Crônicas da Surdez

O primeiro Cochlear Day no Brasil

Às vezes é difícil traduzir sentimentos em palavras, e confesso que estou sentindo essa dificuldade ao começar a escrever esse post. Como uma imagem vale mais do que mil caracteres, acho que essa fala por si só.

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Para mim, foi um dia emocionante: nunca na vida estive num lugar com tantos implantados ao mesmo tempo. Parecia até cena de filme! Era só olhar ao redor e ver bebês implantados, crianças implantadas, adolescentes implantados, adultos implantados, idosos implantados… a coisa mais linda de se ver!

Esse sentimento de identificação é difícil de ser alcançado, pois na grande maioria das vezes somos os únicos com deficiência auditiva em casa, na escola, no trabalho e nos ambientes que frequentamos. Olhar ao redor e ver centenas de pessoas que conhecem nossos sentimentos e vivenciam as mesmas coisas que nós no dia-a-dia é algo muito poderoso. É algo que de alguma forma transforma aquela nossa parte de dentro endurecida pela surdez. Foi assim que me senti no Cochlear Day: transformada.

Também foi difícil não me deparar com aquele sentimento profundo de gratidão – e de me sentir inteiramente presente no agora. Cada pessoa que veio falar comigo e me dizer alguma coisa bonita me fez dar um suspiro de agradecimento. Muitos de vocês me dizem “você mudou a minha vida“, “você me fez mudar totalmente o jeito como eu encarava minha surdez“. Mas são vocês e suas histórias de vida e de enfrentamento que me transformam diariamente numa pessoa melhor. Vocês me fazem perceber coisas que ninguém mais faz, a respeito de mim mesma e, ainda mais importante, a respeito da vida e da nossa missão nesse mundo.

E com vocês aprendi que o significado da palavra família vai muito, mas muito além daquele tradicional que conhecemos. Nós construímos uma grande família, nós nos ajudamos, nós mostramos o caminho para aqueles que estão descobrindo ou encarando sua surdez, nós estamos sempre abertos a compartilhar. Olhem só a grandeza desse compartilhamento: a gente põe alma e coração na mesa, divide nossos maiores medos e anseios sem pudor ou vergonha e ainda tem força para encorajar aqueles que nos procuram. Não é pouca coisa. Estar com centenas de implantados no Cochlear Day me fez perceber isso de forma mais clara.

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Esse sábado que passou serviu para mais uma pequena grande epifania na minha vida: ver com meus próprios olhos a transformação que a tecnologia do implante coclear causou nas vidas de milhares de famílias ao redor do mundo. Vocês já pararam para pensar que caminhamos rumo ao primeiro milhão de implantados no planeta Terra? Um evento com centenas de surdos profundos que OUVEM, quer coisa mais louca e linda do que isso? <3

 

 

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O Crônicas começou em 2010 e até hoje minha ficha não caiu. Talvez tenha caído um pouquinho nesse evento, porque não parei nem um minuto – só o que fiz foi tirar fotos e conversar com cada um de vocês que veio me dar um beijo, um abraço, um sorriso, um carinho. Saí me sentindo mal porque não consegui estar com todo mundo e conversei a jato com muitas pessoas que gostaria de ter ficado horas conversando (hello, Diana!). Mas outras oportunidades virão.

Derrubei muitas lágrimas e não consegui parar de pensar até agora em tudo o que vocês me disseram, especialmente as mães e avós que vieram falar coisas como “no dia de mais desespero da minha vida eu te mandei um email e você me acalmou e me fez ver a luz no fim do túnel“. Putz! Estou sentada na rodoviária de Porto Alegre escrevendo esse post antes de entrar no ônibus para Santa Maria e muitas lágrimas já correram relembrando dos nossos papos.

Vocês são especiais! Vocês são incríveis! Vocês são phodásticos! Vocês me enchem de orgulho e de vontade de continuar escrevendo aqui forever. Obrigada por isso! Lembrei também de algo que o Sr. Claudio Rigamonti me disse no lançamento do segundo livro: “Menina, você não tem noção da responsabilidade que tem!” Ai, ai…Já ta todo mundo aqui me olhando como se eu fosse louca, vou ter que parar.

Obrigada por darem um sentido mais que especial à minha existência. Quando alguém se sente ajudado de alguma forma por mim, saiba que me ajuda 100x mais. Um beijo do tamanho do mundo. E obrigada aos nossos implantes cocleares, pois foram eles que nos uniram.

40 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

9 Comentários

  • Ah, fui só no finalzinho da tarde e perdi. até perguntei as pessoas do evento e disseram que não sabiam nada sobre a venda do livro e da Paula! Mas amei os sorrisos e as fotos e também me senti master feliz lá!
    🙁

  • sim, nomoento de maior desespero de minha vida, você, com seus posts, acalmou meu coração, tirou minhas duvidas e me fez ver que minha filha teria sim uma vida normal. Deus ilumine sempre seu caminho, Paula

  • Emocionante!! Vc é especial!! Merece todo o carinho do mundo! Continue assim, Paula. Inspirando a todos, sou sua fã????

  • Oi Paula,
    Gostei muito de saber sobre você ontem, no jornal o Globo. Gosto demais das pessoas que não estacionam no “vitimismo” e transformam suas dores em combustível para ajudar o próximo. Sou surda do ouvido direito, lesão no ouvido interno, consequência de sarampo aos dez anos, que, felizmente, não afetou o ouvido esquerdo. Ao ler a sua entrevista, percebi que nunca registrei a minha surdez como deficiência, embora tenha me identificado com a frase “a surdez nos isola das pessoas”. Ao longo da vida, via que as minhas “ausências”, principalmente quando estou no meio de muita gente, tinham a ver com o meu temperamento mais sensível, meio sonhador. Aos 63 anos, fiquei feliz por aprender com você uma nova percepção sobre a minha surdez. Valorizo, mais ainda, o fato de eu ter sabido viver (e continuarei vivendo) com alegria por ter um ouvido bom. Conte comigo para apoiá-la no que eu puder. Abraços

  • Eu que o diga!!!!!!!!!!!!! Te vi de longe algumas vezes e queria parar pra conversar, também por horas a fio… Estive com algumas outras pessoas no evento que gostaria de ter papeado longamente e não consegui… Alguns que eu vi de longe e não consegui alcançar pra dar um abraço… Preciso de uns 10 Cochlear Day por ano pra ver se dá tempo… Mas valeu por ter de conhecido e a tantos outros que encontrei naquele dia…

  • Demais! 🙂 Identifiquei-me com tua partilha!

    Tu partilhas conhecimento, ao mesmo tempo que propagas esperança. Assim me sinto no dia-a-dia, atendendo os pacientes. 🙂

    Bj, Paula. 🙂

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