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Histórias dos Leitores

Médica veterinária surda: a história de Mariane Lourenção

O silêncio sempre fez parte do meu mundo. Como nasci assim, sempre foi natural para mim conviver com a surdez. Eu acreditava que o aparelho me fazia ouvir como as outras pessoas ouviam. Não imaginava que existia diferença entre minha forma de escutar e a de outras pessoas.

Só fui perceber isso quando comecei a frequentar a escola. Eu queria interagir com os meus colegas, queria estar integrada com a turma, mas tinha dificuldade em me comunicar. Então, vi que o meu mundo não era o mesmo que o dos outros.

Eu aprendi a ler os lábios e, dessa forma, entender o que as pessoas falavam. Mas isso exige muito. Exige que a pessoa fale olhando para minha direção, exige que a pessoa fale mais pausadamente. E não é sempre assim. Isso me frustrava e me tornava distante de meus colegas.

E como foi difícil! Nos trabalhos em grupo, eu era a última a ser escolhida.

É complicado fazer amizades quando você não consegue se comunicar plenamente. Uma vez, uma amiga de escola me disse que não queria mais ser minha amiga porque estava cansada de ser minha “babá”. Isso doeu muito. Eu não precisava de babás. Eu precisava de pessoas que me aceitassem com as minhas diferenças e que entendessem meu modo de interagir com o mundo.

Na sala de aula, as dificuldades aumentaram. Um ditado de português era um desafio para mim. Como aprender a escrever uma palavra que eu não conseguia ouvir? Não foram todos os professores que souberam lidar com minhas limitações e me ajudaram.

Cheguei a aprender Libras, mas não tinha com quem conversar. Tive pouco contato com outros surdos, as pessoas a minha volta eram ouvintes e eu precisava me esforçar para me integrar nesse meio.

Minha família sempre foi meu ponto de apoio. Foi onde eu encontrei a compreensão, a paciência e a ajuda de que tanto precisava para crescer. Foram eles que me mostraram que eu era capaz como todo mundo. Que minha surdez não me definia, nem me limitava. Eu tinha força para seguir meu caminho com meus próprios pés. Só precisava acreditar nisso.

Medicina Veterinária

E como eu queria acreditar nisso! Muitas vezes, não é o que a vida nos mostra. Mas eu decidi encarar os obstáculos de frente! Terminei meus estudos e entrei na faculdade de medicina veterinária. Meu amor pelos bichos me ajudou a escolher o curso.

Sim, o curso é difícil, requer dedicação e muito estudo. Nos três primeiros anos, eu gravava o áudio de todas as aulas e minha mãe fazia a transcrição no meu caderno. Tudo o que o professor falava, estava anotado ali. Funcionou por um tempo, mas eu queria independência. Comecei a anotar o que conseguia entender, a copiar o que os colegas haviam escrito no caderno. E mais uma vez encontrei professores despreparados a lidar com a surdez. A maioria nunca tinha dado aula para alguém como eu.

Demorou mais, eu precisei repetir algumas matérias, mas consegui. O curso de veterinária dura cinco anos. Eu consegui completá-lo em oito. Por mais que muitas vezes tive vontade de desistir, minha família estava do meu lado me dando suporte para seguir. Minha mãe não perdia a oportunidade de me mostrar que eu era capaz. E ela estava certa. Eu me formei. Sou Médica Veterinária.

Trabalhava em uma clínica, mas ainda não me sentia completa. Os outros profissionais estavam dispostos a me ajudar, mas muitas vezes eu tinha medo de prejudicar o trabalho deles porque não me comunicava com facilidade. Durante uma cirurgia, por exemplo, nós usamos máscaras. Dessa forma, não consigo fazer a leitura labial. Enquanto trabalhava um período na clinica veterinária, comecei a fazer um curso de fotografia.

E foi a fotografia que me fez ver novas possibilidades. Eu era mais independente. Eu tinha mais liberdade no meu trabalho. Era minha câmera e eu. A palavras eram substituídas por imagens. E eu estava mais completa profissionalmente. A fotografia era uma forma de comunicar com as pessoas. Eu eternizava um momento em uma foto e as pessoas poderiam ver minha sensibilidade, meus sentimentos registrados ali.

Implante coclear

Mesmo descobrindo um novo caminho, queria mais independência. Foi então que decidi fazer o implante coclear. O aparelho auditivo que eu já usava não era capaz de me dar tanta autonomia. Precisa de algo mais.

Anos antes, já havia pesquisado sobre o implante, mas não fiquei interessada. Depois, tive medo. Dessa vez foi diferente, estava disposta a me dar essa nova chance. E que bom que tive coragem de tomar essa decisão! O implante foi um dos passos mais importantes da minha vida. Descobri um novo mundo. Fui apresentada a novas sensações.

Realizei  a cirurgia no lado direito em agosto de 2016 e no lado esquerdo em outubro de 2018. O dia em que o aparelho foi ligado foi uma surpresa. Eu não criei expectativas. Fui sem esperar nada. E fui surpreendida.

Nunca imaginei que fosse tão diferente o som do aparelho convencional com o que eu uso agora. Antes, o som era abafado e muito limitado. Agora, além de ouvir melhor, conheço novos sons a cada dia.

O  barulho do mar, o barulho da vassoura encostando no chão, o som do vento passando pela janela, o canto dos pássaros na rua de casa. São tantas descobertas! Nunca me senti tão completa! Ouvir minha própria voz foi uma mistura de estranhamento com beleza. Estava admirada em ter contato com tantas coisas pela primeira vez. Nos primeiros momentos, não conseguia distinguir o que as pessoas falavam. Mas tudo isso é parte de um aprendizado.

Minha audição melhora a cada dia. Já consigo falar melhor e, dessa forma, me expressar melhor. Estou mais confiante. E sei que só vai melhorar. Ouvir com mais nitidez fez aumentar minha confiança. Não tenho mais medo de me comunicar. Quero compartilhar minhas histórias.

Tenho um mundo inteiro para conhecer! Tenho milhares de novas pessoas com quem conversar. Há tanta musica para ser ouvida! E eu estou pronta para tudo isso.

Que venha a felicidade!

Eu apoio e faço parte do #surdosqueouvem, quero mostrar ao mundo o quanto somos capazes, mesmo com as dificuldades, sempre haverá um jeito de superar e aprender! 

PS: Descobri uma grande paixão pela confeitaria e agora, além de Médica Veterinária, também sou confeiteira!

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  • @marilourencaoconfeitaria

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About Author

Moro no Rio de Janeiro e tenho 39 anos. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Sou autora dos Crônicas da Surdez e Novas Crônicas da Surdez.

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