Histórias dos Leitores

Depoimento de um leitor

O leitor “R.” enviou um depoimento contando um pouquinho da sua história de vida. Confiram!

“Sempre fui muito hiperativo e alegre; posso dizer que tive uma infância tranquila…Meus pais descobriram minha perda auditiva quando tinha 10 anos de idade. Lembro que estava na praia e meu pai veio me contar um segredo no ouvido e eu sempre virava o rosto, direcionando meu ouvido “bom” à boca dele para entendê-lo. Quando voltei fomos ao médico e fizemos minha primeira audiometria, que constatou perda severa no ouvido direito e moderada no esquerdo. Teoricamente, era para eu ter usado aparelho auditivo e de fato foi o que meus pais fizeram, me levaram a uma loja especializada e lá optamos pela compra de um retro-auricular com moldes de acrílico para o ouvido esquerdo – no direito cheguei a fazer testes mas não obtive resposta satisfatória. Não conseguia me adaptar de forma alguma ao aparelho pois ele machucava meu ouvido. Futuramente descobri que se tratava do molde de acrílico que, para uma criança em fase de crescimento, de fato era muito desconfortável.

Como não me adaptei ao aparelho, deixei de usá-lo por um bom tempo. Sofri muito bullyng na escola. Me lembro de um caso específico em que um garoto que sentava ao meu lado dizia só para me irritar que todo gay era surdo, e eu ficava realmente furioso . Até que um dia não aguentei e a briga rolou solta até a intervenção dos professores. Outra situação era quando algum mané sentava na mesa atrás da minha e como meu aparelho era retro e analógico, o sujeito pegava e metia o dedão no aparelho aumentando o volume no máximo, o que também me deixava furioso. Porém quando tinha 16 anos optei por um intra-canal analógico e dessa fase em diante me tornei um “escravo” do meu aparelho só tirava para dormir, em atividades esportivas e no banho.

Em 2007, minha audição, que até então era considerada regular (sem oscilações) teve uma queda acentuada seguida por um zumbido que até hoje me acompanha. logo meu intra não fazia mais tanto efeito e isso afetou significativamente minha auto-estima (naquele momento o medo de ficar totalmebte surdo aliado à maratona de médicos, exames e testes de novas próteses me deixou um bagaço). E para piorar, poucos meses depois de definido o meu novo aparelho, tive uma perda repentina dos sons agudos, digo repentina porque literalmente foi da noite para o dia. A princípio, essas quedas não tiveram uma causa definida, hoje acredita-se que sou portador de algum tipo de doença auto-imune que ataca as células saudáveis do ouvido. Nesse meio tempo tentei de tudo um pouco, procurei médicos especializados em zumbido, que embora não tenha sumido, ajudaram a aceitar o convívio com esse som inseparável. Médicos mais especializados ainda em perda auditiva, medicina chinesa, medicação natural, exame genético, uma maratona mesmo.

 Hoje, minha audição apresenta uma leve melhora, o que me deixa mais otimista.

Uma história engraçada que me recordo é que sempre gostei muito de piadas, tanto contar como ouvir. Na minha lua de mel estávamos eu e minha esposa em Fortaleza num show de humor  e o áudio do local era muito ruim. Era preciso atenção redobrada para entender as piadas mas, no final, não adiantava – eu ficava olhando pra todos rindo e fingindo que ouvi! Ainda bem que minha esposa é bem compreensiva e repetia pra mim , mas rir sozinho não tem graça né? O fato de gostar de piadas me ajudou muito porque a maioria delas eu já conhecia então era só focar na apresentação que o final já estava na cabeça, aí valia o riso….

Abraços, R.”

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7 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

2 Comentários

  • já que voces falaram em aparelhos auditivos, lanço minha pergunta para alguém que tiver influência dentro de algum órgão da esfera federal, em particular a anvisa,e pergunta o por que de até hoje o projeto solar e ar ainda não ter sido liberado? trata-se de próteses auditivas no valor de 300 reais e tendo baterias recarregáveis com energia solar durante 3 anos cada bateria, seria o desespero da máfia das empresas de aparelhos auditivos? se informem sobre o proejto solar ear, ficarão impressionados.

  • Nossa tb perdi devido a doença auto-imune, o que no decorrer do tratamento não possibita o IC…Mas nos resta o aparelho e tb uma luta pelos valores, são ótimos, mas por serem importados são muito caros.Num país com diferenças sociais “gritantes”.Agradeço a Deus por eu ter comprado um ótimo da Siemens…mas querendo um melhor lógico..rsrs.E eu tb sofro mto com zumbidos tb tentei de tdo??!!Afff.Se vc foi em vários médicos …eu tb..nos resta então seguir em frente e quem sabe um dia achar alívio….Mta saúde ao leitor!!

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