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A historia da Sandra: o caminho da aceitação da perda auditiva

Tenho perda auditiva de nascença, minha professora de pré- escola que alertou meu pais, e desde então tive que usar próteses para poder ouvir melhor. Se dissesse que isso não afeta minha vida estaria mentindo, pois me afeta de maneira geral. Fui diagnosticada primeiro com perda moderada/severa nos dois ouvidos, ganhei meus dois aparelhos da prefeitura. Eram os retroauriculares; quando os coloquei senti que precisava daquele estímulo. Foi difícil para mim mesma admitir isso – como os AASI ficavam atrás da orelha, não aceitei bem a idéia. Levei-os para casa e os colocava antes de sair para que meus pais pudessem ver que eu estava usando. Mas chegava na escola e tirava por vergonha. Hoje percebo com eu era tola, mas aquilo me deprimia, e quando os tirava me sentia normal como os outros.

Fiquei 6 anos sem usar, negava, chorava pelos cantos, sentia necessidade de conversar, porém ninguém entendia porque  eu não usava meus aparelhos, então o jeito era enfrentar tudo sozinha. Sempre estudei em escola pública, não tinha muitos amigos, quando não os ouvia riam da minha cara. Falavam: “Você tá surda?” Aquilo me doía…

Lembro até hoje do dia em que aceitei o fato de que precisa usar, isso aconteceu na igreja. Sentei lá fora e me inclinei na porta lateral para poder ouvir melhor e uma irmã me perguntou se eu tinha perda auditiva. Respondi que sim, ela tinha dois filhos com deficiência auditiva. Prometeu doar para mim dois aparelhos retroauriculares menores que os meus, senti imensa gratidão, porque naquele dia ela falou tudo que eu precisa ouvir, ouviu-me como ninguém nunca me ouviu, foi um anjo na minha vida – me fez perceber que eu precisava de qualidade de vida. Ela me acompanhou nas fonos até eu adaptar os AASI doados. Comecei a me sentir melhor usando meus aparelhos auditivos, meu desejo era ter um intra-auricular. Em 2006, com muita dificuldade, consegui compra-los. Com esse intra aceitava melhor, minha qualidade de vida aumentou, minha auto estima então só subia. Aprendi muitas vezes de maneira árdua a práticar o amor por mim mesma, a aceitar que não podia modificar aquilo.

Depois de seis anos senti que precisa mudar de aparelho, aquele não conseguía ajudar minha perda, que foi de severa para profunda. Me aconselharam que o melhor aparelho para minha perda era o retro auricular, bati o pé pois queria um intra a qualquer custo. Coloquei então o intra e fui levando, sempre com as mesmas dificuldade. Um dia acordei no meio da noite com um ruído de serra elétrica na minha cabeça depois de dormir ouvindo música. Passou, mas comecei a sentir medo dos pés à cabeça, vivia atenta a tudo, abusei da leitura labial. Todos os dias ensino meus amigos a interagir comigo – poucos encaram as pequenas mudanças que são necessárias para se comunicar numa boa comigo.

No ensino médio sempre tinha que pedir para o professor falar mais alto mas ele continua falando baixo; outro se preocupava se eu estava ouvindo e me perguntava durante a aula na frente de todos, minha cara queimava, todos olhavam pra mim e eu tinha vontade de sair correndo, chorava por dentro. Até hoje não consigo interagir em grupo, não consigo compreender muita gente falando ao mesmo tempo. Falar no telefone nem se fala, tarefa árdua, até hoje respondo sim ou não sem nem mesmo ouvir a pergunta. Tenho vergonha de perguntar de novo, o clima fica meio ruim de repetir toda hora. Desde então criei um mundo só meu no qual as  pessoas me aceitam como sou – soma ou suma.

Demorei para aceitar o fato de ter deficiência auditiva, foi difícil, o fato de você aceitar, muda tudo. Completei o ensino médio, trabalho como inspetora de qualidade,  procuro práticar o que me faz bem, aceito convites de amigos pra sair – quando tô com saco, senão não vou. Confesso que perdi muitas oportunidades por medo de sofrer, a gente sente quando vai doer. Prefiro me isolar desde então, curto minha companhia, amo ler, escrever. Não posso ensinar os outros a se adaptarem comigo, é chato mandar falar mais devagar, em bom som, e pau- sa- da- men-te. Meu escudo nas horas difíceis tem sido Deus, meu melhor amigo. Vivo como qualquer outra pessoa, supero todos os dias minhas dificuldades, aprendi a segurar o choro. Essa é a história que Deus escreveu para mim, ele sabe que vou suportar. Talvez sem esse “fardo” eu não veria o mundo com os olhos do coração, não aprenderia a me pôr no lugar do outro.  Vou ter que fazer implante clorear, espero ter bom resultado, o amanhã não sei o que me reserva, o que tiver de ser será!’

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Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

5 Comentários

  • Já cansei tanto de explicar as pessoas como conversarem comigo… um saco mesmo, uma hora cansamos. Mas ninguém é obrigado a se adaptar a nós, se esforça quem realmente nos ama/quer ter a gente do lado. Tô me acostumando a tudo isso, e por um lado é bom, vemos quem realmente topa conosco.

  • Sandra, seus sentimentos, seus gostos e sua história são muito parecidos com os meus. Posso lhe dizer que entendo perfeitamente como se sente. Fiquei surda ainda bebê, perda severa. Com 5 anos, recebi ajuda de uma fono. Ela me educou por muitos anos. Graças a ela, melhorei a fala. Colocaram-me aparelhos com 7 anos, eu os rejeitei. Só com 13 anos fui aceitá-los e usá-los de vez e para sempre. Com ou sem aparelhos, também passei pelas mesmas angústias… chorava baixinho pelos cantos, chorava copiosamente às noites quando estava com insônia, me sentia deprimida, ficava a-r-r-a-s-a-d-a quando zombavam de mim… nem mesmo meus pais me apoiaram. Até hoje há pessoas que dizem: “até que aquela surdinha é legal”. Hoje eu logo mando… vc sabe. É pura ilusão pensarmos que poderemos ser como os outros, pois nunca seremos. O tempo é um santo remédio, tenha fé de que todos esses sentimentos tristes melhoram… ou melhor, eles vão embora. Mas é preciso lutar. Com a luta, a gente aceita (ou como a Paula sempre fala – a gente se adapta) e vai ficando mais forte, a casca que nos protege começa a fazer parte de nossa essência. Vc precisa se impor, não deixe que te humilhem ou te deixem triste. Não é chato mandar falar mais devagar, não. É importante avisar, pois nem todos conhecem as nossas limitações… Não se isole do mundo, procure apoio (psicológico ou não), procure melhorar sua qualidade de vida e jogue no lixo as amizades que não valem a pena. Agarre as oportunidades, invista nas pessoas que realmente te querem bem. Invista nos seus talentos, tenho certeza de que vc tem, independentemente da surdez. Pode criar um mundo seu, acho saudável, mas não viva exclusivamente nele. O mundo aqui fora também é surpreendente. Viva a vida imensamente, pois ela passa rápido…

  • Oi Sandra li a sua historia, aconselho fazer o implante sera muito bom para vc.Se Deus quizer vai da tudo certo, e so uma questão de tempo p/se adptar bjs.

  • Gostei da sua história, sou implantada e vivo muito bem, falo ao telefone, escuto música… Mas como vc mesma falou aceitar é a palavra chave, tive as minhas dificuldades, mas sempre me aceitei como eu sou, e nunca tive vergonha. Assim sou mais feliz e as pessoas, vendo vc feliz, tbm te aceitam, mas se não aceitarem, o problema é delas! Torço por vc é que tudo dê certo nessa nova etapa da sua vida! Um abraço!

  • Amiga, gostei de tua história, embora triste. Somos todos iguais, sentimos as mesmas coisas, passamos pelas mesmas dúvidas, mas enfim, continuamos. Sabes que existe serviços socais que dão atendimento psicológico nesses casos? Uma psicóloga tem me ajudado bastante. bjsss boa sorte.

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