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exemplo de superação

De vez em quando as pessoas chegam até nós emocionadas, com lágrimas em seus olhos e nos dizem: “Você é um exemplo de superação!”. O discurso continua: “acho tão lindo que você faz leitura labial muito bem, me entende muito bem com o aparelho, se integra a todos na comunidade”, “formou na faculdade, tirou as melhores notas da turma”, “Você é muito esperta!”, “é uma pessoa linda e maravilhosa! Um exemplo de vida para nós!”.

Exemplo de superação? Não!

Hã? Eu, um exemplo de superação? Acho esta afirmação tão estranha, pois eu apenas estou tocando a vida para frente, vivendo como uma pessoa qualquer. Por acaso eles esperam que eu fique chorando em casa e reclamando dos meus problemas da surdez? Eu não sou surda porque quis, apenas sou assim e a vida segue.

A sensação que tenho é que essas pessoas me colocam no pedestal e exageram nos elogios às minhas habilidades e conquistas. Me tratam como se eu fosse uma super heroína por ter conseguido tal façanha. Tenho reparado que esta reação exagerada também é estendida às outras pessoas de diversas deficiências como surdos, cegos, cadeirantes, amputados, etc.

PCD não é herói…

As pessoas que não possuem algum tipo de deficiência física têm mania de endeusar as que possuem. Não param para pensar que somos pessoas como quaisquer outras, com qualidades e defeitos. Não somos pessoas perfeitas.

Há um filme que, na minha opinião, retrata muito bem a visão errônea de superação é o “Stronger”, cujo título brasileiro é “O que te faz mais forte”. Nesse filme, um americano perdeu as duas pernas num atentado de Boston. Virou “herói” na cidade por ter dado pistas que levaram à cinematográfica caçada e prisão dos terroristas. O personagem nem teve tempo para viver o luto pela perda das suas pernas, recompor a sua vida porque as pessoas da cidade teimavam em convidá-lo para todas as cerimônias de homenagem, em jogos de hockey, em jogos de beisebol e o exibiam como exemplo de “superação”, quando na verdade, ele mesmo ainda não havia superado os seus próprios obstáculos emocionais vindos da adversidade.

Por que isso acontece? Penso eu, que isso acontece porque as pessoas não conseguem se imaginar naquela condição que julgam ser muito pesada, difícil para elas suportarem. Acham que não terão forças para seguir em frente diante alguma adversidade, que se acontecer com elas será como se fosse a morte! Tem o “coitadismo” enraizado nisso. Então se espantam ao verem os deficientes físicos fazendo coisas como todo mundo, pois não esperam que aconteça.

Já nós, que estamos na condição de deficiência física, não temos outra opção! Para vivermos temos que estudar, trabalhar, conversar, comer, namorar, casar, cuidar da família, cozinhar, criar projetos, viajar. A nossa vida não pode parar! Eu, como surda profunda bilateral, tive de estudar para passar nas provas, entender as matérias escolares, me matei de estudar português e fazer redação, fiz vestibular como todo mundo. Passei perrengues nos trabalhos como qualquer ouvinte passaria. Já deixei queimar comida na panela, me virar para pôr a refeição completa na mesa. Me descabelar ao pagar as contas.

Um outro olhar…

Eu gostaria de lançar um outro olhar sobre o termo “superação”. Segundo o dicionário o significado desta palavra seria: ação de vencer, alcançar, conseguir, elevar-se acima de, superar. Acho que “elevar-se acima de” traz o seu melhor significado.

Defeitos e obstáculos todos têm, sejam físicos ou emocionais! Pode ser a dificuldade para ouvir, entender uma aula; dificuldade para estudar por não ter um super cérebro; não conseguir fazer aquele bolo perfeito, etc.

Ao invés de colocar certas pessoas num pedestal, deveríamos usá-las como inspiração e exemplo para superar os nossos próprios limites, nos movermos em uma direção diferente.

Durante a minha saga auditiva com o implante coclear, conheci alguns implantados que me inspiraram imensamente a fazer minha transformação interior. A inspiração deles me deu força para lutar pela melhoria auditiva por meio de treino auditivo, com fonoaudiólogos especialistas e dedicação aos exercícios em casa.

“Eu quero ser como você quando crescer!”

Junto com os meus amigos de perfis semelhantes a mim, damos força um ao outro para melhorarmos a qualidade da nossa fala e audição. Nos reconhecemos nas nossas dificuldades da caminhada. A independência deles também é inspiradora e me instiga a me mover em direções diferentes, deixando para trás as coisas velhas que precisam ficar para trás. Só assim posso me renovar e melhorar a mim mesma.

Podemos superar para crescer e alcançar aquilo que ainda não se tem.

* Por Maria de Menicucci

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About Author

Paula Pfeifer é uma surda que ouve com dois implantes cocleares. Ela é autora dos livros Crônicas da Surdez, Novas Crônicas da Surdez e Saia do Armário da Surdez.

2 Comments

  • Vitor
    09/05/2019 at 3:36 pm

    Oi, meu nome é Vitor,
    Gostaria de falar com a Maria , Conheci seu pai hoje, conversamos brevemente, porém muito kkkk
    Ele me falou um pouco de você e de seu aparelho… Gostaria de conversar com vc melhor como posso fazer isso??

    Reply
    • Maria de Menicucci
      20/05/2019 at 10:59 pm

      Se você for quem estou pensando, meu pai conheceu um jovem surdo implantado, é você? Se for, você pode acessar o grupo Crônicas da Surdez no facebook. Lá poderá me achar e, além disso, conhecer uma imensa turma de surdos.

      Reply

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