Crônicas da Surdez Não categorizado Viajante Biônica

Causos da Europa III

Eu estava no trem, indo de Cannes para Mônaco, e comecei a ouvir umas coisas e meu cérebro, por incrível que pareça, captou a mensagem! O que ouvi foi o seguinte:

“Prochain arrêt: Villeneuve Loubet”

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Em 2003, fiz um semestre de francês. Lembro de muitas palavras que ouvia durante as aulas e no CD de exercícios que levava para casa. Foi por isso que, ao ouvir “Prochain arrêt: Villeneuve Loubet” (que significa próxima parada Villeneuve Loubet) meus queridos neurônios foram capazes de reconhecer o que eu estava ouvindo.

Para um ouvinte, isso é o tipo do papo patético.

Para um surdo, é uma pequena epifania.

Fiquei toda arrepiada na hora, abri um sorrisão e fiquei me sentindo a pessoa mais incrível da face da Terra. Meu banco no trem tinha vista para o mar, e fiquei olhando aquela imensidão azul e contemplando aquele prazer indescritível: ouvir alguma coisa e entender SEM leitura labial. E o melhor: em outra língua!! Acho que só um amigo(a) surdo(a) seria capaz de dividir essa emoção comigo – por sinal, sinto uma falta enorme de não ter absolutamente ninguém aqui onde moro com o mesmo problema, para trocar idéias ao vivo e a cores! 🙁

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É uma vitória que parece tão pequena, mas só quem convive com a surdez é capaz de compreender a beleza contida nela. Pensem comigo: quantas vezes – mesmo com leitura labial e AASI – precisamos pedir que repitam o que foi dito de novo e de novo até entender?? Por isso, estar desatento observando a paisagem e de repente ouvir uma frase em francês e entendê-la é tipo o máximo. Pelo menos para mim, é. Qualquer coisa que eu consiga entender sem leitura labial me causa uma tremenda comoção interna. Vou parar por aqui senão vou ter que dar uma choradinha! Rsrsrsrsrs.

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Antes que me esqueça, sabem qual é o barulho mais irritante que se ouve em Mônaco?? Barulho esse que está presente em qualquer ruela, o tempo inteiro, em todos os volumes…

O barulho das Ferraris.

Podem rir…quando passa a primeira Ferrari, os turistas ficam ‘aaaah, uma Ferrari’, mas lá pela décima, enche o saco, ou melhor, os ouvidos!!! 🙂