Ícone do site Crônicas da Surdez + Surdos Que Ouvem – por Paula Pfeifer

A história da Marina: não sou mais ou menos surda que ninguém

‘Meu nome é Marina, tenho 29 anos , sou natural de Florianópolis, mãe de uma menina linda de 4 anos – Anita -,  sou estudante do curso de Serviço Social e Servidora Pública da Universidade Federal de Santa Catarina. Sou surda desde que me conheço por gente, no entanto não nasci assim, tive a infelicidade de perfurar o tímpano ainda bem novinha, uso aparelho desde que achei que precisava (e não sou quem devia achar algo). Desde meus 15 anos uso aparelho todo santo dia e não vivo sem eles.  Até os 15 me virei, sim me virei, com muita leitura labial e um esforço gigante, mas até hoje não consigo entender como. Trocava letras na escola, não ouvia o celular quando tocava, só sabia que estava tocando quando todas as pessoas no ônibus me olhavam, e sempre que não entendia algo olhava pra minha mãe com aquele olhar de ‘me salva’!  Há três meses ativei meu implante coclear e fui apresentada ao mundo dos sons novamente… e espero que esta linda amizade com ele seja eterna!

Hoje estou aqui escrevendo pro Crônicas da Surdez a convite da Paula e não podia estar mais emocionada. Depois que descobri o blog dela – apesar de achar ser bem resolvida com minha deficiência auditiva, ainda me sentia muito sozinha neste mundo – o Crônicas, a Paula e todos os leitores do blog fizeram com que eu entendesse que muitas, mas muitas pessoas passavam pelo mesmo que eu  e eu sequer imaginava. Lembro de uma vez uma pessoa me dizer “Desculpa eu não escuto no escuro” e eu pensei  “Gente, achei que  só eu usava essa frase“. Foi quando comecei a identificar meus anseios e desejos também em uma boa parcela de pessoas neste mundo afora, e por mais que a gente se sinta à vontade e fale abertamente sobre a surdez (e sabemos que muitos não falam) é muito importante saber que existem pessoas que entendem e passam pelo mesmo que nós.

Com o tempo as distancias se encurtaram e penso que os leitores do blog da Paula e os integrantes dos grupos no Facebook sobre IC  hoje formam uma grande família. Trocamos informações, conversamos, pensamos em como superar nossos desafios de acessibilidade e nossos desafios particulares. Desta forma sou muito grata por este espaço e à Paula que me apresentou mesmo sem saber um universo novo pra mim.

Quando li o seu primeiro livro, que adquiri assim que coloquei os pés em Porto Alegre em uma visita à família, devorei ele numa noite! E só pensava ‘essa mulher entrou na minha cabeça, ela sabe tudo que eu sinto!’ Hoje eu sei, o Crônicas deu voz a sentimentos de muitos surdos e surdas por ai.  Inclusive esta foi minha primeira mudança pós leitura, apesar de saber que era surda eu dizia “por favor eu não escuto direito , ouço um pouco menos”, “Sou portadora de necessidades especiais” (a palavra deficiente eu já odiava, não me sentia deficiente em nada, sobrevivi até meus 15 anos com um certa limitação, mas sobrevivi e era bem eficiente) e passei então a me apresentar com SURDA, porque como a Paula escreve no seu livro não existe gente menos surda ou mais surda, só surda.

Na época em que comprei o livro eu já bem curiosa e amante da tecnologia; já havia rondado todas as minhas amigas fonos sobre a possibilidade de fazer um implante coclear, se iria chegar o dia em que eu pudesse fazer. E logo veio a notícia que sim, seria apta ao implante. Devido ao fato de que fiz pelos SUS, tive que aguardar um ano e pouco, mas confesso que passou rápido. E neste tempo me deliciei em ler as experiências da Paula que fez o implante um ano antes de mim e da Lak Lobato que já era expert no assunto e ver os comentários. Tudo isso fez com que eu entrasse no centro cirúrgico no dia 17 de março de 2015 com a certeza de que tudo sairia bem e completamente satisfeita com minha decisão de optar pelo implante coclear.

E desde então não tem um dia nesses 3 meses de ativação que não agradeça. Tive um pós- operatório fora do comum de tão bom. Estava esperando zumbidos, dores de cabeça, tontura e não tive nada disso. Já no meu primeiro dia de ativação foi um pouco mais complicado não entender o que as pessoas diziam, sair de lá ouvindo aquele novo dialeto alienígena que me apresentaram me assustava, será que iria ouvir o mundo daquele jeito sempre? Lembrando que a cada adaptação é única apesar de possíveis semelhanças, afinal cada organismo reage de uma forma , e nessas horas informação, paciência e baixa expectativa, acho ser o segredo pra passar por isso.

Hoje posso dizer que mesmo sendo só 3 meses de ativação, foram anos recuperados. Ouvir música com certeza meu melhor presente até agora, e quando digo ouvir música posso dizer que já entendi um rádio, e até uma música nova (aquelas que temos na memória chegam mais fáceis) e entender perto de uns 70 % do que estava ouvindo – e isso é muito bom!  Já falei ao telefone poucas vezes em conversas breves, mas consegui entender o recado. Já escutei a voz da minha filha em outro cômodo me chamando, e isso pra uma mãe além de muito gratificante é uma segurança tamanha.

 

Já tenho os sons que amo (e todos eles estão no palco), os que odeio  (vassoura porque tu és tão barulhenta?), os que são do meu cotidiano (click click do mouse, os passarinhos)… e não me imagino nunca mais sem eles. Podia falar horas aqui sobre como é bom poder ouvir novamente, mas acredito que cada um tem sua história pra contar, pra trilhar, só desejo que ela seja cheia de som! Obrigada Paula por me ceder um espaço aqui pra contar um pedacinho da minha experiência, obrigada por fazer parte da minha história e por ser essa pessoa maravilhosa que leva a informação a usuários de AASI, implantes, amigos familiares sobre o universo de pessoas como nós que têm que lidar com a surdez. Beijo grande!

 

 

Filhota dando seu apoio “quero ouvir que nem a mamãe