O que mudou com o Implante Coclear
Crônicas da Surdez Implante Coclear

O que mudou com o Implante Coclear

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Passeando com meus cachorros na rua percebi o que o IC mudou na minha vida. Antes eu sentia demais a sensação de estar presa num quadro, imóvel. Hoje sinto como se fizesse parte de um filme: tudo em movimento, diálogos, faço parte dele, não fico à mercê tentando imaginar o que se passa por perto. Foi como se eu estivesse parada na rua, abrisse um ‘buraco negro’ ao meu lado e alguém me puxasse pra dentro dele, uma espécie de terceira dimensão. Onde há vida, voz, barulhos, gritos e sussurros. Em 75% do tempo, me sinto IN, não OUT. Sinto que faço parte, não que estou de lado sem fazer falta alguma. Caminhar pela rua percebendo tudo o que acontece ao meu redor é tão prazeroso quando ouvir a minha própria voz em detalhes. Esses dias li uma frase no Facebook que dizia: “I don’t do drugs, I’m drugs“. Falei em voz alta e foi tão gostoso ouvir os “d’s” que repeti umas vinte vezes. Lembro dos meus 45 dias de silêncio pós-cirurgia. Fazia o mesmo trajeto sem ouvir nada. Agora, é vento, árvore balançando, crianças conversando, carros passando, chave caindo no chão, dez mil passarinhos, buzinas, latidos, trovões e até pingos de chuva. É bom. Emociona. E te faz perceber que quem conhece os dois mundos (som e silêncio) vai sempre querer som, seja ele qual for, na intensidade que for, pelo tempo que for.  Lembro agora de uma frase do Caio Fernando Abreu que diz exatamente como eu me sentia antes do Implante Coclear:

Há sempre alguma coisa que falta. Guarde isso sem dor, embora, em segredo, doa.

Já não dói mais. 🙂