Implante Coclear

A história do implante coclear do Matheus Vicênzio

Hoje quero compartilhar um pouco da história do meu lindo garoto Matheus Vicênzio. Somos naturais de Mossoró-RN, mas residimos na linda cidade serrana da Região do Alto Oeste do RN, Martins! Sei que pode parecer longa, mais é uma fantástica leitura de tristezas e angústias, mas acima de tudo é uma história de grande amor, fé e superação.

Durante todo o meu ciclo gestacional fiz acompanhamento rigoroso, uma vez que tanto o meu IGG quanto IGM (exames de citomegalovírus e toxoplasmose) foram diagnosticados positivos. Iniciei uma luta constante de cuidados e exames para que tudo ficasse bem na minha gravidez.

No dia 05 de dezembro do ano de 2006 fomos agraciados por Deus com o nascimento do nosso lindo filho, nascido de forma prematura com oito meses e cinco dias, porém pesando 3.000kg e medindo 47 cm. Ele ficou na UTI pediátrica por 6 incansáveis dias, mas nunca nos faltou a fé que o mesmo logo viria para os nossos braços.

Ao sair do hospital tudo parecia normal, até que resolvemos apresenta-lo ao infectologista que fez meu acompanhamento na gestação. Ele imediatamente nos relatou que o bebê havia fechado a fontanela (moleira), confesso que na hora foi como cair de um apartamento de diversos andares, pois sabia que poderia a vir encontrar alguns problemas futuros.

Antes mesmo dos médicos, eu já ouvia da minha avó materna Antônia Leite que o Matheus não segurava o pescoço. Claro que não quis aceitar e sempre ignorava o alerta. Acho que, como mãe, sempre quis vê-lo como se tudo estivesse normal, afinal ele sempre foi um garoto lindo e saudável. Iniciamos mensalmente consultas com uma neuropediatra em Natal. Para nossa felicidade, mês a mês ele se desenvolvia normalmente. Cada conquista era uma vitória.

Surdez progressiva

Aprendeu a andar (embora tardiamente), a falar rapidamente, enxergava normalmente e sempre correspondia ao nosso chamado, mesmo com sua limitação ainda desconhecida. Foi se desenvolvendo a cada ano e tornando aí mais difícil de descobrir que o mesmo vinha perdendo de forma progressiva sua audição.

Até que, em uma viagem com amigos, sou chamada para um diálogo. Nem imaginava que dali iria se iniciar este processo de Matheus na questão auditiva. Foi quando de forma carinhosa ouvi de Rosânia Teixeira (amiga familiar): “ Ramona, não me leve a mal mas preciso dizer algo, mesmo que não seja fácil de compreender. Seu filho não escuta tão bem, vamos leva-lo ao médico, realizei diversos testes com ele e a nenhum deles ele correspondeu, preciso dizer isto por que outros já devem ter percebido e não tiveram a coragem de dizer.”

Poxa! Estas palavras não saíam dos meus pensamentos, mas sei e tenho certeza que foram enviadas por Deus. Fiquei uma noite inteira tentando entender e pedindo respostas a Deus. Retornamos da viagem e não demorou para Deus mostrar a resposta. Na manhã seguinte, saí para o trabalho e a pessoa que cuidava do Matheus me liga e com voz trêmula pede que eu volte rapidamente para casa. Estranhei e voltei. Ao entrar em casa logo ela vem ao meu encontro para dizer o que mãe nenhuma quer ouvir.

“Ramona, hoje coloquei Matheus para ouvir umas músicas no meu celular e o mesmo pediu que eu aumentasse o volume do lado esquerdo porque não estava conseguindo ouvir, fiquei meio pasma porque o volume era o mesmo para o direito e isso me causou preocupação. Será que Matheus não está ouvindo bem?”

Caí na real de que tudo não era sonho e sim pura realidade. Logo o levamos para um otorrinolaringologista que o diagnosticou com perda auditiva nos dois ouvidos. Compramos os aparelhos auditivos para serem usados nos dois ouvidos do Matheus. No início, até tiveram serventia, foram descobertas tremendas, novos sons que se iniciavam que nem imaginávamos que o nosso filho não os conhecia – desde o mais simples, como o som da calculadora, até os mais complexos, como o som do mar.  As novidades sonoras levaram Matheus muitas vezes ao delírio, pois alegrava-se com os sons que achava não existir.

Os dias foram passando e a perda progressiva aumentando mais e mais a nossa preocupação. Lá vem enviada por Deus novamente aquela que denomino o anjo que surgiu em nossas vidas: Rosania Teixeira. Ela me liga pedindo um favor: “ Ramona vem para Natal. Consegui uma consulta com o Dr. Rodolfo Penna para amanhã. Traga Matheus e crê no Deus que existe que tudo irá se resolver na vida de sua família, Matheus ainda vai ouvir muito bem!”

Confesso as lágrimas caíram em meus olhos, talvez para ela não seja nada demais, porém para nossa família esta frase foi de valor incalculável. A consulta foi tranquila. Foi a primeira vez que não consegui derramar lágrimas, pois ele falava de forma suave, pacífica e harmoniosa que até onde pudesse e estivesse ao seu alcance estaria a nos ajudar.

Implante coclear

Começamos novas batalhas de exames até que marcamos a tão sonhada cirurgia de Implante Coclear. Dúvidas começaram a pairar em nossos pensamentos, angústias, agonias, noites mal dormidas, sensação de será que estamos no caminho certo, noites em claro clamando a Deus ajuda. E foi aí, cara amiga Paula, que você surgiu na vida da minha família. Na melhor hora. Meu muito obrigado, pois em uma das noites de angústia, sem saber dos rumos que a vida nos proporcionava, minha mãe Jacqueline Vieira clama a Deus por ajuda e no auge do seu desespero busca algo na internet e logo abre o Crônicas da Surdez.

Recomendo o Crônicas para todos que me falam sobre algo que se relacione à deficiência auditiva, pois foi através do seu modo de carinhoso de falar sobre essa deficiência que comecei a ver o meu filho com outros olhos. Paula, o seu blog serve de incentivo para que, assim como eu, tantos outros descubram como nós somos preconceituosos com coisas tão simples. Deixo aqui o meu abraço afetuoso e singelo para você que tornou os meus dias mais felizes e completos.

Te acompanho diariamente e, assim como eu, Matheus Vicênzio, que hoje usa IC no ouvido esquerdo, lê todas as suas postagens, identificando-se inclusive com muitas. A do choro dos bebês no avião ele logo disse: “Mãe! Faço como ela desligo o meu aparelho quando você vem me reclamar algo!” Não me contive em sorrisos… Ele está ouvindo super bem e mais alegre do que já era, graças ao IC.

34 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

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