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Do Freedom ao Nucleus 5 em Portugal

‘Sou Portuguesa, o meu nome é Alice Inácio, ensurdeci aos 18 meses com Surdez Profunda Bilateral, fiz uso de Próteses Auditivas sem capacidade a nível de discriminação fonética e tive terapia de fala, fiz o percurso escolar e académico sem adaptações especiais e em 2007 fiz IC no Ouvido Esquerdo no Hospital de Coimbra. Vou pular a fase do deslumbramento sonoro, das descobertas, da primeira palavra decifrada, da primeira chamada telefónica após a activação de há nove anos atrás, mas sem dúvida o IC mudou radicalmente a minha vida! Permitiu-me ver além da Surdez, além do Silêncio que me rodeava e abraçar a leveza insana de capacidades escondidas, tais como emigrar para um país e falar um idioma diferente do meu. Redescobri-me no pior e no melhor, regressei com energias renovadas e num desses renascimentos surgiu a criação de um conto ilustra-infantil desenhado e escrito por mim “Jonas e os Ouvidos Mágicos!” com ilustres profissionais ligados à Surdez, nomeadamente a nível de Reabilitação Auditiva com o patrocínio da Widex Portugal.

Dali conheci amigos, famílias e profissionais de todos os sectores da Saúde, fiz apresentações em escolas e colégios com o objectivo divulgar a Surdez, os Implantes Cocleares e Prevenção Auditiva diante de crianças ouvintes, fui convidada para Feira de Livros em todo o País. Essa aventura continua até agora, com o Livro na segunda edição e em breve mais surpresas virão. O tempo foi passando e o calor abrasador de Verão começou a enroscar Portugal, e numa dessas noites levou-me a um passeio onde pude no escuro apreciar milhares de estrelas a brilhar no céu onde de repente, vislumbro surpresa uma estrela candente esvoaçar e desaparecer com uma simples fumaça de pó brilhante. Desejo! Tenho de pedir um desejo! Assim foi, silenciosamente, pronunciei e o guardei onde apenas o Universo é meu cúmplice. Há dois anos venho lutar por um direito geral e universal, fazer a troca do UPGRADE depois de 9 anos de IC no Ouvido Esquerdo, o processador de som Nucleus Freedom estava nos últimos arranques e a qualquer momento ficaria sem ouvir.

O Estado Português nunca mais foi conciso aos meus apelos e a de muitos outros implantados na mesma situação que se prolonga há anos na questão da Manutenção, do UPGRADE e por fim da mais difícil batalha no acesso ao IC Bilateral a adultos através do SNS – Serviço Nacional de Saúde. Estamos de facto, nuamente desprotegidos a longo prazo, muitas coisas terão de ser feitas e a certeza é esta: não vamos desistir facilmente, muito menos iremos calar! Ainda sonho um dia, não muito distante ser Implantada Coclear Bilateral assim como demais Cyborgs Portugueses.

Então… uma semana depois de ter visto uma chuva de estrelas a roçar nos céus e uma delas, mais brilhante que as restantes sorriu antes de extinguir-se num clarão semelhante a de uma explosão repentina. O desejo foi correspondido 3 dias antes do meu Aniversário, uma amiga de coração cujo filho é implantado bilateral havia mandado um comentário no facebook “vai ali à caixa de mensagens tenho uma surpresa para ti, pequena mas GRANDE!” – após ler o texto dela, fui à tal caixa – e à medida que lia, fiquei estática e lágrimas se formaram rolando no meu rosto com um alívio no coração depois de 2 anos a tentar um UPGRADE sem sucesso – o processador de som N5 do rapazinho que acompanho desde que foi recém-nascido os progressos, as alegrias, os sustos e as conquistas seria doado para mim.

Pura Gratidão foi este o sentimento. Gratidão infinita! Aguardei uns dias que chegasse a encomenda da Madeira e mais uma semana para reactivação oficial do N5 na Widex de Lisboa, quando esse dia chegou levei a pesada mala carregada ao ombro, nada mais com os seus 5 quilos de peso! Já ia preparada para novas sensações sonoras mas não imaginava que teria de reaprender tudo de novo a ouvir com o N5 de tão acostumada que estava no Nucleus Freedom.

Nesse preciso momento o técnico passou a programação contida no Nucleus Freedom para o actual N5 e mais um ajuste foi feito, com beeps tão baixinhos e opacos quase fantasmagóricos. No fim, ligou-me de volta ao mundo da cadência sonora, estranheza é o que ocorre e devagarinho surge timbres reconhecíveis: o barulho de ar condicionado deixou de ser deveras irritante em relação ao anterior processador e quanto ao restante não notei nenhuma diferença pois estava numa sala isolada que não permitia explorar muito mais.

Assim que saí da Widex deparei com uma rua bastante movimentada, estradas entupidas de carros em alta velocidade e a minha primeira impressão sonora é esta: mas… onde estão os sons dos motores a roncar furiosamente?! Nicles! Nicles! Nicles! Ouço-os baixinhos… e eis que surge uma surpresa dos diabos: VOZES audíveis das pessoas falando no passeio daquela avenida movimentada, umas a falar ao telemóvel e outras acompanhadas – fiquei de olhos arregalados! Não minto que continuou haver a tal sensação de desconforto a respeito dos barulhos ambientes, pelo facto de estarem baixinhos… pois a adaptação duraria pelo menos 1 mês, mas que numa questão de meia hora tudo mudou, os sons foram crescendo e crescendo partindo para novas descobertas sonoras.

Mal sai da estação metropolitana onde somente as VOZES incendiaram numa mistura de vários idiomas estrangeiros, reconheci as línguas e apanhei a voz do altifalante da carruagem a anunciar a próxima estação subindo as longas escadas rolantes em direcção ao cais fluvial, logo ali reajo surpresa assim que o altifalante da CP Comboios das linhas para Cascais rompeu: “Próxima partida para Cascais daqui a um minuto na Linha 4!” – estática – vejo um grupo de pessoas a correr picando o seu passe magnético… e exclamo: ouvi bem???? Sorrio ainda embasbacada – UAU

No segundo dia, estava num estabelecimento extremamente ruidoso e sem fazer NENHUMA LEITURA LABIAL consegui pela primeira vez na minha vida decifrar um diálogo longo anotando as informações para um bloco de notas onde os barulhos nem sequer me incomodaram o eco ao redor por estar baixinho na programação. Uma amiga minha me olhava embasbacada assim que levantei os meus olhos na sua direcção, tanto ela como eu estávamos completamente em estado de choque!

Ao terceiro dia, a dor de cabeça chegou por força da adaptação e fugiu no final de tarde, andei sem o processador de som durante uma hora. Mal o liguei notei diferenças, já não estava assim alto mas baixinho nas frequências graves com a ressalva de agora os timbres soarem mais realistas. Digo eu porque agora percebo o quão mal ouvia no antigo Nucleus Freedom em termos de equalização das frequências de som, também já não estava novito. Depois de uma tarde marcada entre correias e arrumações rumei para um café esplanada apanhar ar fresco, inesperadamente ouço alguém sentado numa das mesas a seis passos de mim a conversar ao telemóvel com CLAREZA, de tal forma que apanho TUDO e no meio do diálogo uma palavra “feia” surge! Fiquei assoberbada! DISCRIMINAÇÃO POWER!

Ao sexto dia, fui para uma Colónia de Férias como Monitora tomar conta de crianças em Melides, na Praia da Galé perto de Grândola. Nunca antes foi tão fácil participar em actividades exigentes de comunicação entre adolescentes e monitores, basicamente existe uma maior compreensão auditiva em actividades propostas com colunas de som ligados e palco projectado de filmes e as conversas circundam. Houve música, cliquei no comando do N5 para o ambiente de Música, escusado dizer de que fiquei estupidamente maravilhada além de denotar o timbre. De vez enquanto vou discriminando as conversas aleatórias sem querer, é como se já não fizesse tanto esforço em ouvir. Esta nova experiência tem surpreendido de todas as formas possíveis sempre em constante acção. Já roída de cansaço às 00h34 estava enfiada no saco de cama dentro da tenda a apenas 3 km da praia e escutava o MAR! As ondas arrebentar no areal, sussurros me abraçaram infinitamente até adormecer por completo.

Acordei ao som das cigarras no despertar da manhã, sim dormi pela primeira vez com o N5 ligado a escutar o MAR e conversas de jovens indecifráveis providas do interior das tendas, também passos crepitantes na duna. Abri um sorriso de orelha a orelha, uma surda profunda ouvir tudo isso não tem preço, logo agora triste em saber que ainda existem pessoas do qual não abraçam esta tecnologia de Implante Coclear por desconhecimento e negação de que sim este portentoso aparelho muda vidas! Ao anoitecer tive o sabor tramado em participar numa orientação de terror nocturno através da via auditiva unilateral completamente às escuras num descampado e a minha salvação por causa do equilíbrio foi a ajuda de uma lanterna e acompanhada por colegas prontinhos em assustar os 4 destacamentos de jovens sedentos de novas experiências! Ali escondida no meio da escuridão, podia ouvir gritos exuberantes e assombrosos de medo, por vezes gargalhadas, e mais gritos prolongados, noutros, vozes curtas e gritinhos de aflição, de pânico puro e temor. Choros também. Foi uma revelação em pêras assistir em directo essas várias emoções de jovens ouvindo com o N5! E o esforço para não rir foi tanto!

No 13º dia tudo chegou de forma brilhante na minha adaptação do processador de som, N5, com a cálida brisa ao som das ondas do mar a beijar o areal e aviões da TAP sobrevoar nas elevadas altitudes e aos meus olhos eram do tamanho de uma mosca! De ouvir vozes estrangeiras, cujo idioma é-me familiar e de outras pessoas apanhar banhos de sol, pude então sorrir feliz. Mergulhada nos meus pensamentos decorre de rompante ainda distante o som do INEM em estado de emergência, e eis que passa por mim na praia – de novo decorre vozes, as ondas rebentarem, aviões sobrevoar a cada 15 minutos. Na volta para casa, pude finalmente reconhecer aquele som tão familiar do vento embater no pára-brisas e o vozeirão do motor a pedir mudança sem olhar para as rotações. E as diferenças foram evidentes:

Processador de som N5 super leve na orelha juntamente com a haste dos meus óculos e a famosa orelha de dumbo que tinha com o modelo anterior Nucleus Freedom desapareceu.

– Gancho de orelha do processador de som N5 extremamente confortável, não ganhei bolhas de água como sucedia no antigo modelo.

Parece que não sinto peso nenhum por detrás da orelha, ou denoto ter algo pendurado, e muitas das vezes tenho de confirmar a presença do processador de som N5 com os dedinhos para ver se continua no sítio.

– Uso das baterias recarregáveis é hoje em dia uma vantagem enorme, economizo €€€ de pilhas para eventuais desgastes que possa ter no futuro. No modelo antigo, chegava a comprar cerca de 1.800 pilhas por ano!

Qualidade sonora do processador de som N5 ultrapassa 50 vezes melhor que o modelo anterior Nucleus Freedom. Tenho a opção Ruído, Música, Focalização e Quotidiano que equivale a ouvintes! MILAGRE!!!

– Tem ajuste automático para alguns telemóveis com bobina activada e colar magnético através da opção individual, o meu está ligado para uso do JABRA e poder ouvir música via Bluetooth sem ser necessário aclopar fio directamente do processador de som N5 ao Smartphone.

– Tem o Aqua+ da Cochlear que permite mergulhar e nadar em água doce ou salgada. É possível mergulhar até 3 metros de profundidade, verdade seja dita: ainda tenho medo! Um dia talvez, mais para a frente compre esse acessório pois ouvir debaixo de água deve ser sensacional!!!

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Tudo soa agradável, ouço sons que me passaram despercebidos ao longo de 9 anos. O que não esperava era que pudesse ser capaz escutar e perceber as conversas de pessoas a falar ao telemóvel num local bastante calmo e mesmo assim ouvir uma voz de fundo do outro lado sem entender. Cada dia que passa reparo uma enorme abertura de gama auditiva, sobretudo na fidelidade das vozes e também reparei num pormenor banal para muitos: sons altos baixam e baixos aumentam, no antigo processador Nucleus Freedom não havia este mecanismo e era um pesadelo tentar separar todas as fontes sonoras intensas. Usando o N5 já não tenho de fazer tanto esforço. Para já estou a usar a bateria recarregável e utilizando duas baterias recarregáveis pequena e grande perfaz no total cerca de 29 horas! Pouparei desse modo 220€ por ano para as próximas novas baterias quando estiverem no fim de vida.

Contudo, só posso reafirmar a minha certeza de há 8 anos atrás: Implante Coclear Bilateral, não vou desistir de ti!

Beijos sonoros de Portugal!’

46 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

4 Comentários

  • Olá Alice,
    Mas que surpresa agradável seu depoimento, aí de Portugal dividindo conosco os benefícios e conquistas de seu IC.
    Parabéns pela emocionante história!

    • Dailton,

      Obrigada pelas palavras, ainda bem que gostou e é importante que implantados fazem esse relato, afinal de contas só assim aprendemos a dar o devido valor à Audição e à Surdez.

      Beijo sonoro!

  • Deve saber bem essa mudança tão boa Alice. Sou Portuguesa, e de Lisboa. Uso aparelho bilateral há quase 4 anos, nunca é uma cura mas ajuda muito. Um beijo 🙂

    • CCLNeves,

      Olá! Que bom saber e moro pertinho, sou do Seixal mas vou muitas vezes a Lisboa. Pena não haver a possibilidade de contactar consigo, senão poderíamos combinar um cafezinho, é sempre bom ouvir com ajudas auditivas do que ficar em silêncio, tive esse risco e ainda continuo a ter caso o processador de som avariar por completo mas tendo em conta o meu tipo de surdez ser tão profunda as próteses auditivas são incapazes de me ajudar, e fiz o Implante Coclear em último caso. Sou feliz assim! Ouço muito melhor sem dúvida, até uma leve folha a rolar no solo com ajuda do mensageiro do vento.

      Beijo sonoro!

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