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Mais trechos de Surdo Mundo

Oi gente!! Aí vão mais alguns trechos do livro Surdo Mundo (da L&PM Editora) que têm a ver conosco!

“Você tem duas opções quando não consegue ouvir o que os outros dizem: ficar quieto, acenar com a cabeça, murmurar e sorrir, fingindo que ouve o que o seu interlocutor está dizendo, usando de vez em quando uma expressão de concordância, mas sempre correndo o risco de meter os pés pelas mãos com consequências desagradáveis; ou então tomar a iniciativa, ignorar as regras normais de turnos conversacionais e falar sem parar sobre o assunto que preferir, sem deixar nenhum espaço para o seu interlocutor, o que evita o problema de escutar e entender o que ele está dizendo.” (p.209)

 –> Já usei a tática de falar sem parar sobre um assunto qualquer. Nunca dá certo! A outra pessoa acaba achando que sou louca ou tenho sérios problemas para calar a boca. Não recomendo!! E a tática de concordar com tudo com um sorrisinho amarelo é muito, MUITO perigosa!! Especialmente em conversas com alguém do sexo oposto que muito te interessa! 😉

” É incrivelmente relaxante estar em um ambiente social onde você não precisa se sentir idiota, preocupado ou constrangido por ser surdo.” (p.167)

 –> Preocupação e constrangimento, duas coisas que tiram o sossego de qualquer pessoa surda. Acho que é por isso que muitos de nós possuem uma leve tendência a gostar de estar sempre com os mesmos amigos, com a família, com pessoas com as quais podemos relaxar. Estranhos causam stress em quase todas as situações que envolvem conversas diretas, em especial se não houver ninguém por perto para ajudar, caso necessário.

“Paradoxalmente, ser surdo não faz o silêncio parecer menos atraente – muito pelo contrário. A experiência auditiva consiste em silêncios, sons e barulhos. O silêncio é o estado neutro. Os sons são importantes, pois trazem informações e nos proporcionam prazer estético. Os barulhos não significam nada e são desagradáveis. A surdez transforma tantos sons em barulhos que você sente falta do silêncio.” (p.153)

 –> Por mais insano que possa parecer, amo o silêncio. Amo ter a possibilidade de me desligar do mundo e das pessoas quando bem entender. Inclusive, preciso disso. No final do dia, ao tirar meus aparelhos auditivos para dormir, a sensação é de paz. Um belo paradoxo, não?

“Será que existe uma Pulsão de Surdez, análoga à Pulsão de Morte descrita por Freud? Uma atração inconsciente pelo torpor, pelo silêncio e pela solidão, que mina e contradiz o desejo humano natural de companhia e convívio? Será que estou enamorado desta serena má audição?” (p.137)

Mais alguém leu o livro? O que acharam??

Acabei descobrindo que o autor, na vida real, é surdo. Fiquei intrigada pensando em como um ouvinte seria capaz de descrever com tanta maestria e riqueza de detalhes certas situações pelas quais passamos…. 🙂

5 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

2 Comentários

  • Olá, é a primeira vez que acesso o blog. Confesso que me surpreendi com a descrição feita pelo autor do livro.

    É a realidade nua e crua.

    Assim como a Greize eu também já utilizei-me dos três truques mencionados… É aquele velho ditado, se não me engano dito por Abraham Lincoln: “Pode-se enganar a todos por algum tempo; pode-se enganar alguns por todo o tempo; mas não se pode enganar a todos todo o tempo…”

    Cada uma das situações guardam perigo…

    O duro é quando você é tão surdo (como eu….) que pergunta uma, duas, três ou mais vezes e não entende. O cara do outro lado tem que ter uma paciência de Jó. O que eu faço em situações assim???!!! peço para que escreva. Só não ando com bloquinho no bolso…kkkk

    De fato o aconchego da família e dos amigos mais próximos nos dá mais segurança, por isso é o circulo preferido, porém, aos poucos, vamos nos fechando numa redoma, evitando definitivamente o contato social.

    Abraços e parabéns pelo blog.

  • Caramba..tinha que ser para entender e falar com tanta riqueza de detalhes.Pensei antes ese cara lê a alma?? ..rsr
    Não passa pelas mesmas coisas.
    Na questão de ficar quieto, falar sem parar e fingi que ouviu, já fiz todas.Se vc fica muito tempo quieto, falam vc ta bem?Ta triste?Se vc fala muito, interrompe a conversa e talvez já mudaram de assunto e vc ainda esta naquela(esse é o pior constragimento).Fingir as vezes da certo ,mas concordar..ai é um perigo.Pergunto de novo.É o jeito.
    Nos sentimos mais seguros, com amigos de muito tempo, familia e até outros surdos..Muita gente fala que surdos excluem as pessoas..vejo que eles foram exlcuidos..então..( tb as vezes dá uma preguiça ter que ficar explicando pq perdeu audição, a novos amigos).Mas..Devemos sempre estar abertos..no meio do caminho deparamos com mta gente bacana. Tipo a Paula assim né..kkk.Mas moro em Bh, e os mineiros são muito discretos..o tal “come queto”..vejo que tem curiosidade, mas não vão chegando e perguntando de cara não , muitos são bem solicitos.Mas educação vem de cada um né…
    Outra amaria poder ouvir, mas muito sons tb me incomodam.Pode?Loucura não.Para os outros o ouvido consegue limpar, em nós é barulho ao “quadrado” que amplia com aparelhos dai queremos silencio..louco né..tb pensei que fosse só eu..Rss.
    Freud que me desculpe, muitas teorias dele são ótimas mas essa não, não tenho atração pela “má audição”..rssr

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