Crônicas da Surdez Deficiência Auditiva

Devo contar sobre a minha surdez?

Foto: Shutterstock

Recebi um email de uma adolescente usuária de AASI que me contou que estava nervosa em função do primeiro encontro com um paquera. Tudo porque ela não contou a ele sobre a deficiência auditiva e não sabia nem se iria usar seus aparelhos auditivos para ir encontrá-lo…

Devo contar sobre a minha surdez?

Não vou mentir: quando tinha a idade dela eu também tinha minhas artimanhas para esconder a surdez dos paqueras. Hoje, é claro que me envergonho disso. Pedia para minha mãe atender o telefone e mentir que eu não estava em casa, ou então atendia e ao menor sinal de não entender o que estava ouvindo fingia que a ligação tinha caído. Entre mil outras táticas de guerra, hehehe.

Lembro, inclusive, de ficar no maior dilema sobre contar ou não sobre minha deficiência auditiva para um paquera novo. Isso, como todas as outras ‘experiências clássicas da surdez’, faz parte e é inevitável – afinal, não conheço ninguém no planeta que tenha aceitado a própria deficiência a jato e se tornado uma pessoa super bem resolvida com isso em um mês!

Acho até que todo surdo tenta dar o golpe do ‘vou deixar ele(ela) me conhecer primeiro, se apaixonar, e depois disso conto porque ele(ela) não vai mais fugir‘… Lamento dizer: algumas pessoas vão sim sair correndo no melhor estilo Forrest Gump ao saber que você não ouve. Sim, isso é um horror e é ridículo, mas acontece. Assim como também existe gente que vai sair correndo quando se deparar com um furo de celulite, um dente torto ou com aquele jeans cafona que você adora. Seres humanos não são muito fáceis. Fato!

No meu tempo a gente paquerava ao vivo e a cores ou então em chat’s muito toscos dos primórdios da internet – além, claro do desgramado do telefone. Não existia Facebook, WhatsApp, Tinder e toda essa tecnologia dos dias de hoje, que facilita as coisas e é capaz de transformar um bichinho da goiaba em Brad Pitt. Acho que todo mundo fica muito lindo e corajoso atrás da tela do PC ou do smartphone, mas também acho que as pessoas mentem muito. E não contar para alguém que você não ouve é sim uma mentira. Você não está dando para a outra pessoa a chance de saber algo muito importante a seu respeito e nem mesmo a opção a ela de decidir se está pronta e aberta para lidar com isso ou não.

Tem gente que diz: “Ah, mas isso é só um detalhe e só diz respeito a mim“. Com razão, porém esquecendo da coisa mais básica de todas: se você quer se relacionar com alguém vai diminuir muito suas chances de sucesso ao omitir informações importantes. Não ouvir (e ser usuário de AASI ou IC) não é um mero detalhe da nossa vida, é uma grande parte dela em função das limitações que isso traz e das adaptações que requer.

Todo esse ‘conto-ou-não-conto’ tem uma única origem: o medo da rejeição. Junto com esse medo vem a raiva por ser diferente, o pânico sobre ser visto com outros olhos após ter seu ‘segredo’ revelado, o receio de ser tratado como cidadão de segunda linha, e por aí vai. Disse para a adolescente que me escreveu e vou escrever aqui a mesma coisa: se for pra levar um fora, que seja no primeiro encontro e não no décimo!

A surdez tem a vantagem de afastar de nós algumas pessoas – eu pelo menos agradeço quando alguém some do mapa porque sou surda, dermelivre de perder meu precioso tempo na Terra com gentalha desse nível. Vamos focar em algo que ajuda bastante nessas horas, uma frase célebre: Deus não te tira as coisas, ele te livra delas. 😉

Por que não contar?

Acho que a pergunta correta é “Por que NÃO contar?“. É algo tão vergonhoso assim que você precise esconder? Caso sua resposta seja sim, chegou a hora de rever seus conceitos sobre si mesmo, sob pena de se meter em relacionamentos errados pelo resto da vida. Não acho que seja algo que a gente deve sair contando pra estranhos ou pra qualquer um, e acho que é algo que devemos contar e rápido quando se trata de relacionamentos amorosos. Até porque se relacionar tem 100% a ver com se comunicar.

Isso me fez lembrar de momentos em que não contei para um paquera que não ouvia bem e o karma (karma is a bitch) mandou de brinde alguma recalcada invejosa que chegou por trás de mim falando: “Sabia que ela é surda?” – nessas horas eu parecia aquele suricato do Facebook que diz ‘mas qual a necessidade dissoooooo?’

Não vejo nenhum motivo para esconder o uso de aparelhos auditivos e implantes ou para esconder de alguém que não ouvimos. Até porque é muito fácil ‘desmascarar’ um surdo. Basta falar enquanto olhamos pro lado, basta falar quando está atrás de nós, basta falar no escuro, ao pé do ouvido, tapando a boca… Por isso, acho que devemos ser sensatos e nos poupar dessa papagaiada cansativa de ficar achando que a surdez é disfarçável, porque ela definitivamente não é.

O que acontece nesses namoros virtuais e paqueras online é que as pessoas apresentam apenas sua versão Photoshop e acabam esquecendo que todos nós, sem exceção, somos um poço de defeitos e detalhes. Pode ser que o carinha com quem você está queimando neurônios seja daqueles que escrevem ‘ancioso’, ‘seje’ e ‘menas’. Ou, pior, um galinha imbecilóide que só tira zero nas provas. Ok, ninguém merece ser julgado de antemão, por isso, que tal dar um crédito para quem pode vir a lhe surpreender pro bem?

Surdos – e também pessoas com quaisquer outras deficiências – não podem passar a vida querendo se proteger do sofrimento, porque ele é inevitável. A gente só cresce quebrando a cara, regra chata porém bem real da vida. Conte logo, vá usando seus aparelhos auditivos, encha eles de cristais se tiver coragem. Apenas seja quem você é. Sabe aquela piadinha do Facebook que diz que tudo o que comemos escondido aparece em público? Com a surdez é tal e qual.

Acabou que tive a sorte de me apaixonar e acabar casando com alguém que se aproximou de mim justamente por causa da surdez – meu marido é otorrinolaringologista e era leitor do blog, nos conhecemos por causa disso. E mesmo ele sendo a pessoa que mais entende tudo o que eu passei e passo até hoje em termos auditivos, isso não quer dizer que nós não tenhamos precisado de adaptações e ajustes. Todo casal precisa, seja surdo-ouvinte, ouvinte-ouvinte, surdo-surdo. Acima de qualquer deficiência, somos seres humanos.

128 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

7 Comentários

  • Amei a crônica: contar ou não contar sobre a surdez para um paquera.
    Eu quando estou conversando com um novo paquera online, prefiro contar pessoalmente, assim vejo a reação dele. Se conto antes do primeiro encontro , ele pode ter uma outra ideia de mim. Não sei se concorda comigo nesse aspecto…
    Concordo sobre o fora no primeiro encontro e já passei por isso. Uma vez me encontrei um “novo ser ” para tomarmos um chimas na praça e eu não contei nada , como tinha vento, o assunto surgiu naturalmente: ele notou, perguntou e eu falei naturalmente no assunto. Desde então paramos de nos falar. Isto que ele já escreveu ” pecimo “.
    Outro dia, casualmente me encontrei com ele na rua e fingiu que não me conhecia.
    Confesso que ainda ” travo” quando o assunto é paquera. Eu tive apenas dois namorados e alguns rolinhos. Sei que eu deveria deixar de lado essa insegurança.
    Essa crônica é uma abordagem essencial!
    Boa pergunta: por que nao contar?
    Parabéns, pelo sucesso, Paulinha!
    Bjos

  • Bem legal esse tema falado. Lindo os comentários e a história da Paula, a forma que o marido chegou, acredito no propósito.

  • Olá… acho impossivel não contar… sempre tive q dizer fala de frente… apenas para aqueles que eu realmente queria dar atenção… então é inevitavel, voce precisa dizer: fala de frente, ou no meio da conversa.. não entendi fala de novo.. pois a melhor coisa que tem é vc entender seu paquera.. e se este paquera se importar com uma deficiência que é “resolvida” por um AASI, ou implante, sinto muito não vai dar certo, não temos como esconder… tenho deficiencia desde criança e sempre me aceitei.. acho super normal… me aceito.. me entendo e dou risadas com as atrapalhadas q as vezes ocorrem..

  • Muito bem escrito a nossa realidade no mundo amoroso, eu aos meus 28 anos não sou casada mas tive namorados super compreensíveis e também tive a infelicidade de conhecer alguns poucos pobres De espirito q não acharam viável lidar c uma surda implantada e justamente por demorar a contar p essa pessoa qndo finalmente contei tive q ouvir “VC eh uma propaganda enganosa ” isso me chamou MT a atenção de fato qndo omitimos algo tao importante p nos comunicarmos c o outro como por exemplo atender uma ligação dessa pessoa,afinal não tem como esconder ou fingir ser alguém que VC não eh,pois isso faz De VC uma propaganda enganosa …ou mentirosa meu conselho eh o mesmo q o sei conte o quanto antes se a pessoa sair correndo te fez um favor

  • Amei ! Disse tudo! Todos sem excessão temos defeitos! E quando se trata de deficiência, as pessoas vão te tratar proporcionalmente do jeito como vc trata a si mesma. É isso! bjssssss

  • Estou gostando muito de suas crônicas.
    Será que pode me ajudar, enviando imagens de profissionais estrangeiros surdos, pois estou com muita dificuldade em encontrar.
    Preciso até quinta-feira 16/04/2015…
    Se não puder me ajudar, grata mesmo assim.
    Marilene
    estudante de libras intermediário em São Paulo – Zona Leste.

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