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Destaques / Histórias dos Leitores

O implante coclear da Mariana

‘Olá Paula, tudo bem?

Meu nome é Carlos e há alguns meses te escrevi para comprar o seu livro autografado para presentear minha namorada Mariana. Na época te falei que ela planejava fazer a cirurgia do Implante Coclear e como ela acompanha seu blog, achei que o livro seria muito interessante pra ela. Estou escrevendo agora pra te falar que ela fez a cirurgia no dia 7 de outubro de 2015 e a ativação no dia 16 de novembro e agora está percebendo os resultados e benefícios do implante. Inclusive, antes mesmo de fazer a cirurgia, eu tinha notado que ela estava me entendendo com mais facilidade, até comentei com ela e ela me disse que era devido a nossa convivência e que o costume de conversarmos estava facilitando o seu entendimento.

Os resultados do implante foram impressionantes! Não só a fonoaudióloga, mas a maioria das pessoas que convivem com a Mariana, comentam como ela evoluiu, tanto na melhora da audição, quanto da fala, sua voz está mais alta, clara e com melhor dicção, ela está surpresa com os resultados, pois não esperava uma evolução tão grande e em tão pouco tempo. Recentemente ela me disse que sua audição com o implante saiu dos 90 para 25 dB e que está feliz demais com isso, até comentou sobre a possibilidade de futuramente fazer o implante no ouvido esquerdo também. Outro benefício que ela me disse é que o implante fez com que ela se sentisse mais conectada com o mundo e com as pessoas e que ela se sente mais presente, de fato é possível notar isso nela.

Ela está muito feliz e animada com os resultados e com todos os elogios que vem recebendo! Ela também me disse que tudo o que ela está escutando graças ao IC, parece música para ela. Ela tem perda bilateral de nascença e decidiu fazer a cirurgia porque sonha em cursar a faculdade de medicina e está prestando vestibular com esse objetivo e por isso achou que o IC traria mais facilidade e independência quando estiver na faculdade, já que segundo ela, a sala de aula é um ambiente complicado para depender somente do AASI e da leitura labial.

Ela gostou muito do seu livro, tanto que chegou a lê-lo em um só dia! Acabei ganhando um exemplar dela e também gostei muito. Gostei da forma como você se expressa de maneira simples, objetiva e sincera, como se estivesse falando diretamente com o leitor mesmo. Uma coisa que me chamou muita atenção no seu livro e que me deixou surpreso, foi o fato de que muitas das experiências e sentimentos que você contou, foram exatamente iguais aos que ela já havia me contado antes. Em muitos momentos eu fiquei com a impressão de estar lendo um livro escrito por ela, eu pensava: “nossa, a Mariana já me contou isso!” Quando comentei sobre isso com ela, ela me disse que são experiências e sentimentos que toda pessoa surda acaba vivenciando. Também me surpreendeu o fato de muitas pessoas serem contra essa tecnologia tão maravilhosa que é o Implante Coclear e por defenderem que a língua de sinais deveria ser a língua utilizada por pessoas com DA, achei isso um absurdo imenso.

A experiência de conviver com a Mariana tem sido maravilhosa e muito enriquecedora, já disse isso pra ela várias vezes. Tenho aprendido muito com ela, até mesmo a ver (e ouvir!) o mundo de outra forma, dando mais valor para coisas simples como ouvir os sons do dia-a-dia e que muitas vezes nós não percebemos como isso é importante e bonito. Outro dia ela ficou super feliz por conseguir ouvir o barulhinho da pipoca estourando na panela, eu achei isso fantástico! Desejo toda felicidade e sucesso do mundo em tudo o que ela fizer! Somos amigos há dois anos e faz um ano que estamos namorando e sou infinitamente grato por tudo que passamos juntos, por ela ser a pessoa tão maravilhosa e especial que é e por ter ser tornado uma parte tão importante da minha vida. Espero que ela continue dividindo todas essas experiências comigo.

Paula, fiquei com vontade de contar o resultado da cirurgia e essa história pra você, que com o seu blog e livros, já ajudou muito a Mariana. Inclusive ela me mostrou um post que ela escreveu no Crônicas da Surdez. Espero que você continue com esse seu trabalho maravilhoso que ajuda muitas pessoas, tanto ouvintes como não ouvintes, a aprender mais e conviver melhor com a surdez. Um grande abraço nosso e te desejamos muita felicidade e sucesso!’

mariana

A Mariana também enviou um pequeno depoimento! 🙂

‘O implante coclear tem me proporcionado uma vida bem mais barulhenta, ouço coisas que só com AASI não capto. Nasci surda devido à rubéola na gravidez da minha mãe, desde pequena me adaptei de um jeito que eu conseguia me comunicar com as pessoas. Me tornei uma pessoa extremamente visual, sempre usando leitura labial, comecei usar aparelhos auditivos nos dois ouvidos aos 2 anos de idade. Um para cada perda diferente, severa no ouvido esquerdo e profunda no direito. Passei a infância sendo uma criança normal, sempre ativa e brincalhona! Fazia amizade fácil, fui abençoada com muitos primos na família, a maioria da mesma idade que eu. Fazia fonoterapia toda semana. Aos 11 anos, abandonei o aparelho da perda profunda no ouvido direito, sempre senti que ele atrapalhava a audição e também a minha compreensão das palavras de maneira correta. Nunca tive ganho algum com ele. Segui usando só um aparelho no melhor ouvido. As fonos não gostaram de saber disso e elas sempre insistiram que usasse o aparelho mesmo sabendo que não tinha ganho algum, depois me convencia e eu usava. Mas não durava muito tempo, depois continuei usando um só. Passei a adolescência desse jeito, tive muita dificuldades na escola, eu me esforçava pra conseguir notas boas e que pudesse passar de anos! E me formei sem repetir de ano, ufa! Mas nesse tempo, eu sempre senti que algo faltava. Não tinha muita amizade com os colegas da escola, nunca participava em grupos, fui de extrovertida pra introvertida, fiquei longe dos familiares da terra natal, fiquei um pouco solitária. Tudo isso que a surdez me proporcionou. Depois segui pra faculdade, fiz um curso totalmente nada a ver comigo. Escolhi o curso porque queria conseguir um emprego, qualquer um que fosse. Na verdade, queria um curso na área de saúde, eu sempre gostei muito de ciência biológicas. Nao fiz por que achava que por causa da minha surdez nao iria conseguir fazer, como ouvir com estetocóspio. Enfim, uma péssima escolha e pra piorar, tive muito mais dificuldades de aprendizagem. Nunca gostei de assistir uma aula, sempre fico em desvantagem. Terminei a faculdade, e totalmente insatisfeita com o curso. Felizmente tive uma chance de recomeçar, vou prestar vestibular no final de ano e entrar na faculdade do curso que eu sempre quis fazer! Mas, pensando em todas dificuldades que passei, não queria passar por isso de novo, não quero recomeçar e depois me arrepender ou então ser reprovada e não conseguir fazer mais nada. Foi aí que comecei pensar em fazer o implante coclear. Talvez poderia me ajudar. Eu tinha sonho que achava impossível de realizar, era de conseguir ouvir e entender tudo que uma pessoa diz sem precisar fazer leitura labial, com qualquer pessoa! Vi que poderia realizar esse sonho, depois de conhecer a experiência do implante coclear através do seu blog e de outras pessoas. Demorou uns dois anos pra criar coragem de encarar a cirurgia, a experiência, a terapia, tudo novo! E decidi fazer no ouvido direito que a minha perda era profunda. Ano passado, dei o primeiro passo! Em outubro fiz a cirurgia e fui ativada em novembro. Na ativação não ouvia nada, nadinha mesmo. Deixei de usar aparelho auditivo no começo da minha adolescência e percebi que era importante usar para manter o nervo auditivo sempre estimulado, isso faz diferença. As fonos sempre falaram isso e eu nunca dei muita bola. Nesse primeiro dia, eu só ouvia ‘tu tu tu’ quando alguém falava alguma coisa, tinha sensação de som entrando na cóclea. Foi assim por uns 4 meses, depois do primeiro mapeamento já estava ouvindo alguma coisa. Sabia que teria que ter muita paciência e dar um passo de cada vez e sempre progredindo aos poucos. Mas já comecei a sentir mudança, as pessoas do meu convívio me contaram que estava falando muito melhor e com uma dicção melhor e estava mais animada e mais feliz! Esse mês já vai completar 7 meses, e estou fazendo fonoterapia. Já consigo compreender algumas palavras e frases. Os sons já se transformou bastante coisas, to ouvindo sons que não conhecia antes como a respiração de um cachorro e também percebo que os sons sao diferentes como o barulho da pipoca de microondas e o da panela. Tudo agora fez mais sentido, sinto que faço parte do mundo, e mais conectada com as pessoas. Tudo que a experiência do implante tem me proporcionado maravilhosamente! Até fiz mais amizades do que a minha vida inteira! Descubro que o implante coclear era uma ‘peça de quebra cabeça’ que faltava na minha vida. E ainda tenho muito que evoluir, muita coisa pra melhorar ainda e vou seguindo aos poucos pacientemente até chegar no topo da montanha! É um sonho se realizando!’
Sobre

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 38 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

4 Comentários

  • Letícia
    14/07/2016 at 2:03 am

    Mariana, me fez tão bem ler o seu depoimento.
    Tenho uma filha de 15 anos que fez o IC no dia 03/09 e ativação no dia 10/11 de 2015. Seu depoimento parece ela contando o depoimento dela em todos os detalhes, me impressionou à semelhança dos fatos de criança a adolescência, e adivinha qual é o sonho dela? Faculdade de medicina.
    Um grande beijo e muito sucesso.

    Responder
  • Silvani
    12/07/2016 at 12:22 am

    Mariana! Que coisa boa! A VIDA MUDA NA PROPORÇÃO DA SUA CORAGEM ! não é ? Parabéns pela conquista. Carlos você é uma pessoa especial, Parabéns!!

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  • Movimento Surdo do Brasil
    11/07/2016 at 1:51 pm

    Carlos, primeiro queremos dizer que a comunidade surda vai desconsiderar a sua afirmação preconceituosa: “me surpreendeu o fato de muitas pessoas serem contra essa tecnologia tão maravilhosa que é o Implante Coclear e por defenderem que a língua de sinais deveria ser a língua utilizada por pessoas com DA, achei isso um absurdo imenso”. Muitas pessoas é número grande pode ser DA, surdos, famílias, interprétes. Até mesmo eu sendo implantado nunca fui contra a vida toda e uso LIBRAS com muita felicidade porque tenho filhotes ouvindo a sua discordância e esposa surda entristecendo saber os valores da luta que tivemos durante anos. Mas Alegria nossa (comunidade surda) é parabenizar a Mariana pela conquista de querer ouvir para ingressar a Medicina: muita garra, suor e orgulho.
    Abs. Movimento Surdo do Brasil.

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  • Ana Lúcia
    11/07/2016 at 12:03 pm

    Mari, sua linda! Parabéns pela escolha e pela coragem de ir em busca do seus sonhos. Parabéns, Carlos por estar vivendo junto com a Mariana essas redescobertas sonoras vocês formam um lindo casal.

    Responder

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