Crônicas da Surdez Implante Coclear Viajante Biônica

Viajante biônica: Washington e NY

O post da tag Viajante Biônica de hoje é especial: essa ida a NY e Washington foi minha última viagem antes da chegada do Lucas! Não faço nem ideia de quando e para onde será a próxima, e nem se darei conta de viajar no modo mãe com um bezerrinho a tiracolo, rsrsrs! 🙂

Assim que chego ao aeroporto começo a prestar atenção em tudo que esteja relacionado com surdez e acessibilidade, não tem jeito. O radar liga e só desliga quando o avião pousa de volta no Brasil. Vou começar contando que fiquei com muita raiva quando notei que o entretenimento de bordo, mais uma vez, não era legendado. Acho uma falta de respeito, reclamei com a Delta Airlines mas, como sempre, não deu em nada. Em vôos noturnos quero pegar no sono logo, e gosto de ficar vendo filme legendado até capotar, pois assim posso tirar os implantes e ficar sem barulho algum entendendo o filme e relaxando. O jeito foi pegar meus cabos de áudio e assistir filmes com áudio em português mesmo – minha última escolha em qualquer situação porque definitivamente não há nada mais falso e chato que filme dublado….

 

 

Quando cheguei no quarto do hotel em Washington, estava literalmente quebrada. Nosso vôo de conexão foi cancelado por causa de uma tempestade de neve e ficamos presos no aeroporto de NY por mais de 7 horas. Depois, o avião precisou tomar um banho de produtos químicos (mostrei no Stories @paulapfeiferm, segue lá!) por causa da neve e da temperatura negativa e isso causou mais atraso. E o vôo, ah, o vôo. O primeiro numa turbulência de tempestade de neve a gente nunca esquece. Eu sou super tensa e surtada em vôos com turbulência, então, imaginem. Graças a Deus que o Luciano estava do lado e traduzia para mim os anúncios do piloto pelo alto-falante, porque não entendi uma mísera palavra sequer. Aliás, uma palavra que passou a me causar arrepios:

“Turbulence”

Era a única que eu entendia quando o piloto desandava a falar.

Mas voltando ao quarto de hotel, meu coração pula de felicidade nos Estados Unidos, porque o controle remoto dos hotéis é quase sempre o mesmo e ele tem um botão CC – closed caption/legendas. 100% da programação de todos os canais é legendada. Não tem isso de escolher um canal porque é o único que tem legendas. Amo esse controle! E me pergunto quantas décadas mais ainda demora para que a gente viva isso aqui no Brasil. Com o implante coclear bilateral noto uma melhora absurda no meu entendimento aleatório ao assistir TV. Explico: quando estou no quarto com a TV ligada mas fazendo outra coisa sem olhar para a tela, fico impressionada com a quantidade de frases que ouço e que fazem total sentido sem esforço algum.

 

A ida a Washington foi para acompanhar o Luciano no evento anual da CI Alliance, o CI2018 – aliás, clique aqui para ler o post incrível que ele escreveu contando sobre todas as novidades do implante coclear para 2018. Fui à pré-estréia do documentário The Listening Project  e foi emocionante. Com direção de Irene Taylor Brodsky, que já foi indicada ao Oscar e vencedora de Emmy, o documentário foi idealizado por Jane Madell, audiologista conhecidíssima de Nova Iorque com mais de 40 anos de estrada na reabilitação auditiva.

The Listening Project mostrou a vida de quinze pessoas que fizeram implante coclear, a maioria já adultos, após anos de dedicação à oralização e aos aparelhos auditivos – alguns fizeram quando eram crianças. Chorei do início ao fim, por total identificação com todos os sentimentos e situações relatados por cada um deles. Foi tão emocionante que, no final, quando abriram para perguntas, não consegui ir até o microfone fazer pelo menos uma das dez que queria fazer, por motivos de: não parava de fungar o nariz e os olhos vertiam lágrimas. No mínimo, ia gaguejar falando…

Fico toda arrepiada quando encontro pessoalmente pessoas cujas histórias de vida foram mudadas por causa do implante coclear. Só quem vive isso consegue compreender a dimensão e o poder dessa mudança e tudo o que ela traz para a nossa existência. Os 15 personagens foram pacientes da Jane Madell que, além de atual usuária de aparelhos auditivos, olhava para cada um deles com um semblante de orgulho e missão cumprida. Um deles era uma médica cujo nome esqueci, e Jane contou que queria dar uns tapas nela pela sua relutância em fazer o IC – que a ajudou horrores na medicina, mas que poderia ter feito muito mais se ela tivesse sido implantada vários anos antes.

 

 

Não posso deixar de comentar que os eventos americanos são outro nível. Os telões de TODAS as aulas nos congressos – e neste também – são legendados ao vivo. Enquanto isso, no Brasil, nada meramente parecido e preocupação zero com acessibilidade em eventos da indústria da audição e congressos de fonoaudiologia e otorrinolaringologia, hein? As legendas ajudam não só as pessoas que não ouvem (pacientes) como também os médicos e fonos que usam AASI e IC (nos EUA, são muiiiiitos!) e os médicos estrangeiros cujo inglês não é muito bom.

 

 

New York, New York… Já perdi as contas das idas à cidade que nunca dorme – acho que essa foi a sexta ou sétima. Ficamos em Times Square, que seria o equivalente à Copacabana em termos de turistas, barulho, ruído, buzinas. Nessas horas é impossível não me sentir incrivelmente sortuda por poder desligar os implantes e por não ter dificuldade alguma para dormir! O programa legal que fizemos com audição envolvida foi a exposição Our Senses, no Museu de História Natural. Embora tenha achado a parte sobre o sentido audição fraquinha, já que não falaram nada sobre as tecnologias que existem hoje para quem tem esse sentido comprometido, é sempre delicioso ler/ouvir/aprender sobre este tema.

 

Andando na rua, me deparo com um banco com o símbolo do aro magnético na porta, ou seja, os caixas estavam equipados com aro, o que permite que a comunicação seja muito melhor, mais clara e mais limpa para o usuário de aparelho auditivo. Me bate uma tristeza misturada com revolta quando vejo essas coisas porque não é possível que a gente precise viver com tanta falta de acessibilidade para surdos oralizados no Brasil em pleno ano de 2018. Nos EUA, você não vê aquela inutilidade do ‘telefone TDD’ em lugar nenhum. Ah, e nos Helping Points do metrô de Nova Iorque, lá estava ele, mais uma vez: aro magnético.

Acessibilidade é isso: disponível facilmente, 24 horas e grátis.

 

 

A cena abaixo registrei na BH Photo, enquanto o Luciano experimentava fones de ouvido com cancelamento de ruído. Não é irônico que os ouvintes queiram se livrar do ruído enquanto a gente faz qualquer negócio para ouvir? Ele ficou maravilhado com um dos fones porque quando passava a mão por ele ativava a opção ‘ouvir’ – pela primeira vez entendeu como é delicioso ouvir música sem ouvir mais nada ao mesmo tempo. Acabou levando para casa um earable por ser mais usável em inúmeras situações. E desde então eu tenho dado muita risada porque ele concentra só no que está ouvindo, se delicia com isso, e não quer nem saber dos barulhos ao redor. Aí , eu digo: “Viu como é bom? Agora me entende?” 🙂

 

 

Não sei vocês, mas 90% das vezes chego ao banheiro para tomar banho e esqueci de tirar os aparelhos. Como tenho preguiça de voltar para guardá-los, dessa vez encontrei uma solução inusitada: grudei os ímãs no metal da tomada, e ali deixei-os. Funcionou direitinho e ainda rendeu uma ótima foto. E antes que alguém tenha um chilique sobre a umidade do banheiro, tomei banho com a porta aberta então não rolou vapor!

 

 

Me segurei na papelaria do Chelsea Market, mas e a vontade de comprar todos os adesivos que caberiam no implante? Todos os dias recebo mensagens perguntando onde compro minhas pedrinhas e adesivos, mas não tem mistério: sempre em papelarias. Ultimamente tenho visto as pedrinhas até mesmo em lojas de bijuterias, e durante o Carnaval os camelôs estavam vendendo. O problema é que já passei da idade pra ficar usando bichinhos né gente? Mas para as mamães, fica a dica, pois a cola é fraquinha e dá um tchan sem comprometer os aparelhos!

 

 

Por último, o sorrisão da fofinha no Central Park. Amo cidades grandes como Nova Iorque porque me sinto livre, leve e solta andando pelas ruas enquanto presto atenção em todos os sons possíveis e imagináveis. Seja um floco de neve caindo no gorro de lã, seja um taxista surtado buzinando, um pássaro diferente, um anúncio no metrô, eu gosto de ouvir TUDO! Dessa vez uma pessoa parou e me pediu informação e foi tão natural ouvir-entender-responder em inglês.

Meu grande sonho de consumo é um intercâmbio de pelo menos um mês com imersão total em conversação em inglês. Como minha memória auditiva em inglês não é muito vasta, em vários momentos me vejo na dúvida sobre como pronunciar do jeito certo alguma palavra. Desta vez, aprendi e gravei – porque às vezes aprendo mas não gravo a informação, rsrsrs – que a pronúncia correta da palavra travel é “trável” e não “treivel” como eu insistia em falar. Tenho uma ânsia enorme de realizar esse sonho, melhorar muito meu inglês falado e de quebra ainda curar esse recalque de adolescente. Sério, só eu sei o quanto sofri por não poder fazer um intercâmbio quando tinha 16, 17 anos. Era o que mais queria, mas não tive coragem alguma em função da surdez. Vinte anos depois, cá estou eu doidinha da silva por essa oportunidade. Será que existe uma modalidade de intercâmbio para jovens mães biônicas? 🙂

 

 

E por último, quero compartilhar aqui um texto que escrevi na Fanpage enquanto estava em Washington:

“A rotina nos rouba a percepção de muitas coisas, talvez por isso quando viajo é que volto a perceber de um jeito muito forte o que os ouvidos biônicos fazem por mim. Sinto uma segurança que devo ter deixado de sentir aos 16 anos de idade, quando “descobri” que era surda. Hoje entrei num Uber aqui em Washington e, quando notei a naturalidade com a qual estava no banco de trás do carro conversando em inglês com o motorista sem precisar olhar pra boca dele… nessas horas é como se Deus estivesse me dando uma piscadela e dizendo “Viu só?”. Que sensação! Que gratidão! O que esses ouvidos fazem por mim é o que eu gostaria que a tecnologia fizesse por todos vocês. Eles me tiraram o medo e me devolveram a liberdade (inclusive a de espírito) e a ousadia. De surda apavorada que evitava até contato visual com os outros para fugir de uma conversa qualquer, me tornei uma cyber-ouvinte que só lembra que não ouve quando as pilhas acabam (hoje acabaram dentro de outro Uber, rsrsrs)! Nas viagens eu percebo que o que hoje é “normal e natural” pra mim, até 2013 se resumia em uma palavra: impossível! Como agora, por exemplo. Deitada na cama enquanto meu marido conversa comigo lá do banheiro, sem que eu o enxergue. Nós dois rimos e batemos papo, e quem pergunta “hãn?” não sou eu. Ficção científica? Milagre? Nada disso, apenas tecnologia. Rende-me a ela colocou todos os pedacinhos quebrados do meu espírito no lugar! ?”

 

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Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010, e também escrevo o blog Sweetest Person desde 2007. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

1 Comentário

  • Oi Paula,

    Eu fiz intercâmbio de inglês de 2 semanas na Global Village de Honolulu Hawaii, eles foram muito legais, nem me trataram de forma muito diferente. Acredito que você se sairá ainda melhor que eu num intercâmbio, pois pelo visto sua audição ficou ótima com os implantes. Eu uso os mesmos DAs bilaterais há 10 anos e consegui! (e olha que a minha audição está diminuindo com o tempo). Mas já aviso que é um desafio e tanto, entender gente do mundo inteiro que também está aprendendo e cada um com seu sotaque particular LOL É de fritar o cérebro, demorei um tempo para me recuperar após voltar para casa, mas a sensação e o diploma ficam para sempre. Go ahead!

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