Deficiência Auditiva Histórias dos Leitores

Viajar pelo mundo sem medo da deficiência auditiva

“Sempre tive muita vontade de viajar, de conhecer novos lugares, novas culturas e novos idiomas. E, como minha mãe me criou para o mundo, nunca senti que minha deficiência auditiva fosse um empecilho. E digo mais, adoro viajar sozinha! Fazer os passeios que quero na ordem que quero não tem preço!

A primeira viagem internacional grande que fiz foi para a Alemanha, em 2011. Fiquei lá por 6 semanas, e, inclusive fiz curso de alemão por lá. Bate um medinho do aparelho pifar? Bate. Mas se for pensar em tudo que poderia dar errado, me jogo da ponte. Pifar, o aparelho não pifou. Mas, no frio que fazia (era inverno, gente!), e nas mudanças de ambiente aquecido para o frio, um dos AASI precisou de mais cuidado e tinha que ser posto no desumidificador toda noite para funcionar adequadamente (sou meia relapsa com isso, confesso).

Depois, em outubro de 2012, fiz as malas e fui fazer uma pós na Inglaterra. De novo, o medinho do aparelho pifar. Já não eram mais seis semanas longe, e sim um ano. E, como a minha perda é progressiva, outro medo: e se a perda piorar? Que que eu faço? Mas isso não me impediu de ir. Sofrer por antecipação e deixar de realizar sonhos por isso não rola. Enquanto estava lá, um dos aparelhos pifou. Corre para achar uma assistência técnica por lá. Achei! Depois de uma hora de ônibus, chego lá, e a moça que me atendeu, ao descobrir que o AASI era brasileiro, me disse que não poderia conectá-lo ao computador para diagnóstico sem autorização da matriz, pois a garantia internacional já tinha expirado. Por sorte, não era nada muito complicado. Era só o protetor contra umidade que tinha saturado e estava bloqueando a passagem de som. Ela trocou o ganchinho onde fica o protetor e tudo resolvido.c

Lá, estava sozinha mesmo. Ninguém falava português. Mas, como meu inglês é fluente, me virei muito bem. Nas aulas iniciais, quando nos apresentávamos, deixava claro que poderia ter dificuldades para entender os professores e meus colegas e pronto. Depois que me acostumei ao sotaque, não tive grandes problemas (não mais que meus colegas chineses, por exemplo).

Voltei para o Brasil em 2013, mas sigo viajando conforme o orçamento permite. Voltei para a Alemanha em 2015, fui para o Canadá em junho de 2017 para ver o show do U2 sozinha (fiquei na grade do palco, deu até para ler os lábios do Bono de tão perto que eu estava!). E os canadenses ficavam chocados ao saber que inglês é minha segunda língua, pois não detectavam sotaque algum.”

Agora estou juntando meu dinheirinho para a próxima viagem, dessa vez com um AASI e um IC! 🙂

10 dicas para viajar sem medo da deficiência auditiva

Não deixe o medo de não entender o que estão dizendo te impedir. Tem muito ouvinte por aí que vai com a cara e a coragem, sem uma vírgula de inglês, turistar em NY (voltando do Canadá, ajudei um casal ouvinte a responder a pergunta mais batida dentro de um avião: “chicken or pasta” (frango ou macarrão) para o jantar. Depois, eles me contaram que passaram a viagem se comunicando sabe como? Google Tradutor.

Nas minhas viagens, nunca, mas nunca mesmo, encontrei quem torcesse a cara ao ver que eu estava tendo dificuldades em entender o que estava sendo dito. Mesmo na Alemanha, que tem uma certa fama de antipatia, as pessoas se esforçavam em me ajudar.

Eu nunca pedi assistência em aeroporto. Mas grudo no portão de embarque e, assim que aparece alguém da companhia aérea no balcão, vou até a pessoa e peço para confirmar se o meu vôo vai embarcar lá mesmo. E lembrem-se, o sistema de som de aeroporto é tão ruim que tem muitos ouvintes que não entendem o que está sendo dito.

Não encane com o AASI. A sua assistência técnica não é a única no universo. Se der problema, procure uma e eles farão o possível para te ajudarem (precisei na Alemanha e na Inglaterra, e o empenho deles em me ajudar foi incrível). Leve o essencial (pilhas e desumidificador, o resto você arruma se precisar. E, se precisar, não é o fim do mundo).

Não fique deprimido por não conseguir usar os audioguias em museus e afins. Garanto que a equipe do museu, que a grande maioria ignora, sabe muito mais do que está no audioguia. Aprendi isso numa visita ao castelo de Windsor, em que perguntei para um membro da equipe, que estava com cara de “abandonado” no canto da porta, o que queria dizer uma inscrição em latim esculpida no teto. Ele simplesmente me deu uma aula super divertida, e eu saí sabendo não só o que significava a tal da inscrição, mas também quantas pessoas tinham participado do jantar de aniversário do Príncipe Philip e o tamanho da equipe da cozinha.

Não tenha medo de se arriscar na língua nativa. Vamos pegar o inglês, por exemplo. Tem tanto, mas tanto sotaque diferente que te garanto que em um deles você se encaixa. E, se massacrar o inglês, lembre-se: em um planeta com mais de 7 bilhões de pessoas, a probabilidade de você topar com essa pessoa de nova é praticamente nula. E em locais turísticos, é parte da vida de quem mora lá.

Nunca, jamais, despache os acessórios do AASI. Se a sua mala for extraviada, você corre o risco de ficar sem (isso sem falar nos furtos de bagagem mesmo).

Não se acanhe por causa de seus AASI. Na minha experiência, as pessoas respeitam muito a sua privacidade e só te farão perguntas se você mostrar abertura para isso (fora que é muito mais comum ver AASIs e implantes – gente, sabe quem vende aparelhos auditivos na Inglaterra? Uma das maiores redes de farmácia de lá, a Boots).

Se você está viajando com alguém, descubra se não consegue descontos em museus. Na Inglaterra, pelo menos, o acompanhante paga meia e você não paga (com o real desvalorizado, vocês economizam grana suficiente para pagar o almoço).

O mundo é grande e bonito demais para você deixar de conhecê-lo por causa da deficiência auditiva. Dá um frio na barriga? Dá. Dá medo de perder o vôo, de entrar no avião errado? Dá. Mas isso pode acontecer com qualquer pessoa, não só com você.

35 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010, e também escrevo o blog Sweetest Person desde 2007. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

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