Crônicas da Surdez Destaques

Vida amorosa X Deficiência Auditiva

Atire a primeira pedra quem já tremeu na base ao encarar um novo relacionamento – isso é um medo universal, mas quando se trata de pessoas com deficiência auditiva, o furo é bem mais embaixo. Lembro dos meus tempos de solteira e dos meus tempos de aparelho auditivo sem discriminação de fala e fico lembrando das dificuldades. São muitos perrengues de ordem psicológica com os quais precisamos lidar, e as questões práticas – afinal o problema de quem não ouve é não ouvir – englobam questões como auto-aceitação, vergonha, momentos meio humilhantes, etc. A vida amorosa das pessoas com deficiência auditiva é igual à das que ouvem, embora alguns pontos estejam sempre presentes…

Contar ou não contar, eis a questão!

Contar, sempre. A não ser que você esteja namorando um médium ou um paranormal sensitivo, não pode esperar que a pessoa saiba das suas necessidades se você não é claro sobre elas. Eu entendo e já vivi a situação de ficar receosa em contar que usava aparelhos auditivos e ouvia mal para uma pessoa nova. Sabe o que aprendi? Que quando alguém nos causa esse receio, isso se dá por dois motivos básicos: 1- você ainda sente vergonha da sua surdez, 2- a pessoa em questão não lhe faz sentir suficientemente segura ou confortável para se abrir sobre isso. Lembro de uma leitora que me disse que usava a tática ‘primeiro deixo se apaixonar por mim, depois conto‘. Isso é apenas insegurança e pavor de rejeição. Sem falar que começar qualquer relacionamento com mentiras ou omissões já diz muito sobre suas chances de sucesso… Já aconteceu comigo de omitir esse ‘detalhezinho’ e, quando descobriu, a pessoa se sentiu altamente ofendida pela minha falta de confiança nela. Como também já aconteceu de começar a me tratar de um jeito diferente, pro mal. A verdade é que você só vai saber a reação depois que contar. E, como diz minha escritora favorita, Inês Pedrosa: “As pessoas nos surpreendem mais para o bem do que para o mal, por isso nunca me canso de viver!

As adaptações necessárias

Ok, você juntou coragem e contou que tem deficiência auditiva, usa aparelhos, etc. A pessoa levou numa boa e isso não afetou o relacionamento de vocês, beleza. Mas nós sabemos que algumas adaptações são imprescindíveis. Quando eu não ouvia, já ia logo avisando que não adiantava me ligar – ou me mandava mensagem, ou nada feito. Vocês que já estão na geração WhatsApp têm muito mais paz e tranquilidade nesse quesito, porque a tecnologia evoluiu e facilitou a vida de um jeito que, lá no início dos anos 2000, era apenas sonho ou ficção científica. Quem é usuário de aparelho auditivo possui sua própria rotina com eles; nem todo mundo gosta de passar o tempo inteiro de AASI, nem todo mundo dorme de AASI, a maioria das pessoas não entra na piscina com eles, etc. A minha dica é: seja claro sobre as suas necessidades. Quando eu usava aparelho auditivo, odiava que mexessem no meu cabelo por causa da microfonia, sempre tirei pra dormir e nunca cheguei perto de piscina usando-os. Algumas coisas você consegue fazer, outras não. Seu namorado/marido/ficante/whatever não dita as regras sobre essas questões, você sim. Se algo lhe deixa triste ou lhe constrange, fale!

Os programas sociais

Taí uma combinação difícil: vida social e surdez. Acontece que não há relacionamento que sobreviva ao estilo ‘zero interação’. Você terá que conviver com os sogros, com a família do namorado(a), com os amigos, os colegas de trabalho… Não é tão difícil assim. Acho que o segredo é cada um ceder um pouquinho, e ambos terem a preocupação com pontos-chave que melhoram a vida daquele que não ouve bem. Exemplos: escolher locais bem iluminados e não barulhentos para sair, evitar baladas escuras, escolher filmes legendados no cinema, não esperar que a pessoa com deficiência auditiva goste de estar em situações nas quais precisa prestar atenção em várias bocas ao mesmo tempo, evitar situações que possam colocar em risco os aparelhos auditivos, etc. Acho que todos aqueles irão conviver bastante com o casal precisam saber sobre a nossa deficiência auditiva, caso contrário, a energia gasta em disfarçar, prestar atenção e se recuperar dos sustos é grande demais.

Hãn??

O ‘hãn’ não pode ser um constrangimento, por isso, casais inteligentes dão um jeito de evitá-lo. Como? Quem ouve ajuda quem não ouve de maneiras simples e certeiras: cutucando em vez de berrar o nome, esperando a pessoa fazer contato visual antes de começar a falar, articulando bem os lábios e falando pausadamente se for necessário. Aos usuários de aparelho auditivo com conectividade bluetooth, dou a dica: testem o Roger Pen, que faz uma diferença sensacional no entendimento de fala no ruído e é compatível com vários AASI’s e todas as marcas de IC’s.

A dinâmica do casal

Enquanto escrevia esse post, recebi mensagem de uma leitora que dizia que, durante seu namoro, tudo foi muito tranquilo, talvez pela falta de convivência. Após o casamento, o agora marido deu pra virar insensível: grita para ela de outros cômodos, diz que ela só ouve o que quer, e coisas do tipo. O que envolve mais do que uma pessoa precisa ser constantemente negociado, pois ninguém suporta viver ao lado de gente sem noção. A surdez não é deficiência de caráter, a gente não ouve só o que quer (bem que gostaríamos), não temos audição seletiva, odiamos ser testados (‘ouviu?’, ‘tá de aparelho?’), chegamos ao final do dia em geral esgotados pelo uso contínuo de aparelho auditivo/implante coclear e leitura labial, muitas situações de diversão para os ouvintes para nós são sessão de tortura chinesa, sofremos com falta de acessibilidade, enfim, NÃO É FÁCIL SER SURDO. Um ponto que acho muito importante a respeito da dinâmica do casal é: quem não ouve não pode se sentir constrangido e nem sofrer constrangimento. Se não entendeu, pede para o outro repetir. Se ele repetiu e ainda assim não entendeu, pede outra vez. Qual o problema? Mas eu vejo sim problema em cônjuges/namorados/ficantes de pessoas com deficiência auditiva que são cruéis, mesmo em tom de brincadeira. Bons exemplos: ‘presta atenção, que saco!’, ‘odeio legenda na TV, é horrível assistir assim!’, ‘ué não tá ouvindo? mas não tá de aparelho?’… Assim como também vejo muitas pessoas com deficiência auditiva que usam seus cônjuges como bengalas e se escondem atrás deles, se fazendo de eternos coitadinhos/incapazes – costumamos exigir muitas coisas dos ouvintes e nem sempre retribuímos à altura. O segredo é encontrar o equilíbrio entre tudo isso…

64 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010, e também escrevo o blog Sweetest Person desde 2007. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

8 Comentários

  • Olá ! Paula … Realmente tudo que vc conta claramente no post faz sentido… Eu já passei e ainda passo por tudo isso. Tenho perda de moderada à severa no oe e leve à moderada no direito. Uso aparelho auditivo no esquerdo somente, e várias vezes omiti contar à uma pessoa que eu esteja conhecendo ; por insegurança, vergonha … Não sei bem! Acho que o que vc falou faz todo sentido… Derrepente medo da rejeição e do preconceito. Perdi minha audição tem 4anos foi lentamente porque descobri que tinha otosclerose e foi no período gestacional que tive realmente a necessidade do uso do aparelho ,isso porque essa doença aumenta no período da gravidez . Então meu mex que é o pai da minha filha quando percebeu minha dificuldade começou a se afastar de mim e eu não entendia e nem queria entender, queria somente a presença dele e amor e carinho durante aquele momento tão especial da minha vida que era a gravidez. Infelizmente ou ” felizmente” posso dizer isso hoje com todo afirmação que realmente ele não seria um bom pai e muito menos um bom esposo… Claro que não esperamos que uma pessoa que vive com vc há 5anos te venera , que tem um ciúme doentio e diz que te ama a todo momento vire à costas p vc … Do nada quando vc perde ” só” 60% da sua audição e começa a ter limitações ou seja … Seria muito mais fácil ele ” cair fora” enquanto à tempo… Enfim Paula… Minha filha nasceu linda ! Saudável graças ao Bom Deus… Trabalhei toda a minha gestação informalmente porque fui demitida grávida na época oque na prática a lei condena . Mas… Nosso país, nossas leis… ( uma longa história)… Hoje faço uso do aparelho no ouvido esquerdo como já mencionado e to tentando comprar o direito… Mas tá difícil… Rs atualmente moro só com minha filha em cabo frio RJ , trabalho , estudo , procuro levar uma vida normal… Sei que nao é tão fácil assim pois sofremos muita discriminação dessa sociedade ridícula e medíocre e sem conhecimento algum sobre deficiência Auditiva… Hoje eu entendo perfeitamente… Piadinhas , risadas, (deboches) fazem parte fo meu cotidiano… Hoje não me afetam mais… No início foi bem difícil a aceitação da perda é o uso do aparelho , cheguei até entrar. Depressão c toda história de abandono na gravidez, perda do emprego e perda audição ao mesmo tempo… Não foi fácil… Eu digo não é fácil..
    Finalizo com um grande beijo e agradecimento por conhecer seu blog e todos os depoimentos que nos fazem ficar mais fortes e saber que não estamos sozinhos… Obgada grande beijo (. dianabarroscf@hotmail) 22997526311 what app

  • Comigo já foi um pouco diferente pois na minha fase de paquerinhas e namoradinhos eu não senti tanto minha surdez. Conheci meu esposo, ele ficou sabendo que eu tinha uma perda pequena mas progressiva. Casamos e logo após ele mesmo se manifestou no interesse de comprar meu primeiro AASI. E assim foi sempre, eu sou muito grata à ele, aos meus filhos por enxergarem e aceitarem minha perda auditiva. No caso dos implantes tive apoio total deles.

    • Oi Eliane ! Fico feliz que com vc tenha sido diferente… Só por curiosidade … Vc mora em cabo frio? Rs porque tenho uma amiga com seu nome é muito parecida com sua história… Bjus

  • Meu marido é paciente comigo, deixou até de assistir filmes brasileiros porque eu não o acompanhava rs… Recentementee comprei um fone de ouvido sem fio, daqueles que podem ser programados para o som ficar no ambiente e no fone, assim eu e ele continuamos a assistir os programas/filmes juntinhos 😉

  • Nossa…. Tava procurando algo deste tipo para ler. Adorei. Como relacionamentos em geral são difíceis. Divorciei há 3 anos, começar tudo de novo está sendo difícil.

  • As pessoas qd querem são terríveis. Em certo momento da vida ouvi algo do tipo: “você ficará sozinho Dailton, porque vc não acreditou que eu gostava de vc, e porquê ninguém quer ficar com uma pessoa surda”.
    É punk, mas faz parte ????

  • Conheci uma garota surda em 2013. Resolvi ajudá-lá a conseguir o ic. Conseguimos. Depois que ela fez o implante eu resolvi matar contatos com outros surdos. Então descobri como é necessário compreendermos algumas limitações destas pessoas. Além da compreensão elas necessitam de apoio.

Deixe seu comentário