Histórias dos Leitores

O que importa é ouvir

Eu (Paula) uso aparelhos auditivos porque eles me ajudam muito, ou seja, ainda não preciso fazer um Implante Coclear. Porém, se tivesse chegado num ponto em que eles não conseguissem mais me ajudar, não hesitaria em fazer. O importante é ouvir. Não importa como. Essa é a minha opinião. Não vejo motivo para que uma pessoa fique presa no silêncio, se existem opções.

*depoimento de uma leitora

“Este é o depoimento de alguém a favor do implante coclear. Nunca tinha ouvido falar nisso até a surdez chegar lá em casa, há cerca de 6 anos. Foi quando meu irmão mais novo, o Henrique, nasceu. Ele veio antes do tempo, no 7º mês de gestação. Minha mãe permaneceu por 7 horas em trabalho de parto sem dilatação, até que o médico resolvesse fazer uma cesárea. Resultado: o Henrique sofreu um dano no cérebro por falta de oxigenação. Anos depois, o neuropediatra não afirmou, mas insinuou da maneira protecionista que os médicos usam, que o obstetra errou ao fazer minha mãe esperar tanto tempo.  Mas o Henrique veio e passou um mês internado na UTI neo-natal. Como prematuro, meus pais foram avisados de que as medicações que ele recebeu para conseguir viver poderiam causar alguns danos.

Como não é possível mudar os fatos, seguimos adiante. Meus pais realizaram um acompanhamento rigoroso do crescimento do Henrique, até que aos seis meses veio a suspeita da surdez, num teste de rotina realizado pelas fonoaudiólogas. O mundo caiu em cima da cabeça do meu pai, com a confirmação do Bera feito por um otorrino aqui da nossa cidade (Brusque, SC). Este médico por sinal, se limitou a dizer que o Henrique era surdo e só, não havia o que fazer.

Meus pais resolveram ir para um grande centro. Nossos tios de Curitiba se prontificaram a achar o que havia de melhor em otorrinolaringologia na capital paranaense. O resultado do Bera feito lá foi mesmo: surdez bilateral profunda. Mas o médico ofereceu opções e meus pais ouviram falar pela primeira vez do implante coclear. Este médico solicitou o IC para o Henrique em vários centros: USP-SP, Bauru e Campinas.

Não lembro quanto tempo demorou, qual a ordem dos acontecimentos daquela época, sei que foi tudo muito rápido. Meus pais e o Rique foram chamados para entrar na fila do programa de IC da Unicamp. Aos 8 meses ele já tinha viajado para Campinas e fazia fonoterapia com uma profissional experiente no cuidado de implantados aqui de Brusque, a Ívina Bauer.

Depois de usar AASI durante mais de três meses sem ganho auditivo, da avaliação psicológica dos pais, da bateria de exames cumprindo todas as exigências do programa de IC do HC da Unicamp, o Henrique foi submetido à cirurgia de implante coclear. Ele tinha 1 ano e dois meses, foi em outubro de 2005. Um mês mais tarde, meus pais retornaram à Campinas para a ativação: o Henrique começou a ouvir!

Uma coisa que facilitou a minha compreensão do que seria a vida do Henrique a partir daquele momento foi pensar que ele tinha a opção de ouvir. Ele não deixava de ser surdo com o implante. O Henrique é surdo, com as possibilidades ampliadas pelo implante coclear. Sempre que a bateria termina, sempre que vai tomar banho ou dormir, meu irmão retorna ao mundo dos silêncios, em que só pode contar com a visão e com sua habilidade muito apurada de leitura labial.

A maioria das pessoas que vêem o Rique por aí com seus óculos estilosos e a mochilinha acham que ele é um mini nerd, já com mp3. Poucas pessoas percebem o ímã pouco acima da orelha e os fios. Os que percebem ficam olhando ele com curiosidade, muitos como se estivessem diante de um ET. As perguntas mais comuns são: ‘mas ele vai ter que usar isso para sempre?’, ‘não machuca, não dá choque?’.

Sempre não é o jeito certo de dizer. O implante vai ficar com ele sempre que ele quiser e puder ficar. Ele tem limitações, por exemplo, não pode fazer uma ressonância magnética e não pode passar em portas com detectores de metais, por causa do ímã e dos eletrodos. Também deve evitar eletrostática, o que significa ficar longe de piscinas de bolinhas, camas elásticas, brinquedos desses grandes de plásticos, TVs quando são ligadas e desligadas. Para freqüentar a natação, o professor precisa se dedicar um pouco mais ao Henrique, chamando-o com cutucões e fazendo ele observar as instruções de frente.

Mas procuramos fazer com que o Henrique tenha uma vida de criança comum. Ele é mimado, como qualquer caçula, ele brinca, frequenta a escola, ‘faz artes’, tudo normalmente. Não vou negar que durante esses anos de convivência com essa criaturinha doce não tenhamos ouvido comentários grosseiros e ignorantes do tipo ‘ah, então ele é surdo-mudo’, ‘ele é surdo, mas até que ele é bonitinho’. Depois de ver que esquentar a cabeça com esse tipo de gente não leva a nada, encaramos, relevamos e aprendemos que limitado não é o Henrique, e sim, quem se limita ter conceitos pré-estabelecidos.

No ano passado, durante a faculdade, produzi uma webreportagem que explica em detalhes como funciona o implante coclear (Aqui: http://jcientifico.wordpress.com/2010/06/30/audicao-tech-2/ ) e junto com ela, um vídeo com um pouco da rotina do Henrique na época (Aqui: http://www.youtube.com/watch?v=jqe6RiS8TSw&feature=player_embedded ).”

Para quem quiser aprender mais sobre Implante Coclear, indico o blog da Lak Lobato: Desculpe, Não Ouvi.

3 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

7 Comentários

  • Olá Paula,
    Foi muito significante para mim ler suas palavras;
    tenho uma bebê de 4 meses que tambem nasceu pre-
    matura e ficou 42 dias na UTI, num total de 62 dias hospitalizada
    Ontem, ao fazer o teste da orelhinha, como eu já previa, confirmou-
    se a surdez, perdi o chão, e não posso negar a tristeza que sinto, pois
    a Sofia nasceu com sindrome de Down, só isso já dificulta a aprendi-
    zagem, ouvir é mais do que necessário para ela. Bem… Quero dizer
    que relatos como o seu são muito importantes, aumentam a nossa
    esperança de que nossa pequena não vivera num eterno silencio…
    Obrigada, Regina

  • Gostei do coments do Rodrigo, se perdemos temos que correr atrás, tdos fazem isso, se pode prótese que seja.Se LS ok.Oralizado ok tb.Se pode IC vamos lá.No meu caso, foi prótese corri atrás.
    Conheço um homem que não tem alternativa nem protese nem IC(cada caso é um caso né), esta lamentando, chorando..não.
    Ele Vive, trabalha, da aulas, curte o filho e esposa, e caminha.Se ele que, não teve opções esta vivendo e sem autocomiseração, imagine quem tem mais chances?!
    Bjus

  • Olá Paula,

    Sou usuário de Implante Coclear Bilateral da marca australiana Cochlear Corporation. Se o Henrique utiliza esta marca é possível a realização de ressonância magnética – a um nível de até 1.5 Tesla, desde que o imã subcutâneo seja retirado através de uma pequena cirurgia. Após a ressonância, é possível recolocar o imã através de nova microcirurgia.

    Um abraço.

  • “O importante é ouvir. Não importa como. Essa é a minha opinião. Não vejo motivo para que uma pessoa fique presa no silêncio, se existem opções.”

    Oi Paula!

    Embora o foco do post seja o estudo de caso do pequeno Henrique, minha realidade não deixou passar a frase acima, a qual destaquei do primeiro parágrafo do teu texto.

    Tenho um irmão deficiente auditivo (49 anos, oralizado) que perdeu completamente a audição há 3 anos atrás, mais ou menos, depois de muitos anos usando aparelho auditivo. Devido ao temperamento e “caráter diferenciado” dele, ele simplesmente resolveu viver assim, no silêncio.

    Desde então, não move UMA PALHA pra mudar a situação. Sabe o pior de tudo? Ele USA isso como uma justificativa para os eternos problemas dele, seja de relacionamento, seja financeiro, seja de qualquer esfera da vida. É a desculpa padrão que ele usa para fazer algumas coisas e deixar de fazer outras.

    Eu e minha família (mãe e irmãos), gostaríamos muito que ele fosse procurar uma ajuda médica para ao menos TENTAR ouvir novamente através de um IC. Ele simplesmente ignora, dá as costas pra todos.
    Enfim, a história é tão longa quanto aparenta e falar sobre isso daria pra montar um blog… hehehehehe!!

    O que eu gostaria de destacar é que se temos chance e uma mínima oportunidade de reverter uma situação adversa, seja qual for ela, é preciso ao menos TENTARMOS revertê-la! Já não basta termos de matar vários leões por dia por causa da deficiência? =)

    Abraços!

Deixe seu comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.