem) queria entender o que era um implante coclear, e pedia para a segunda se comunicar comigo. Aí perguntei: “Dear, do you speak english?”. Acho que ela achou que eu usava língua de sinais. Sabe como o papo acabou? A primeira senhorinha era surda oralizada, surdez profunda, não usava aparelhos e disse que não fazia implante porque uma amiga disse a ela que explodia a cabeça. Sim, gente, a fofoca é tão pesada que chega até em Paris, hahahahaha! Fiquei meia hora dando uma aulinha básica de introdução ao IC. O que me deixou mega alegre foi que a outra moça estava radiante porque, pela primeira vez, alguém pediu um audioguia acessível. Ela me entregou um colarzinho com aro magnético que eu coloquei no pescoço e conectei ao audioguia.  Ativei o T-Coil dos meus N6’s e passei a ouvir direto nos implantes tudo o que o audioguia dizia, com o bônus maravilhoso de ouvir SÓ isso!

 

 

Fiquei parecendo uma bobona, sério. Não consegui disfarçar minha felicidade, tanto pela acessibilidade total que consegui quanto pelo fato de estar ouvindo e entendendo em espanhol. Cara, muito legal! Só quem perdeu toda a audição ao longo da vida e a conseguiu de volta é capaz de capturar a beleza de uma coisa tão banal como essa. Ouvir. Ouvir e entender! E pensar que há 4 anos atrás isso não passava de um sonho enterrado a sete palmos para mim…

 

Fui ao Musée D’Orsay com o Luciano. A fila era gigantesca, olhei para ele e sugeri que entrássemos na fila especial, e ele me olhou como quem diz ‘tá louca, fofa?’. Bem, entramos, passamos em 2 minutos, avisei que era implantada. O segurança pegou minha carteirinha como quem pega a identificação do Clube dos Amantes de Chocolate Gourmet Feito Com Leite de Vacas Criadas no topo dos Alpes Suíços que só bebem água termal. Mais ou menos assim, juro. Tipo não sei que diabéisso não sei que diabéssa carteira, filha, mas entra, vai. Não estava na vibe de dar aula a ninguém naquele momento, então simplesmente fui.

Nesse museu descobri que se eu colocasse o fio do colar em cima dos N6’s o som ficava 5x mais alto pra mim. Investigando na internet depois, descobri que existe um aro magnético específico para ser usado com AASI e IC, que parece dois fiozinhos com ganchinho, com design bem mais inteligente do que esse que os museus fornecem. O colar é legal mas o som só fica alto pra valer se o fio encosta nos aparelhos, ou seja… mais uma vez quem vence a luta é a tecnologia, dessa vez aliada ao design.

Fotinho com o Van Gogh para eternizar o momento!

Entrei numa loja chamada Intimissimi, em Saint Germain des Près, e comecei a pedir coisas para a vendedora em inglês. Como ela estava com bastante dificuldade para me entender, achei que fosse francesa. Qual não foi a minha surpresa quando perguntei de onde era e a resposta foi “Brasil”. Ela caiu na gargalhada e disse: “Que sofrência, por que você não falou comigo em português?” Como é que eu ia saber…

E sobre aqueles momentos que só surdo entende, fiquei mega feliz quando descobri que nosso hotel não tinha arrumadeira (cada um por si, ela só viria a cada três dias). Qual o motivo da felicidade? Poder chegar da rua podre de cansada, me atirar na cama com IC’s desligados e não precisar ficar tensa imaginando que alguém vai bater na porta pra limpar o quarto.

 

Na volta fiquei decepcionada com a AirFrance porque poucos filmes tinham legendas, e os que tinham, acho que só dez eram em português e meia dúzia em espanhol, zero em inglês – e, para meu azar, já tinha visto quase todos! Confesso que não entendo as companhias aéreas, legenda é uma coisa tão básica, como eles podem adivinhar qual língua o passageiro quer ler quando viaja? Ouvintes também têm dor de ouvido ou sei lá que problema que os impede de usar fones. Não sei se é falta de bom senso ou de empatia mesmo.

 

 

Esse case surrupiei do Luciano, veio junto com uns fones de ouvido wireless que ele comprou tempos atrás. Cabe todas as minhas baterias, cabinho do iPhone, MiniMic 2, cabos de áudio com o fio que os une, pilhas… De um tudo! Implantado que se preze tem que saber organizar sua parafenália toda do jeito mais prático possível.

 

 

Eu adoro Paris, essa foi a sétima ou oitava vez que fui lá. Nessa ida, com implante bilateral, descobri uma cidade muito mais barulhenta, muito mais viva. Nos hospedamos num hotel e tivemos a sorte de conseguir uma sacada bem grande com vista panorâmica da cidade, e foi nela que passamos várias noites bebendo vinho e conversando. Numa dessas conversas, o Luciano me pediu para fechar os olhos e prestar o máximo de atenção que pudesse nos sons da rua e os descrevesse para ele. Foi super bacana porque descobri que nós ouvimos as mesmas coisas! Só deixei passar uns murmúrios de conversa lá embaixo que só ele ouviu. E como surda que ouve, fico toda feliz quando ouço uns elogios do tipo “nossa, você tá ouvindo isso, é muito baixinho, que incrível!!!”

Amo viajar, e meu sonho de consumo é conhecer todas as fábricas de implante coclear e aparelhos auditivos do mundo! Por enquanto, conheci apenas a da AB em Valencia. Lembram do post?

Próxima parada: San Francisco, Califórnia, no final do mês. 🙂

22 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010, e também escrevo o blog Sweetest Person desde 2007. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

2 Comentários

  • Lindo texto , importante compartilhar essas conquistas . Amei ! Vou fazer um implante e lendo tudo q possa ajudar me nessa nova concepção de vida .

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