Site icon Crônicas da Surdez – Surdos Que Ouvem – por Paula Pfeifer

Epifanias do implante coclear

 

Ontem me peguei sentada à noitinha na praia de Copacabana pensando na vida. E ouvindo. Ouvindo tudo. Ouvindo muito. Helicóptero, mar, onda quebrando, criança berrando, gente conversando, pessoal jogando bola, vento. Tão bom. Me senti feliz. E grata, acima de tudo.

Quando você passa muitos anos sendo privada gradativamente de ouvir o mundo, as pessoas e a vida, ganhar essa capacidade de volta é espetacular e assustador. Espetacular por começar a ter outra percepção de cada mísero momento e som do seu dia-a-dia. Por sentir uma gratidão que você jamais imaginou que existisse – às vezes sinto como se uma parte de mim estivesse morta e tivesse me sido concedida a graça de ressuscitar essa parte. Pela capacidade de focar no momento presente e tentar viver cada dia com mais coragem. Pelo entendimento de que cada um de nós faz o melhor jogo com as cartas que tem e que nunca se deve julgar as escolhas e sentimentos alheios. E espetacular principalmente por me redescobrir como ser humano e entrar em contato comigo mesma de um jeito inexplicável. Assustador? Ah, sim, eu disse isso. Me assusta a beleza de cada som do mundo. Me assusta o fato de que a grande maioria dos ouvintes não percebe nem capta essa beleza. Enfim, OUVIR de novo é uma facada no coração e um cafuné na alma. Nunca fui TÃO feliz.

Uma amiga fono uma vez me disse que eu teria a sensação de que minha vida recém estaria começando depois do IC. É exatamente assim que me sinto. Quero viver tudo o que me privei nessa vida por medo ou receio. Quero descobrir como é ser essa Paula que ouve. Essa Paula que se sente completa e segura. Que passou a gostar de conversar e adora descobrir as vozes das pessoas novas. Que agora pode falar olhando nos olhos e não mais nos lábios. Que ouve a própria respiração. Que agora consegue gostar de lugares escuros e barulhentos. Que ouve um australiano falando inglês e entende fácil, mas ainda sente vergonha de sair tagarelando em outras línguas. Que bom que só deixo de me sentir essa nova Paula na hora de dormir, ao tirar o IC – mas não importa porque estou dormindo, e nos meus sonhos eu ouço o tempo todo.

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