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Crônicas da Surdez / Deficiência Auditiva

Dicas e conselhos sobre surdez

Se você é novato por aqui, talvez não tenha noção da quantidade de mensagens pedindo dicas e conselhos sobre surdez que recebo todo dia – e elas chegam por email, Instagram, Facebook, Messenger, Youtube, Messenger. Quero encerrar 2020 com um post de utilidade pública. Por isso, deixo abaixo os principais conselhos que tenho para dar sobre surdez.

Não deixe a surdez dominar a sua vida

Meio bilhão de pessoas no mundo precisa conviver com a deficiência auditiva todos os dias. Você não é o único premiado. É mais do que normal e esperado, após o diagnóstico, passar por um período em que você se sente confuso, triste e perdido. Para ajudar com isso, temos várias ferramentas preciosas basta ler esse post para conhecer todas elas.

Acontece que algumas pessoas exageram na dose e permitem que a surdez domine todas as esferas da sua vida. E é aí que mora o perigo. A surdez é apenas um detalhe, uma parte de quem você é. Quando você vive em função disso, se define em função disso e quer que todos ao seu redor façam o mesmo, a coisa complica.

Eu já fui dominada pela surdez, e por isso tomei decisões péssimas, estive em relacionamentos errados e permiti que minha autoestima fosse parar no dedão do pé. É claro que ela assusta, mas lembre-se: as coisas, as pessoas e os fatos da vida têm o poder que damos a eles. Não dê todo esse poder à sua surdez. Basta conversar com outras pessoas com deficiência auditiva para entender que deixar a surdez dominar a sua vida inteira não é o caminho.

Menos autocomiseração, mais ação

Isso é sério. Ninguém aguenta conviver com quem só faz sentir pena de si mesmo, reclamar e chorar. Você tem duas escolhas na vida: ter uma atitude mental positiva ou negativa – e viver com as consequências do caminho escolhido.

Há 10 anos, todos os dias, recebo mensagens de dois tipos de pessoas: as que querem ser ajudadas e as que querem ser salvas. Quem quer ser salvo está à espera de um milagre (e da cura da surdez através das células tronco, rsrsrs) sentado no sofá, reclamando e se sentindo a maior vítima de todos os tempos. Quem quer ser ajudado está em busca de conselhos e caminhos para melhorar a sua qualidade de vida – seja usando aparelhos auditivos ou fazendo um implante coclear. Uns querem apenas alguém que ouça suas reclamações e choramingos; outros querem alguém que mostre uma direção para que eles entrem em ação.

Todos nós sofremos. Todos nós temos dificuldades. Todos nós choramos escondidos à noite. Todos nós gostaríamos de ter a nossa audição natural de volta. Você não é o único, definitivamente. Por isso, não aja como se fosse. O caminho para o enfrentamento da surdez é o da ação, não o da reclamação, do vitimismo, da autocomiseração.

Descubra quais são as suas opções, tome a decisão que considerar a mais adequada e vá à luta. Todos nós fomos. Todos nós estamos enfrentando nossos demônios todos os dias. Não espere companhia ou apoio apenas para se lamentar e reclamar, até porque isso não leva ninguém a lugar nenhum.  Agir, buscar soluções e tentar melhorar, sim.

Lute por acessibilidade

Sempre. Em todas as oportunidades que você tiver, mesmo que corra o risco de parecer chato. Acessibilidade é uma responsabilidade coletiva. Você tem a mesma obrigação de lutar por ela que qualquer outra pessoa.

Se todas as pessoas que recebem um diagnóstico de perda auditiva dedicassem 10 minutos do seu dia, todos os dias, para cobrar acessibilidade nos mais diferentes locais (seja na internet ou ao vivo e a cores), nós não precisaríamos implorar por legendas em pleno ano de 2020.

A descoberta da surdez traz algumas responsabilidades extras. Lutar ativamente por acessibilidade é uma delas.

Fure a bolha da sua própria deficiência

Isso é muito importante. Quando falamos de deficiências, existe uma diversidade gigante. Muitas pessoas convivem com múltiplas deficiências. O caminho é se tornar expert na sua própria deficiência mas, depois, você vai precisar furar essa bolha. Entender os diferentes desafios que outras pessoas enfrentam, suas necessidades, dores e conquistas é um requisito básico de humanidade.

Existe muita coisa além da surdez, tenha certeza disso.

Exerça a autodvocacia

Exercer a autoadvocacia nada mais é do que enfrentar a surdez de frente como um adulto. Em bom português, trata-se de advogar em causa própria. Isso significa não esperar que as pessoas adivinhem as suas necessidades.

Por exemplo: se alguém está falando baixo ou não está articulando bem os lábios enquanto se comunica com você, a pessoa não vai saber que é ruim para a comunicação se você não informar isso a ela. Se você acaba de conhecer uma pessoa nova, ela não vai magicamente adivinhar sobre a sua deficiência auditiva. Seus colegas de trabalho precisam entender suas necessidades de acessibilidade – e é sua responsabilidade ensiná-los.

Penso muito no poder da autoadvocacia quando me escrevem pedindo ‘dicas para que as pessoas parem de fazer isso ou aquilo porque me magoa’. Gente, é simples: comunique à pessoa o que magoa, o que machuca, o que incomoda, o que pode facilitar, o que pode ser melhorado. A responsabilidade de fazer as pessoas ao redor conhecerem a melhor forma de se comunicar e se relacionar com você é sua. 

Deixe a sensibilidade exagerada de lado e mãos à obra: outra responsabilidade extra que vem com a surdez é a de ser um professor 24hs sobre o assunto. Cansa e irrita, com certeza, mas é algo absolutamente necessário para o seu próprio bem.

Veja a surdez como uma professora

A surdez foi – e sempre será – minha maior professora, porque me ensina coisas novas sobre mim e sobre os outros todos os dias. Ela me permite ter diferentes perspectivas sobre inúmeros assuntos e situações. Ela me obriga há quase 40 anos a encontrar novas soluções, a dar um jeito, a melhorar, a me esforçar. Ela também me obriga a me comunicar melhor, a descobrir diferentes maneiras de fazer as coisas.

Acima de tudo, a surdez me ensinou a ouvir o barulho de dentro. E isso não tem preço.

Assista ao vídeo no Youtube

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Basta clicar aqui, responder as 3 perguntas de entrada e aguardar. Aceitamos como membros apenas pessoas com deficiência auditiva, seus pais e cônjuges.

About Author

Moro no Rio de Janeiro e tenho 39 anos. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Sou autora dos Crônicas da Surdez e Novas Crônicas da Surdez.

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