Histórias dos Leitores

Eternamente grata aos meus leitores

Leitores participativos, que não hesitam em dividir suas experiências comigo e com os outros leitores do Crônicas da Surdez, que estão sempre me dando demonstrações sensacionais de carinho e apoio. O que mais eu poderia querer? O post de hoje é uma compilação de fotos que pedi na FanPage que me enviassem com o livro. 🙂

Obrigada Vanessa Musskopf, Vivian Farias, Ana Carolina Leite, Raquel Cassoli, Isabela Jordão, Gabriela Gutierres, Lucy Inzavalde – vocês arrasaram nas fotos!!! Hoje em dia, após tantas e tantas histórias de vida incríveis que conheci, continuo me surpreendendo com vocês. Por isso não pude deixar de compartilhar (lá embaixo, após as fotos) o depoimento lindo que a psicóloga Raquel Cassoli enviou junto com a foto. Eu acho primordial o trabalho dos psicólogos que se especializam em atender pacientes com deficiência auditiva e me arrependo MUITO por não ter feito terapia logo após meu diagnóstico com 16 anos. Teria me ajudado demais em todos os aspectos da minha vida. Aceitação incondicional é o nosso primeiro passo para a felicidade – ouvindo ou não ouvindo mas, principalmente, quando temos que lidar com a perda auditiva.

 

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‘Oi, Paula! Tudo bem?

Tem tempos que estou pra escrever pra você, a correria com casa, estudos, trabalho e filhos, faz com que eu não tenha muito tempo para escrever e-mails mais longos, mas te acompanho no blog e no Facebook. Comecei te acompanhar no Sweetest Person Blog pouco antes do Crônicas da Surdez e suas reflexões e seus posts foram de grande valia para mim no processo de aceitação da deficiência, do uso de aparelhos e despertou em mim até uma revolta contra as pessoas que têm preconceito, a sociedade e, também o governo que não reconhece os deficientes auditivos como pessoas que deveriam ter os mesmos direitos dos demais deficientes.
Tenho 37 anos, sou deficiente auditiva neurossensorial bilateral de moderada a severa, minha perda é gradual e lenta. Uso AASI desde os 17 anos e tive muita resistência ao uso dos aparelhos. Passei anos me escondendo, mas não julgo as pessoas que estão ao meu redor. Minha família é do interior do estado de São Paulo e lá havia carência de profissionais especializados, minha mãe me levou a vários médicos que diziam que eu ouvia muito bem, que não atender aos chamados era coisa de criança. Foi em outra cidade que encontramos uma clinica de otorrinolaringologia, com fonoaudiólogos que realizaram o diagnóstico, audiometria e exames complementares para orientações necessárias e o uso dos aparelhos, eu estava com 9 anos e recusei o uso do AASI, já usava óculos e aparelhos nos dentes e tinha medo de não ser aceita ou bem vista pelos colegas da escola.
Aos 17 anos mudei de escola e passei a usar lentes de contato, isto me deixou mais confiante para adoção dos AASI, contei apenas a pessoa que considerava minha melhor amiga que eu estava usando aparelhos auditivos e ela estava sempre alerta para quando os aparelhos estavam à vista e puxava o meu cabelo para escondê-lo, isso me deixava constrangida, mas nunca imaginava que ela estava errada. Tudo para mim era tenso: ir a escola, ir a piscina no clube, estar com os amigos, falar ao telefone, ir na aula de educação física… Meu irmão mais velho também devia viver momentos tensos comigo, como temos quase a mesma idade, temos os mesmos amigos, frequentávamos muitos churrascos e o clube juntos, e ele vivia de alertar que nos churrascos não podiam me jogar na piscina, nem jogar água na minha cabeça. Agora vejo que eu vivia numa bolha onde só eu achava que ninguém percebia. E que tudo poderia ter sido diferente se eu pudesse ter ido á uma psicoterapia e pudesse falar desses anseios, trabalhar minha auto estima, que os meus pais e os meus irmão (tenho 2 irmãos e 1 irmã) tivessem tido orientações que facilitassem nossas vidas, que ensinasse a eles a lidar comigo, com a deficiência de maneira saudável.
Fiz faculdade de Psicologia, concluída em 2000, as marcas da minha tensão eram tão fortes, que nunca me senti a vontade para conversar com os colegas sobre isso. Minha melhor amiga e companheira de apartamento sabia que eu usava aparelhos, mas não se sentia a vontade para conversar sobre isso, mas me respeitava e me aceitava. Recentemente tivemos uma conversa sobre meus aparelhos e ela ficou muito feliz em poder conversarmos, ela disse que todos percebiam, mas ninguém perguntava, porque não sabiam como perguntar ou como eu reagiria, já que nunca tinha tocado neste assunto. Veja só, isso foi na faculdade de Psicologia!!! No meu trajeto da pós graduação tente me aproximar dos surdos, fiz curso de LIBRAS, mas em minhas pesquisas as definições de surdo que encontrava eram os sinalizados e não era sobre isso que eu queria compreender e não era desta forma que me enxergava. Dirigi minha carreira para a Educação, minha especialização, meu mestrado e, agora, meu doutorado para a educação inclusiva de uma maneira mais ampla.
Com o seu livro, me senti representada, comprei o livro para minha mãe e achamos muitos pontos em comum. De alguma maneira isto é libertador, me tira o peso de ter que esconder algo, de mostrar as pessoas como eu sou, que não se trata de arrogância, mas de não ouvir algumas coisas. Mais do que assumir minha deficiência, quero poder falar da minha experiencia, quero ajudar as pessoas a lidarem com isso. Quero orientar famílias, tirar-lhes o peso de algo que não deve ser pesado. Mostrar que a deficiência seleciona e que vai estar com o deficiente quem ama, quem aceita e respeita. Não preciso na minha vida de pessoas intolerantes e acho que ninguém deve aceitar isso.
Atualmente moro em São Paulo. Na psicologia trabalho com atendimento clinico e tenho uma formação toda voltada para a educação, especialmente a educação inclusiva. Trabalho no Ensino Superior dando aulas para os cursos de Psicologia, Pedagogia e Gestão Hospitalar. Recentemente estive em contato com a Carla Rigamonti, que conheci através do blog Crônicas da Surdez e tivemos uma conversa muito estimulante sobre o trabalho que estou oferecendo, mas ainda me espanto com a ausência de profissionais da Psicologia para trabalhar com deficiência auditiva. Outra pessoa que muito me apoia e incentiva é a Fonoaudióloga Márcia Castiglioni, que trabalha na Widex (a marca dos meus aparelhos auditivos) e que reconhece o quão poderia ser efetivo o bem estar dos usuários de AASI se ele melhorarem a auto estima e aceitação sobre a surdez e o AASI. Ela me contou, por exemplo, que no Brasil não há investimento de AASI coloridos devido a falta de aceitação das pessoas sobre o uso destes, a grande procura tem sido pelos aparelhos beges, marrom e preto que ficam camuflados entre os cabelos.
Por fim, amo meus AASI. Estou oferecendo atendimento e orientação às famílias de deficientes auditivos, mas percebo que a resistência ainda é muito grande. Existe um pré-conceito em relação ao trabalho do psicologo e somado a dificuldade de aceitação da deficiência auditiva que faz com que as pessoas não procurem ajuda, mas acredito que se por muito tempo fugi da minha surdez por achar que ela não deveria me identificar, hoje acho que sou melhor por isso. Porque além da meu conhecimento teórico e experiencia na Psicologia, EU SEI como se sente e com o que lida uma pessoa com deficiência auditiva e posso ajudar.
Raquel Cassoli’

59 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

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