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Histórias dos Leitores / Implante Coclear

Implante coclear bilateral: a história da Marli

Foto: Shutterstock

A Marli Scheifer Camargo acabou de fazer um implante coclear bilateral, e eu nunca vou me esquecer dela porque o encontro que tivemos ficou marcado na minha memória. Foi lá em Porto Alegre, num evento de implantados, alguns poucos meses depois da minha ativação.

Quando chegou a minha hora de pegar o microfone e falar, eu desabei chorando! Estava vivendo uma época difícil (quem leu o segundo sabe que escrevi sobre isso, sobre o quanto a jornada emocional do início é desgastante), minha cabeça ainda não tinha absorvido todas as novidades e quando me vi em frente a tantas pessoas queridas, não consegui me segurar.

Tinha uma dupla que estava de mãos dadas me olhando com olhos muito curiosos e semblante ao mesmo tempo carinhoso e triste. Era a Marli e a filha dela, e como a Marli também chorou comigo, acabei chegando nas duas e perguntando para a filha dela se ela estava indo para o IC.

A resposta foi: ‘eu não, mas a minha mãe sim!’ E aí só de lembrar da cena eu já choro #fiasquenta. Ela reuniu coragem, implantou um ouvido, ficou muito bem e agora acabou de implantar o outro. Com vocês, um pouquinho dessa história bonita, movida pela vontade de voltar a ouvir <3

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‘Moro em Ponta Grossa no Paraná. Sou engenheira agrônoma. Percebi que tinha perda auditiva já adulta, formada, tinha duas filhas, trabalhava num ambiente bem movimentado, atendendo telefones e pessoas. Sempre fui muita ativa. Numa roda de amigos era geralmente a que mais falava.

Adorava festas e dificilmente ficava sozinha. Lembro como se fosse hoje do dia em que me deparei pela primeira vez com a minha deficiência. Estava com minha irmã na sala e ela me perguntou se eu não estava ouvindo meu celular tocando no quarto ao lado. Parei, prestei atenção, e nada, não estava ouvindo.

Aquele momento foi terrível pra mim, tanto que até hoje não esqueci.  Ali eu já sabia o que me esperava no futuro, pois tinha um irmão já com perda auditiva profunda que também foi progressiva. Temos sempre a esperança que conosco será diferente e achei melhor esquecer aquele fato e seguir em frente, pois ainda conseguia levar uma vida normal.

Tive mais um filho e quando ele nasceu eu já estava na perda severa a profunda. Foi somente nessa época que resolvi colocar aparelhos. Aos poucos fui deixando de falar ao telefone, não gostava mais de conversar com varias pessoas ao mesmo tempo, no meu trabalho fui me adaptando como dava, através de emails e mensagens, enfim eu não era mais a mesma pessoa.

Apesar de lutar pra continuar fazendo tudo o que eu fazia antes, não era mais a mesma coisa. Como participar de uma conversa dando a minha opinião se tinha que fazer um esforço imenso só para ficar a par do assunto e não perder o fio da meada?? Piadas, brincadeiras, quando conseguia entender já tinha até perdido a graça.

Quando normais, enquanto ouvimos já raciocinamos elaborando respostas. Ouvindo mal, todo o nosso esforço e raciocínio é usado para entender o que é falado. Como levar um papo normal e descontraído desse jeito?? É desgastante e cansativo. Meus filhos e meu marido tiveram que se adaptar também à minha surdez. Atendiam sempre o telefone por mim, me ajudavam a ouvir as pessoas, enfim eram, na medida do possível, os meus ouvidos.

Sempre tive deles todo o apoio que precisei. Meu filho mais novo aprendeu a falar muito cedo e falava articulando muito bem as palavras para que eu pudesse entender.  Muitas vezes pessoas puxam conversa com as crianças e as mães respondem. No meu caso sempre foi o contrário, meu filho respondia por mim e seguia em frente no papo e eu ficava boiando. Ele sempre recebeu muitos elogios por ser comunicativo e independente. Consequência positiva da minha surdez? Talvez.

Em 2013 meus aparelhos auditivos não estavam mais dando conta da minha surdez e eu estava já com muita dificuldade de me comunicar. A fono da revenda de aparelhos me disse que aquele era o modelo mais potente no mercado. Mais um momento de desespero. Apesar dos aparelhos me darem um ganho muito pequeno, eu não vivia mais sem eles e pensar que não teria mais aparelho pra mim.

Incrível também, que nenhum médico ou fonoaudiólogo nunca me falou da possibilidade do Implante. Mas como nunca desisto muito fácil de nada, achei que para continuar me comunicando o que me restava era melhorar minha leitura labial. Como se eu já não fosse especialista nisso, mas ainda não sabia e achei que tinha que me aperfeiçoar. Fui pra internet procurar por curso de leitura labial. Não encontrei curso nenhum, nem muita coisa sobre isso.

O que encontrei na internet aquele dia foi o implante coclear através do site do HC de São Paulo. Li tudo o que achei e a partir daí não parei mais de buscar informações sobre o IC. Foi quando também conheci a Paula, que estava na sua jornada para o implante coclear. Lembro que segui todas as postagens no blog, Facebook, livro, ávida por informações.

Em 2014 pude conhecê-la pessoalmente em POA, ela já implantada e feliz eu ainda em busca de informações. Foi conhecendo a Paula e sua história que consegui aceitar minha surdez (coisa que psicólogas não conseguiram) encarei de frente o elefante branco e só assim consegui tratá-la como parte da minha vida e não uma inimiga que me frustrava e diminuía. Um fardo enorme que consegui tirar dos meus ombros.

Meu cadastro para a primeira consulta para o implante eu fiz pela internet e aconteceu em setembro de 2013 no HC em São Paulo. Operei em maio de 2014 e ativei em julho de 2014. Hoje, estou ouvindo muito bem com ele. Me trouxe de volta o modo de viver que eu tinha e estava perdendo com a surdez.

Voltar a conversar com pessoas sem medo de não ouvir, ouvir a voz dos meus filhos,  ser mãe por inteiro, conhecer novas pessoas, realizar meu trabalho com menos dificuldade, podendo atender pessoas ao telefone. Ouvir a voz do meu filho pela primeira vez foi muito emocionante.

Logo que ativei, saía com ele de carro, ele no banco de trás, e eu pedia que fosse falando comigo, era maravilhoso e emocionante ficar ouvindo aquela vozinha linda falando no meu ouvido. Enfim o Implante Coclear mudou novamente a minha vida pra muito melhor.

Por tudo isso e por querer uma audição completa, faz muita falta o som no outro ouvido, pelo zumbido muito forte que ainda tenho no ouvido não operado e pelo medo que tenho do meu IC pifar e não ter outro pra substituir, fiz meu segundo implante no ouvido esquerdo. Desta vez em Curitiba no IPO.

Já estou ansiosa pela ativação que será em dezembro. Agradeço a Deus por tudo, pela pessoa que me tornei, e por todas as pessoas que passaram pela minha vida em toda essa jornada, sempre acrescentando. Gratidão eterna.’

About Author

Moro no Rio de Janeiro e tenho 39 anos. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Sou autora dos Crônicas da Surdez e Novas Crônicas da Surdez.

3 Comments

  • Francisca Cleide
    20/01/2016 at 8:24 pm

    Olá, Renato! Comecei a ler algumas histórias desse maravilhoso blog e parei aqui na sua (depois darei sequência)…imagino o que sente, também sou deficiente auditiva e gradativamente, percebo-me cada dia mais surda… tentei usar um aparelho convencional, não adiantou, não conseguia entender quase nada com ele…ontem (19/01) fui inventar de fazer umas compras sozinha, e pretendia parcelar, na hora fiquei super nervosa…olhando para a cara do caixa, não ouvi em hipótese alguma ele a me perguntar… e ele colocou tudo para a próxima fatura… fiquei arrasada quando fui questioná-lo ele disse ter perguntado 3 vezes! Mas, não podemos desistir! Vamos batalhar pelo nosso sonho de ouvir! Se quiser manter contato, envia-me um e-mail que responderei, tá? Deus o abençoe ricamente! cleid_s@hotmail.com

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  • Renato Leite
    01/12/2015 at 4:25 pm

    Sou um Homem de 49 anos, perdi minha audição de forma paulatina, devido às explosões de um canhão a qual atirava em épocas do Exército, fui paraquedista durante um ano, de atirei 6 vezes o que foi suficiente para eu perder minha audição. Hoje preciso de um Implante Auricular e apenas o Hospital do Fundão realiza mas não consigo. Leio essas cronicas e me vejo no lugar de cada uma pessoa que aqui postam… Já nem sei mais como são musicas a não ser aquelas que estão gravadas em minha memória… Muitas coisas para mim deixaram de ter sentido, já não sei mais o que é dormir ouvindo o tamborilar da chuva, o canto alegre dos pássaros, a cigarra das 18h anunciando o anoitecer, o canto delicioso de Andréa Bocceli, enfim… Parabéns a todos (as) que conseguiram dar continuidade às suas vidas, mesmo com Implantes…
    Em Tempo:. Sou garçom, aliás, fui e sou deficiente auditivo desde 1997, divorciado devido a minha audição, segundo minha ex-mulher, “não tinha mais paciência de falar comigo e eu não ouvir” hoje essa se casou novamente e tem uma filha deficiente visual.

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