11/08/2014, lá se vão 9 meses de vida nova. Basicamente, uma gestação. Meu ‘filho’ poderia estar nascendo hoje, só para ter uma noção de como o tempo passa rápido. Na última quinta-feira jantei com minha amiga fono Michele Garcia e conversamos bastante sobre o que as pessoas esperam do IC. A verdade é que não devemos esperar nada dele. Como assim, não esperar nada, você está louca – é o que os candidatos à cirurgia que estão lendo isso devem estar pensando. Eu sei que ninguém vai se operar sem esperar ficar bem, mas é crucial ter esse entendimento de que o caminho é longo, é árduo, é cansativo. Esqueçam a idéia de sair da ativação saltitando com a vida resolvida e super felizes. Insisto em falar sobre isso pois o que mais vejo são pessoas frustradas e a culpa é da sua própria afobação. Eu, 9 meses depois, ainda estou no processo de ajustar a programação do meu IC e lidando com problemas técnicos desde fevereiro – ele faz ‘rrrrrrrrrrrr’, barulho que parece um saco de Ruffles sendo amassado, do além, quando bem entende, às vezes durante o dia todo, e também desliga e religa sozinho várias vezes.
No início achei que fosse enlouquecer, mas sobrevivi e posso dizer aos que estão no mesmo barco: vai passar! Após um novo mapeamento, minha inteligibilidade de fala voltou a ficar muito boa e isso me tirou um peso enorme das costas (bendita fono carioca Marcia Cavadas) pois em alguns dias cheguei a pensar que nunca voltaria a ficar bem como estava. Se achava que os AASI requeriam de mim uma força sobrehumana acabei tendo consciência que o IC requer ainda mais do que isso – me lembra aquela piada do Facebook que diz que Deus dá as piores batalhas aos seus soldados mais fortes, então deve ter me confundido com o Rambo!
Alguns casos que acompanho de perto e percebo que saíram da fase da euforia para entrar na fase da melancolia me fazem comprovar essa teoria. E relembrar do meu início. Nos primeiros dias, amando som de passarinho; logo após, querendo metralhar as árvores. Nos primeiros dias, me deliciando com as vozes da família; logo após, pensando em como assassinaria quem chamasse meu nome de outro cômodo. O silêncio é confortável, mas o som é bem desconfortável antes de se tornar delicioso. Não faz muito, senti vontade de passar um final de semana inteiro em silêncio para acalmar os ânimos e a cabeça. Acho que o segredo é não forçar demais quando a gente vê que está chegando no limite e, chegando nele, ser capaz de reconhecer as maravilhas que já conseguiu até agora. Para mim, nada se compara à liberdade de poder sacar meu telefone celular onde bem entender, resolver um problema ou apenas matar a saudade de quem está longe.
Algumas mudanças, não noto, mas quando alguém nota e me diz é diferente. A Michele não me via há alguns meses e a primeira coisa que me disse foi o quanto minha voz estava ótima. E mais aguçado que ouvido de fono acho que só crítica de fono, hein! Como a Mi me dá esporros homéricos porque não uso meu AASI no ouvido esquerdo, antes de encontrá-la coloquei meu Pure Carat. E enquanto escrevo esse post, dias depois, ainda estou com ele. Usei, gostei, voltei a usar. É uma confissão meio vergonhosa, mas acho que conto nos dedos os dias que usei o AASI após a ativação. Bem dizendo, usei direitinho nas primeiras semanas/meses, e com o passar do tempo fui deixando de lado. Só que ele me ajuda, sim, especialmente no que diz respeito a sons graves. Complicado apagar da memória a frase da Mi no restaurante: “Ah é, não tem usado? Está preparada para pagar o preço por isso o dia em que decidir fazer IC neste ouvido?” Nada como um mix de choque de realidade com toque de amiga estilo tabefe na cara, né? Com os dois juntos eu ouço melhor. Fato! Ser teimosa é mesmo um mico.
Hoje fiquei pensando em sons que são extremamente irritantes e me fazem sentir vontade de arrancar os cabelos, sons esses que nos meus tempos de AASI não me incomodavam e eu ainda dizia às pessoas que elas estavam exagerando ao reclamar deles: assobios, buzina de moto, cachorro latindo sem parar, embalagens plásticas sendo amassadas, pessoas mastigando salgadinhos como Fandangos, gente tossindo, aquelas criaturinhas desprezíveis que andam no carro com som a trocentos mil decibéis com os vidros abertos. Não é irônico que meu cérebro fique prepotente a ponto de não gostar de determinados sons e se irritar com eles? I think so.
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