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Dica de livro sobre surdez: My sense of silence

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My sense of Silence – memoirs of a childhood with deafness – comprei na Amazon.

Nunca tinha me passado pela cabeça o quanto o filho ouvinte de pais surdos poderia sofrer. Na primeira página desse livro você já sente a dor. A tradução abaixo é minha, perdoem qualquer erro.

“Quando deitava na cama à noite, não sentia o que a maioria das crianças sente: a sensação de segurança e conforto, de estar no colo e no seio da família. Em vez disso, deitava apavorado. Tinha que ouvir todo e qualquer som pois meus pais não podiam ouvir nenhum som de perigo. Mesmo que eu gritasse para eles da minha cama eles não ouviriam. Eu estava sozinho, era pequeno e desamparado.”

“Eu precisava ouvir os assaltantes que meus pais não podiam, os ladrões, os monstros, os sons das rechaduras de um teto desabando. Eu era o guarda, numa guerra.”

“Uma vez me tranquei no banheiro sem querer. Quando tentei destrancar a porta, eu não era forte o suficiente para isso. Meu coleguinha me ouviu chorando e levou minha mãe até lá. Ela tentou me dizer o que fazer pela porta,, mas ela não podia ouvir as minhas perguntas! Lutei com a maçaneta, chorando, até que a porta se abriu.”

“O fato de eu ter sinalizado antes de ter falado prova o que os cientistas agora descobriram: filhos de surdos balbuciam com os dedos, assim como filhos de ouvintes balbuciam com a língua.”

Embora eles nunca tenham ouvido a minha voz, o som das vozes dos meus pais ainda está nos meus ouvidos. Para a maioria das pessoas, os surdos soam estranhos, guturais e ‘estrangulados’. Para mim, as vozes normais dos surdos são calmantes, como sons de baleias indo do fundo do mar à superfície.”

“Meu pai odiava ser chamado de surdo mudo. A causa dele na vida era convencer as pessoas que ouvem que ele não era mudo. Mudo não significava mudo para o meu pai, significava idiota. Ele não queria ser chamado de idiota pelo mundo ouvinte. Mas ele realmente nunca foi capaz de aceitar a dificuldade que os ouvintes tinham com a sua fala. Ele achava que por estar articulando os lábios, estava se comunicando. A voz da minha mãe, pelo contrário, era líquida e certa. Sua pronúncia era muito melhor que a do meu pai, já que ela não era surda pré-lingual.”

“Quando eu olho para o mundo, eu espero que ele fale comigo. Meus pais olhavam para um mundo que permanecia em silêncio. Quando estavam num cômodo, nunca podiam estar em outro lugar ao mesmo tempo. Não podiam estar num cômodo e escutar outro. Tudo era aqui e agora. O som lhe tira de você mesmo, dobra esquinas, vai atrás das portas. Se meu desejo é estar num momento eu-comigo-mesmo, falho terrivelmente. Estou sempre dobrando a esquina, além de mim mesmo, consciente do que acontece ao redor – HIPERVIGILANTE.”

49 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

5 Comentários

  • Oi Paulinha, tive coragem e ler somente hoje, pois sabia que o relato me deixaria extremamente emocionada. Filh@s são tão forte e tão delicados, passando pelo turbilhão de emocões diferente e tão proximas das nossas, cheio de perguntas, sem respostas e necessitando apenas ser fortes…
    Provavelmente o medo dele(filho) ao dormir deve ser o mesmo dos pais, pois comigo isso rola, e olha, que tem ouvinte em casa.
    Ele prestando atençao aos sons, e os pais tensos por não existir sons, paralisados pelo fato de não estar como protetores, a falsa ilusão de não ser protetores, pois a maternidade e paternidade, vai muito além de ouvir, é sentir, observar, identificar, É AMAR , e SUPRIR, algo muito além da audição :D, mas a DOR pelas frustações sempre estará lá. Obrigada por compartilhar,

  • Gostaria de comprar o livro… Tem tradução em português?
    Favor me informe se estiver, agradeço desde já. Beijos a todos.

  • Aaaaahh!!! O livro poderia ser traduzido! Eu quero entender isso! 🙂 Como sou mãe de 2 filhos pequenos (10 e 2 anos), tenho o meu marido que é ouvinte. A gente divide as tarefas para cuidar dos meninos. Às xs, o filho de 2 anos acorda de madrugada, o meu marido se prontifica a levantar da cama e ir até o quarto onde está. Enquanto fico dormindo…rs. Mas, durante o dia, cuido deles. O filho mais novo exige cuidados, é pequeno, é um amor de criança. Ele entende o que falo, graças a Deus. Mas ainda desconfio de que ele não entendeu que eu sou surda. No caso do filho mais velho, ele é mais independente, não precisa de ajuda, mas, no fundo, precisa de ajuda nas questões do cotidiano. Como é muuuuuito bom ser mãe! 😀
    Adoro olhar para o pequeno, ele faz cada gracinha, procura falar alguma coisa, mas não tão bem, só com o tempo melhora. Tento ensiná-lo a ele a falar certo. Com paciência. Ele gosta de se sentir querido, amado, seguro.
    😀

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