Histórias dos Leitores

O objetivo do Crônicas da Surdez: ajudar as pessoas

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“Eu AINDA não li o seu livro (leituras obrigatórias tomaram conta esse ano), mas vim para contar um pouco sobre o que aconteceu comigo e de como o blog me ajudou. Nunca tive a sensação de escutar 100%, o que me atrapalhou e me atrasou um pouco em falar corretamente as coisas. Mas após os meus 14 anos, de tanto ouvir “Você é surda por acaso?” e não saber se a pessoa que tinha uma péssima dicção ou se eu realmente estava escutando mal, fui a um otorrinolaringologista, um que eu já conhecia, pois era frequentadora assídua do consultório a cada 2 meses com algum tipo de infecção na garganta ou ouvido. Ele pediu uma audiometria mas só fui fazer quase um ano depois. Quando fiz, a fonoaudióloga virou pra mim e disse para eu voltar nele o mais rápido possível, quando voltei, ele explicou que havia acontecido um grande “estrago”, para procurar uma clinica para testar se o aparelho auditivo funcionaria. Minha audição é de grau moderado. Muito escutei que se não era total nem iria me atrapalhar, mas bem, quem tem uma audição nesse grau sabe o quanto pode lhe dar dor de cabeça. Minha avó disse que eu era muito nova para um aparelho auditivo, que só gente idosa que usaria, eu pela ignorância, me deixei levar, sem conhecer o assunto bem. Mas o tempo passando, a audição cada vez mais prejudicada, e pedindo para repetir cada vez mais, não conseguindo falar com ninguém sem estar olhando para pessoa, não conseguindo ouvir nada na sala de aula, aí a gota d’água: viajar e depender de outras pessoas para saber o que estavam dizendo na sala de embarque. Lembro que o vôo estava atrasado e eu continuei durante algum tempo na fila achando que já ia embarcar, até que perguntei para uma senhora que explicou que atrasaria, e no avião, um rapaz precisou me dar as instruções do piloto pois não entendia nada. Depois disso resolvi que procuraria uma clínica para encontrar um aparelho auditivo. Aí que entra você. Logo que procurei na internet, achei uma postagem recente que falava sobre aeroportos, e eu pensei “Tem mais gente que escuta desse jeito ruim que nem eu?!”. Aí comecei a revirar o blog lendo postagem por postagem (lágrimas e lágrimas eu diria), comecei a ir em clínicas e nenhuma me agradava, fazer uma audiometria continuava sendo uma tortura, já que as fonos tem uma constante CHATA mania de olhar para você e fazer cara de “ouviu isso?” e se você não houve, a frustração toma conta. Então, achei o meu anjo de fonoaudióloga, a Leticia da Comunicare de Porto Alegre, que me fez ter a melhor audiometria, me deixou tranquila e teve toda paciência do mundo para meu pai poder financiar o aparelho, além de conseguir um com o qual eu me sentisse realmente confortável. Foi um susto, eu não sabia que eu não conhecia barulhos, para mim era apenas dificuldade em entender as coisas, e não que houvesse tantos ruídos assim. As vozes eram diferentes, mudei totalmente meu gosto musical, me senti uma criança re descobrindo o mundo. Até descobri o sotaque que meu namorado tinha e nunca tinha percebido. Infelizmente, ainda não sei se é uma perda progressiva e qual a causa, o médico aposta nas frequentes infecções que tive na garganta e ouvido, a fono acredita que seja uma predisposição genética.
Enfim, só queria te agradecer pelo blog, que me deu uma direção, uma luz, pra saber para onde ir. E espero que ajude muito mais pessoas, pois ainda existe muita ignorância a respeito da deficiência auditiva, dela não ser bem reconhecida além de saber como lidar, já vi muitas pessoas que não escutam bem mas se negam a usar aparelhos por estética, usar óculos é uma coisa tão comum hoje em dia, porque aparelhos não podem ser também? E bem, eu me formei na escola, agora sou bixo de engenharia de bioprocessos e biotecnologia, espero poder ajudar também quem sabe futuramente nessa área!!!
Beijo, Carolina.”

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Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

2 Comentários

  • Carolina, o seu depoimento me emocionou porque eu fui mais ou menos assim tipo “ah! nasci assim e me ame quem quiser!” Hoje vejo que é uma ignorância de um tamanho da minha parte!! 🙂

    Nasci surda e só fui usar aparelho auditivo aos 40 e poucos anos….SE ARREPENDIMENTO MATASSE…SÓ DEUS!

    Não deixe de ler o livro e de fato morri de rir e chorar ao mesmo tempo porque cada frase que lia me identificava, voltava ao meu passado e assemelhava o meu presente. Já dei 4 livros para amigos deficientes….muito bom!

    Beijos e sucessos!

  • Carolina, devo muito a Paulinha! Não que eu aceite completamente o fato de ser deficiente Auditiva, mas ela me fez ver que eu não sou a única, nem a última pessoa com esta deficiência. Com o passar do tempo, vi que há crianças que já nascem surdas… E eu, na época com quase 54 anos, me achava nova para ter ficado surda. Dizem que nada como o tempo para perceber as coisas. Espero que vc leia o livro “Crônicas da Surdez”, pois é apaixonante! Dá para rir, chorar, enfim, é uma grande lição de vida que a Paula nos dá! Boa sorte! Um abração.

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