Histórias dos Leitores Implante Coclear

Implante coclear aos 50 anos: história de vida do Solemar

Vim de uma família muito simples e muito dolorosa, cheio de dificuldades, principalmente no meio familiar. Minha vinda a este mundo de Deus foi prematura e cheios de problemas de saúde, embora a maioria só pôde ser detectada mais tarde após os meus nove anos de idade.

Eu estudava no Instituto Rainha da Paz, um colégio de freiras. Amava muito aquelas senhoras, pois me sentia muito feliz e bem cuidado por elas.  Num belo dia durante o recreio eu e uns colegas estávamos brincando no parque da escola quando de repente todos saíram correndo e eu, que parado estava, para do fiquei. O jardineiro da escola estava podando as árvores próximo ao parque,  e um galho ou um tronco da árvore caiu a poucos metros das minhas costas e eu não pude perceber ou até mesmo escutar sua caída.

Uma das irmãs, que se chama Regina ficou apavorada e correu em minha direção me chamando pelo meu nome, só que eu ouvia muito longe e nem imaginava o que estava acontecendo naquele momento. Ligaram para os meus pais e foram a escola preocupados com o ocorrido, foi quando foi relatado pela madre que eu não ouvi a caída dos galhos e troncos de árvores no parque da escola.

Minha mãe nesta época trabalha no centro administrativo do estado de Goiás, localizado em Goiânia, minha terra natal. Ela me levou no Centro Otorrinolaringologista de Goiânia para que fosse verificado o que estava acontecendo com minha audição. Naquela época não tinha esta tecnologia que temos nos dias de hoje. Foram feitos vários exames e os médicos não achavam a causa para o incidente. Chegaram a colocar um carretel no ouvido para ver se poderia obter algum resultado positivo, mas nada de uma solução.

Perda auditiva progressiva

Os anos se passaram e  a minha perda auditiva só aumentou. Ao mesmo tempo, os médicos não entendiam como eu ainda ouvia, já que os exames sempre acusavam o mesmo resultado: perda auditiva neurossensorial Severa Profunda na orelha esquerda e moderada na direita.

Aos onze anos de idade veio a minha infelicidade maior: a separação dos meus pais. Eles viviam muito infelizes e as brigas eram muito constantes e com isso minha saúde foi ficando para trás e esquecida. A cada dia que se passava ficava mais e mais sozinho, mesmo morando com o meu pai não tinha mais o apoio de sempre. Minha fé só foi crescendo e fui me tornando um espiritualista da comunidade do Vale do Amanhecer em Planaltina – DF onde fui a cada dia me encontrando na estrada da verdade e da vida.

Durante entre os meus 18 à 25 anos, conseguir trabalhar no meio social era um grande obstáculo, pois até a virada do milênio eu evitava dizer que tinha problemas auditivos nas empresas por onde passava. Fui adquirindo experiência e desenvolvendo meu dom da leitura labial, que foi o marco de minha vida , pois mascarou minha deficiência sem que ninguém percebesse que existia.

Eu sabia que existia a lingua de sinais, mas não entendia um sinal sequer e também não me interessava, pois na minha cabeça seria mais humilhante ainda, já que no dia-a-dia me deparava com uma diversidade de piadinhas de tudo que se pode imaginar. Então o silêncio sempre no meu interior era mais forte e me mantinha em guarda e honra.

Aos 30 anos como eu já tinha um pouco mais de condição financeira pude procurar por soluções viáveis para meu ouvido. Comecei a consultar com vários médicos e especialistas na área, mas sempre que eu entrava num consultório parecia uma piada, pois em 15 minutos já saia pela mesma porta que eu entrava decepcionado, e com isso foram anos e anos sempre a mesma coisa e com isso fui me fechando a ponto de querer me isolar do mundo de vez.

Um certo dia encontrei um velho que me perguntou na rua se eu era um deficiente auditivo. Perguntei a ela como ele sabia, pois ele não me conhecia. Ele me disse que sabia de todo meu problema, mas que eu precisava aceitar, a situação e correr atrás dos meus direitos, e que partir desta aceitação muita coisa viria ao meu encontro adiante.

Foi quando eu estava desempregado e precisava trabalhar, mas não tinha condição de bancar passagem de casa a procura de emprego. Nesta época a câmara dos deputados distritais no DF tinha aprovado o direito ao passe livre para os PCD/PNE – Portadores de Necessidade Especiais. Ai sim corri atrás e consegui tirar o meu passe livre. Meu sonho era ter condição de voltar a ouvir o que nunca ouvi.

Dei um saldo muito grande minha vida e do nada não sei por quem ou como fui parar numa empresa americana, na qual estou até hoje, que chama-se Unisys Brasil. No primeiro momento foi uma tensão, mas descobriram minhas qualidades e houve uma evolução profissional enorme. Como tinha agora u bom convênio de saúde, comecei novamente a investigar a fundo a minha deficiência auditiva.

O Crônicas da Surdez

Tive muitas decepções, até que um dia encontrei um blog chamado Crônicas da Surdez, escrito pela Paula Pfeifer, onde vi uma fantástica história que ela conta de sua vida como deficiente e como usuária de implante coclear. Conto a todos até hoje como fiquei de boca aberta após ler os relatos dela, e percebi que tudo que vi e ouvi lá atrás era mentira ou ilusão a respeito do IC.

Isso era o meu sonho mesmo, depois de tanta decepção. Seria como retirar uma grande marca que estava cravada em meu peito por décadas.

Consultei com o Dr. Fernando Massa. Pensei muito antes de correr atrás, mas ao mesmo tempo tinha aquele medo de ser mais um para eu ter mais uma decepção na vida. Mas isso me fez lembrar das palavras de Paula,  de sempre correr atrás de seus direitos de poder ouvir e foi o que fiz.

Conheci o IBORL de Brasília onde ele atendia. Fui muito bem atendido e pude notar que de todos os médicos que por onde passei este era diferente, assim como toda a sua equipe.

Implante coclear aos 50 anos

Estou com 50 anos de idade e só agora realizei o meu sonho tão sofrido e esperado. No dia 23 de agosto de 2018 às 07:00 da manhã no Hospital de Brasília, fiz o meu implante coclear. Logo após a cirurgia, minha esposa Nadja Perola me falou que a mesma foi um sucesso. A diferença faz muito sentido quando passamos a ter a confiança de que procuramos o melhor para nós.

Isso foi o que senti naquele momento de felicidade, que compartilhei com todo mundo, até mesmo pessoas ligadas a meu trabalho – que também me deram muito apoio moral e pessoal. O processo de recuperação muito foi rápido.

No dia 18 de setembro, ativei o IC. Ligaram pela primeira vez o implante, gente o susto foi tão grande que não pude conter minha felicidade de ouvir pela primeira vez tudo ao meu redor. A primeira programação é para ambientação, para que o cérebro se acostume. Me senti uma criança de 3 meses com os primeiros estímulos auditivos!! A cada dia que passa o som fica mais claro e as vozes das pessoas, mais nítidas. 

Me sinto muito realizado. Aquilo que acreditamos só e possível quando a fé em deus e tudo podemos alcançar nossas realizações.

Você que está em busca de uma solução para sua surdez, o que está esperando? Mãos à obra. Leis o Crônicas da Surdez, pode ter a certeza que seu desejo será uma grande reviravolta em sua vida para melhor, não deixe que a tristeza os pensamentos ruins transformem seus objetivos em pesadelos, tenha sempre em mente que ninguém é melhor que ninguém e sim somos todos filhos de Deus – e também temos direito de ouvir e ser feliz.

37 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

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