Destaques Histórias dos Leitores

Meu filho é surdo

“Meu filho é surdo, e agora?” – no Portal Otorrino

Entre para o Grupo Crônicas da Surdez no Facebook se você é mãe de surdo

“Daniel é surdo oralizado, ou seja, adquiriu a surdez após ter aprendido a falar. Descobrimos a deficiência auditiva quando ele tinha quase oito anos, há 7 meses atrás, e após passar por todo o processo doloroso de negação, de desespero, de medo, de incertezas, decidimos iniciar a reabilitação auditiva. Ele agora usa os aparelhos auditivos (AASI) e tem se adaptado muitíssimo bem a eles. Através da delicadeza e sensibilidade de sua professora, Daniel conseguiu ensinar aos colegas que aquele aparelho era muito importante para ele e que isso teria que ser motivo de alegria e não de deboche. E as crianças foram incríveis com ele!

Daniel sente-se inseguro ao encontrar amigos novos? Sim. Outro dia, fomos à casa de amigos e lá estava um amiguinho novo: Daniel recua, se isola, fica triste, pensa sozinho, cria coragem e enfrenta. Ele nem sabe que eu estou vendo tudo. E eu acho que ele nem sabe interpretar tudo que se passa, mas eu sei que ele sente. E foi no último final de semana mesmo que me deparei com este desafio! Quando fui contar para ele que iríamos conhecer o namorado de uma amiga minha, que também era surdo, ele me perguntou: “Mamãe, o que é surdo?”. E meu mundo caiu.

Ele ainda não tinha entendido! A ficha não tinha caído! Mesmo com todas nossas conversas, com os aparelhos, com as sessões de fono, os exames, as consultas! Conversamos muito e à medida que as perguntas iam surgindo, Daniel ia percebendo a realidade dele: “Porque eu?” “Porque não meu irmão gêmeo” “Porque não as outras crianças?” “É para sempre?”Então é por isso que aquele menino me chama de surdo no futebol?”. E então eu me deparei, naquele momento de tantas incertezas e tanto desespero dele, comigo mesma. Eu estava em frangalhos por dentro, sem chão, sem rumo, sem saber que perspectiva dar ao meu filho, porque tudo é tão novo para mim quanto é para ele.

E me restou apenas ser mãe.

Eu o abracei, coloquei o ouvido dele no meu peito e fiz ele ouvir meu coração. E do meu coração de mãe, sempre saíra esperança, sempre haverá força, serenidade, amor e coragem. E de repente eu tive uma certeza: eu não preciso de nada, eu já sou o que ele precisa.

Por hoje, eu serei o amparo que ele precisa.

Por hoje, eu serei amor.

Por hoje, eu serei a fortaleza que ele precisa para ter base e confiança para acreditar que ele PODE TUDO.

Se eu tenho medo deste ‘tudo’? Muito. Se eu choro no meu canto por causa disso? Sim. Quem não chora e sente medo da vida? Mas aí eu me lembro do dia que os aparelhos foram ativados e da alegria deste menino ao ouvir o barulho do vento. Eu me lembro da alegria do Daniel ao ouvir seus próprios passos e os passarinhos lá de longe. E esta alegria me conduz ao caminho do meu próprio autoconhecimento: quais são as minhas expectativas em relação aos meus filhos? São as minhas expectativas que devem estar em primeiro lugar? Não. Não mesmo!!!! Ser mãe é isso! Não sou eu e minhas vontades. E foi esta experiência com o Daniel que me fez acordar para a vida! Me fez ouvir a vida com outros sentidos! E isso é muito lindo! Lindo demais! Poder ser mais amorosa, mais atenciosa, mais perceptiva e menos crítica, menos arrogante, menos faladora, tem me tornado uma mãe muito melhor!

Aí aquele medo que senti no diagnóstico, aquele pavor, aquela sensação de impotência simplesmente acaba desaparecendo! Hoje veio um bilhete na agenda dele, da escola, e a professora me contou que ao falar em sala sobre as Olimpíadas, Daniel ergueu a mão e pediu para que a professora não esquecesse de falar das Paraolimpíadas. E ela me disse que foi uma conversa ótima, que ele se colocou muito bem, que partiu dele falar sobre isso e que ele naturalmente falou que era deficiente auditivo ou surdo, como quisessem chama-lo.

E enquanto eu estava me corroendo ainda sobre ele ter tido a percepção de tudo há pouco, ele já estava resolvendo estas questões na prática. Enquanto eu pensava se ele ia precisar de acompanhamento psicológico, ele já estava me mostrando que talvez sim, mas que ele estava pronto para este desafio!Pode a vida ser tão perfeita? Mesmo com todos estes desafios? Sim! Ela pode! E nesta hora eu penso comigo: porque não enfrentar tudo com alegria? Ser mãe de um deficiente auditivo tem sido uma experiência maravilhosa!'”

152 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

4 Comentários

  • Obrigada por esta partilha! O meu Diogo tem 5 anos e foi diagnosticado há 1 ano e hoje foi a primeira vez que senti que alguém compreende e sente como eu! Toda a sorte do mundo para o seu filhote.
    Sofia

    • Oi Sofia! Só hoje que vi seu comentário! Vamos falar? Meu perfil no face é Rodrigues Jú! Me adiciona!

  • Que texto lindo, mãe do Daniel… Parabéns pela suas atitudes e pela força incrível que você vem tendo, não é uma situação fácil e muito menos aceitavel, mas você está sabendo lidar muito bem com ela, e isso é maravilhoso para o Daniel, porque através de você ele aprende a aceitar também e ser o que ele vem sendo, um menino forte, inteligente e aberto para falar da deficiência dele…
    Que Deus ilumine e abençoe todos vocês…
    Grande abraços.

Deixe seu comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.