Crônicas da Surdez Destaques

Comportamento de surdo ou o piloto automático da surdez

Embora a tecnologia tenha me permitido a dádiva de ser uma surda que ouve, ainda hoje tenho comportamento clássico de surdo que não ouve nas mais diferentes esferas da vida. É o famoso piloto automático, que segue me acompanhando em inúmeras situações e me causando os mais diversos constrangimentos. Vou listar alguns exemplos básicos e acredito que muitos de vocês se identificarão com um, pelo menos.

A porta toca. Eu ouço a porta tocar mas, na minha cabeça, isso não é problema meu. Até hoje não me sinto na obrigação de levantar e abrir, e já me peguei várias vezes olhando para as outras pessoas com uma expressão tipo “ei, vocês não ouviram?“. Juro! Não sei explicar porque isso acontece, só sei que meu cérebro gravou que barulhos do cotidiano que requerem alguma providência não me pertencem, mesmo se eu os tiver ouvido.

O telefone toca. Eu ouço o telefone tocar mas, em nenhum momento, me sinto impelida a atender. O mesmo acontece com o interfone. Passei tantos anos não ouvindo esses sons que, agora, mesmo que os ouça parece que eles foram, sei lá, invenção da minha cabeça. Juro que não sei explicar porque cargas d’água meu corpo não reage a ponto de tomar uma atitude e fazer o que qualquer ouvinte faria. Minha teoria é que meu cérebro, muito esperto, já sacou que até mesmo os ouvintes detestam essas chatices como abrir porta, atender telefone, atender interfone…Ou então a explicação seja o velho e bom “se fazer de surda para passar bem“.

Quando o garçom vem na mesa anotar o pedido, por algum motivo muito doido meu corpo age como se eu não tivesse nada com isso. Meu marido morre de vergonha e, toda vez, me dá um sermão sobre minha falta de educação. Antes fosse mal educada, o problema, mais uma vez, é meu piloto automático surdo. Quem me conhece sabe que eu jamais deixaria um ser humano falando sozinho por livre e espontânea vontade.

O dia começa e, às vezes, não sinto pressa alguma de ligar os meus ouvidos biônicos. Já cansei de descer para tomar café da manhã no silêncio e nem me tocar disso. Aí desando a falar e esqueço que todos ao meu redor estão ouvindo e esperam que eu também esteja, faço perguntas e nem me dou ao trabalho de olhar a pessoa quando ela vai responder. Resultado: todos com cara de ponto de interrogação no melhor estilo “de que adianta ter dois implantes se a pessoa esquece de colocá-los?“. Não me entendam mal, eu AMO ouvir, mas podia passar meus inícios de manhã sem a barulheira do cachorro latindo, crianças berrando, obra no vizinho, liquidificador, etc…

Em conversas com várias pessoas, meu comportamento automático é achar que isso não me pertence e ligar a cabeça em outra coisa – como o meu celular, por exemplo. Queria que meu corpo e minha cabeça captassem o fato de que eu consigo participar, consigo entender, consigo interagir. Mas não. Pilotinho automático surge no ato, me fazendo agir como se não tivesse obrigação nenhuma de sequer tentar uma participaçãozinha especial no papo. Se bobear tenho mais fama de mal educada agora que escuto do que quando não escutava nada…

Entro no banho e começo a perguntar coisas para o meu marido, sabendo que ele me escuta mas esquecendo completamente que não escutarei as respostas. Essa era recorrente, até o dia em que ele passou a me olhar como quem dissesse “conversaremos quando você sair do banho“. Captei, captamos. 🙂

Esses dias fiquei pensando que não ouvia a voz da minha avó há quase um mês e chocada com a minha capacidade de achar isso normal. Minha cabeça, ou melhor, meu piloto automático surdo, não me dá o comando “está com saudade, faça um telefonema!” nunca.

São apenas algumas coisas que lembrei, como quem não quer nada. Sei que tenho culpa e sei que deveria mudar, mas as pessoas que convivem comigo talvez precisem entender que é mais forte que eu. São três anos de audição biônica contra trinta e um anos de surdez progressiva. Acho que mereço um desconto.

55 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

6 Comentários

  • Grande verdade Paula, exatamente isso acontece comigo,agora então piorou como meu aparelho esta danificado como surdo não tenho a vontade de não ver ninguém, como não tenho o nível do som, se vou falar com alguém minha esposa já me escreve vc esta gritando ou falando muito alto, e isso acaba com meu auto estima, me sinto um rejeitado.

  • Achei muito interessante, trabalho com Aasi a 7 anos e como prissional e difícil as vezes entender o lado do paciente. Gostei muito do seu blog ele rompe barreiras.

  • Super me identifiquei tem dias que não coloco o aparelho e fiquei preguiçosa pra ler lábios as pessoas falam e eu não consigo ler e entender o que dizem, aí ouço um coloca a p$%¨& do aparelho. Mas a pior parte para mim que estou com um ano e alguns meses é quando eu quero participar e eu entendo mas meu bloqueio surdo não me permite reagir por que para mim parece que não estou entendendo o que dizem ou as vezes não entendo mesmo só por estar prestando a atenção. E as vezes eu estou distraída e no maior bate papo com alguém sem nem notar que não estou lendo os lábios, mas quando noto vem um bloqueio e paro de entender a conversa, é muito estranho.

  • me identifiquei com seu post de hoje..Caramba,,,fui ouvinte por 55 anos sem o menor problema de audição..Ha dois de surdez bilateral profunda, e sete meses de IC..Adoro acordar e tomar cafe da manhã, no silencio….Adoro chegar em casa la pelas 21 hs e colocar no desumidificador, e ficar no silencio..Faço caminhadas e corridas sem o IC, no silencio total..Mas AMO, SOU APAIXONADO PELO MEU IC..Situações antagonicas, né

  • É bem assim que acontece, Paula! De repente a gente dá foras sem perceber. Eu mesma tenho tom de voz alto. Mas não escuto alto. Assim, vou falando e tenho uma pessoa, só essa, que adora chamar minha atenção, mandando falar baixo. Puxa! ??

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