Site icon Crônicas da Surdez – Surdos Que Ouvem – por Paula Pfeifer

Comportamento de surdo ou o piloto automático da surdez

piloto automático surdez

Embora a tecnologia tenha me permitido a dádiva de ser uma surda que ouve, ainda hoje tenho comportamentos clássicos de surdo que não ouve nas mais diferentes esferas da vida.

É o famoso piloto automático da surdez, que segue me acompanhando em inúmeras situações e me causando os mais diversos constrangimentos.

Vou listar alguns exemplos básicos e acredito que muitos de vocês se identificarão com um, pelo menos.

Alguém bate na porta…

Eu ouço a porta tocar mas, na minha cabeça, isso não é problema meu.

Até hoje não me sinto na obrigação de levantar e abrir, e já me peguei várias vezes olhando para as outras pessoas com uma expressão tipo “ei, vocês não ouviram?“. Juro!

Não sei explicar porque isso acontece, só sei que meu cérebro gravou que barulhos do cotidiano que requerem alguma providência não me pertencem, mesmo se eu os tiver ouvido.

O telefone toca…

Eu ouço o telefone tocar mas, em nenhum momento, me sinto impelida a atender. O mesmo acontece com o interfone.

Passei tantos anos não ouvindo esses sons que, agora, mesmo que os ouça parece que eles foram, sei lá, invenção da minha cabeça. J

uro que não sei explicar porque cargas d’água meu corpo não reage a ponto de tomar uma atitude e fazer o que qualquer ouvinte faria. Minha teoria é que meu cérebro, muito esperto, já sacou que até mesmo os ouvintes detestam essas chatices como abrir porta, atender telefone, atender interfone…

Ou então a explicação seja o velho e bom “se fazer de surda para passar bem“.

No restaurante…

Quando o garçom vem na mesa anotar o pedido, por algum motivo muito doido meu corpo age como se eu não tivesse nada com isso.

Meu marido morre de vergonha e, toda vez, me dá um sermão sobre minha falta de educação.

Antes fosse mal educada, o problema, mais uma vez, é meu piloto automático da surdez.

Quem me conhece sabe que eu jamais deixaria um ser humano falando sozinho por livre e espontânea vontade.

Quando o dia começa…

O dia começa e, às vezes, não sinto pressa alguma de ligar os meus ouvidos biônicos.

Já cansei de ir tomar café da manhã no silêncio e nem me tocar disso. Aí desando a falar e esqueço que todos ao meu redor estão ouvindo e esperam que eu também esteja, faço perguntas e nem me dou ao trabalho de olhar a pessoa quando ela vai responder.

Resultado: todos com cara de ponto de interrogação no melhor estilo “de que adianta ter dois implantes se a pessoa esquece de colocá-los?“.

Não me entendam mal, eu AMO ouvir, mas podia passar meus inícios de manhã sem a barulheira do cachorro latindo, crianças berrando, obra no vizinho, liquidificador, etc…

Conversas com várias pessoas…

Em conversas com várias pessoas, meu comportamento automático é achar que isso não me pertence e ligar a cabeça em outra coisa – como o meu celular, por exemplo.

Queria que meu corpo e minha cabeça captassem o fato de que eu consigo participar, consigo entender, consigo interagir. Mas não.

Piloto automático da surdez surge no ato, me fazendo agir como se não tivesse obrigação nenhuma de sequer tentar uma participaçãozinha especial no papo. Se bobear tenho mais fama de mal educada agora que escuto do que quando não escutava nada…

Na hora do banho…

Entro no banho e começo a perguntar coisas para o meu marido, sabendo que ele me escuta mas esquecendo completamente que não escutarei as respostas.

Essa era recorrente, até o dia em que ele passou a me olhar como quem dissesse “conversaremos quando você sair do banho“. Captei, captamos. 🙂

As vozes familiares…

Esses dias fiquei pensando que não ouvia a voz da minha avó há quase um mês e chocada com a minha capacidade de achar isso normal. Minha cabeça, ou melhor, meu piloto automático surdo, não me dá o comando “está com saudade, faça um telefonema!” nunca.

A hora de dormir…

Agora que tenho um filho pequeno, eu deveria sentir vontade de dormir ouvindo. Mas não sinto.

Quero dormir no mais completo silêncio. Meu piloto automático da surdez me faz acreditar que nada de ruim vai acontecer durante a noite, ele não vai me chamar, pedir socorro ou sei lá o que.

Aí, quando acordo de susto vendo ele chorar na porta do meu quarto porque está me chamando e eu não escutei (como nos dias que ficamos sozinhos quando meu marido viaja) me sinto a pior mãe do mundo.

São apenas algumas coisas que lembrei, como quem não quer nada. Sei que tenho culpa e sei que deveria mudar, mas as pessoas que convivem comigo talvez precisem entender que é mais forte que eu.

São oito anos de audição biônica contra trinta e um anos de surdez progressiva. Acho que mereço um desconto.

E você?

O que o piloto automático da surdez ainda te faz fazer?

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