Histórias dos Leitores

Contato dos leitores III

Vamos começar a semana com mais um depoimento incrível de uma leitora do Crônicas da Surdez. 😉

“Minha história com a deficiência auditiva começou bem cedo. Aos seis anos, tive meningite e foi bem grave. Na época cheguei a ficar sem andar e muitos médicos desacreditaram total! Mas meus pais nunca deixaram de acreditar na minha recuperação, e alguns bons médicos também não. E é por isso que hoje em dia eu penso que meu problema auditivo é uma benção, perto de todas as seqüelas que eu poderia ter sofrido.
 
O diagnóstico foi o seguinte: perda auditiva neurossensorial profunda no ouvido esquerdo, e mista moderada no ouvido direito. A verdade é que quando você tem seis anos de idade isso não faz nem sentido!  Colocando de forma simples para todos: meu ouvido esquerdo não escuta praticamente nada (não escuto o telefone nele, por exemplo) e o ouvido direito escuta bem. A grande questão no meu caso, é que como tive esse problema muito novinha, eu realmente não lembro o que é ter uma audição perfeita, então sempre achei muito normal o modo como escuto.
 
Passei a infância indo ao fonoaudiólogo e ao otorrinolaringologista. Era tudo muito lúdico e normal para mim, e apesar da deficiência a hipótese de usar aparelho nunca foi levada a sério. Fui enrolando e enrolando, em parte por achar que não era necessário (já que eu acreditava que a forma que eu escutava era normal), e por outro lado o receio de usar um aparelho sempre existiu, sempre rola aquele medo de ser apontada, não ser aceita e tudo mais.
 
Passei todo meu período escolar sentando na frente, virando o ouvido direito (que escuto bem) em direção a professora. Aprendi a conversar olhando para a boca das pessoas, criei a mania que nunca vou perder de andar sempre ao lado esquerdo das outras pessoas, aprendi a viver com uma limitação, e ficar com informações pela metade, já que nem todo mundo tem coragem de repetir. Tive problema de aprendizagem por ter dificuldade de diferenciar sons, tipo T de D, F de V. Isso eu aprendi sozinha já que muitos professores, infelizmente, não têm paciência nem experiência para lidar com deficiências, nem mesmo para desconfiar que algo esteja errado. Na grande maioria das vezes vão pelo caminho mais fácil que é considerar o aluno “burro”.
 
Ganhei apelido de surda no ensino médio, mas de amigos queridos, então nunca me senti discriminada por esse apelido; na verdade fui me acostumado muito com a idéia de que eu era de fato surda por conta dele. Muitas vezes a gente não se aceita, e  aí está o grande problema. Passei toda uma fase da vida correndo o risco de ser atropelada ou sofrer acidentes, já que eu só escutava os sons vindo de um lado, sempre que alguém me chamava, ou um carro freava, eu só escutava o som vindo pelo lado direito. Só Deus e quem tem esse problema sabem o quanto é chato você escutar alguém lhe chamar, mas não saber de que direção vem o som, em que lugar essa pessoa está.
 
Depois de passar por tudo isso e mais um pouco, decidi que era hora de tentar melhorar. E ano passado, depois de praticamente 15 anos ouvindo super mal, fui procurar um aparelho. A demora foi ruim por que perdi muita coisas que poderia ter aproveitado, mas por outro lado, quando coloquei o aparelho estava muito certa do meu problema e não tive nenhuma vergonha de assumir o aparelho.
 
Foi uma das experiências mais extraordinárias da vida, e olha que eu escutava até que bem. Quando coloquei o aparelho pela primeira vez ele ainda nem estava regulado para mim, mas foi como se sons delicados surgissem do nada, afinal, aquilo nunca existiu para mim antes. Primeiro, escutei meu ouvido interno como nunca antes; depois o barulho do teclado veio tão alto e forte que chegou a ser irritante; em seguida minha mãe falou e foi tão emocionante olhar pro lado certo, saber de onde vinha o som, nunca pensei que isso seria tão gratificante para mim. O aparelho auditivo não causou a maior revolução do mundo, até porque minha perda auditiva no ouvido esquerdo é muito grave,então eu continuo ouvindo e entendendo muito pouco por ele, não atendo o telefone com ele, por exemplo, mas só de saber de onde vem o som, de escutar um barulhinho que antes eu nem tinha noção que existia… já vale muito, muito mesmo.
 
Hoje aprendi a lidar com esse problema, é chato quando encontro alguém que não coopera, não fala um pouco mais alto, não tem tato para lidar. Mas nada quebra mais a cara das pessoas do que quando elas gritam: ‘VOCÊ É SURDA POR ACASO? ‘, e eu respondo com a maior calma do mundo: “Sou, algum problema?”. Isso desmonta muita gente.
 
Acho que já está na hora de cada um de nós que temos problemas auditivos assumirmos nossa causa, para que ela seja notada e respeitada. E nisso eu dou suuuuper 10 para a Paula, por ela ter criado esse espaço que é de grande ajuda para todo mundo, para quem tem o problema, e para quem não tem, mas deseja saber mais para ser alguém melhor.
 
Por fim, se hoje posso dar um conselho, ele é simples: não deixe de usar um aparelho auditivo por vergonha, medo, falta de coragem. Eu fico imaginando quanta coisa eu deixei de ouvir nesses 15 anos. Sempre conversei, ouvi música, falei no telefone…Mas me contentei com muito pouco perto do que podia ter. Usar aparelho (quando necessário) é um bem para nossa qualidade de vida, assim como usar óculos ou aparelho de dente. E gente, quem tem uma boa audiçãoValorize!!! Fico triste quando vejo gente que passa o dia inteiro com fones de ouvidos lá nas alturas, use os fones com moderação, só quem tem perda auditiva sabe o quão precioso é ouvir bem. “

Obrigada, S., por compartilhar a tua história conosco!!

4 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

9 Comentários

  • Chamo-me yuran Belton Banze sou de mocambique e tenho 16. Eu tambem tenho o mesmo problema, ouço mal no ouvido esquerdo e isso me deixa muito transtornado, principalmente quando alguem fala e eu nao sei da onde vem a direcçao, da impressao que sou algum parvo mas nao simplesmente tenho problema de audicao e obrigado pela excelente ideia de escrever essa pequena historia que vai me dar motivacao para lutar pra resolver meu problema.

  • Querida S.,

    Me vi em você!
    É muito legal encontrar alguém igual, que sente as mesmas coisas, uma pessoa totalmente desconhecida que tem que passar todos os dias pelas mesmas coisas que você. Sucesso!!!

    Paulinha, mais uma vez, muito obrigada por dividir isso com a gente!

    Beijos

  • Ahh sabe que hoje fui no salão, e lembrei do seu blog na hora, lá é um dos locais que mais fico louca da vida. Primeiro pq tenho que tirar o aparelho, segundo que geralmente tem aquele secador suuuper barulhento na nossa cabeça (do lado do ouvido)… e o grande problemao cabeleireiro geralmente fica conversando na maior!! hauhauhuahua
    Juro… é sempre um momento tenso esse do salão huahuahuahua, fico tentando ler o que o cara tá falando pelo espeho, mas realmente não rola, então fico dando aquelas respostas vagas… tipo uuhummm, simmm, jura… huahuahuahuahua

    Bjus

  • Fico feliz de ver esse depo aqui, e mais ainda de ver esses comentários… de pessoas falando que passam pelo mesmo problema, ou que ficam feliz de poder descobrir um pouco mais desse mundo!

    Parabéns mesmo, parabéns cheio de carinho!!!!!

  • Emocionante mesmo! Minha mãe tem este mesmo problema (teve perda auditiva em apenas um dos ouvidos) e estou convencendo ela a procurar um aparelho. Ela já teve experiências não muito boas com, mas isso há muito anos.. acredito que hoje em dia os aparelhos devam estar muito melhores.
    Além disso.. lendo esse post parece que passou um filme na minha cabeça! Noto que ela não sabe de onde vem o som, por vezes repetimos frases para ela poder entender e temos de ter paciência com isso (coisa que muita gente por aí não tem). Mesmo assim ela é professora, dá aulas de português e de catequese. E quando alguém é indelicado, ela retruca: ‘Sou deficiente, se eu não tivesse uma perna tu também acharia graça?’ (!!!)
    beijos

  • Ótimo comentário! Porque é bem assim o cotidiano de uma pessoa com deficiência auditiva. Algumas pessoas nos tratam com indiferença e o pior sem nenhuma paciência.
    O caso dessa menina é bem parecido com o meu, incrível! O tempo sofrendo tbm, só resta procurar um aparelho bom.
    Parabéns pela coragem e boa sorte com o novo aparelho.
    bjs
    Grace

  • Emocionante o depo de S.
    Não tenho problema de audição e nem conheço alguém que o tenha.
    Mas,estou gostando de ler a respeito,pois isso é uma lição de vida,e ajuda a entender e respeitar melhor meu próximo com esses tipos de limitações.
    É,vivendo e aprendendo…
    Beijos!!

  • A cada dia fico mais encantada com o Crônicas Paula!
    A história da leitora me fez lembrar um ex-colega que tem perda auditiva em um dos ouvidos, porém, não sei quão severa é a perda. Ele nunca usou aparelho auditivo e sempre lidou bem com a situação da surdez, já que todos os colegas tinham paciência para repetir as coisas, ou então para chamá-lo mais de uma vez, se posicionando de uma forma diferente até que ele pudesse ouvir.
    Torço agora para que ele, assim como a S. consiga superar o “tabu” do aparelho auditivo.

    Toda vez que passo por aqui encho o blog (e a tua iniciativa) de elogios, mas realmente é muito interessante ficar sabendo dos detalhes da surdez, que muitas vezes passam despercebidos por alguém que não tenha uma pessoa próxima com o mesmo problema.
    Mais uma vez, parabéns!

  • Relato muito muito bom. Como ela disse,criando o blog você aproximou um problema até de quem não convive com ele,como eu. Sabe,pra se ter mais consciência,respeitar,valorizar mesmo o que a gente tem,alguém pode sentir falta,no caso aqui escutar um barulhinho simples que seja. =)

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