Crônicas da Surdez Implante Coclear

O que mudou com o Implante Coclear

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Passeando com meus cachorros na rua percebi o que o IC mudou na minha vida. Antes eu sentia demais a sensação de estar presa num quadro, imóvel. Hoje sinto como se fizesse parte de um filme: tudo em movimento, diálogos, faço parte dele, não fico à mercê tentando imaginar o que se passa por perto. Foi como se eu estivesse parada na rua, abrisse um ‘buraco negro’ ao meu lado e alguém me puxasse pra dentro dele, uma espécie de terceira dimensão. Onde há vida, voz, barulhos, gritos e sussurros. Em 75% do tempo, me sinto IN, não OUT. Sinto que faço parte, não que estou de lado sem fazer falta alguma. Caminhar pela rua percebendo tudo o que acontece ao meu redor é tão prazeroso quando ouvir a minha própria voz em detalhes. Esses dias li uma frase no Facebook que dizia: “I don’t do drugs, I’m drugs“. Falei em voz alta e foi tão gostoso ouvir os “d’s” que repeti umas vinte vezes. Lembro dos meus 45 dias de silêncio pós-cirurgia. Fazia o mesmo trajeto sem ouvir nada. Agora, é vento, árvore balançando, crianças conversando, carros passando, chave caindo no chão, dez mil passarinhos, buzinas, latidos, trovões e até pingos de chuva. É bom. Emociona. E te faz perceber que quem conhece os dois mundos (som e silêncio) vai sempre querer som, seja ele qual for, na intensidade que for, pelo tempo que for.  Lembro agora de uma frase do Caio Fernando Abreu que diz exatamente como eu me sentia antes do Implante Coclear:

Há sempre alguma coisa que falta. Guarde isso sem dor, embora, em segredo, doa.

Já não dói mais. 🙂

111 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

10 Comentários

  • Oi voce não me conhece, mas li teu livro e discordo de grande parte do que lá esta escrito. sou mãe de surdo com muito orgulho. Meu filho assim como a maioria dos surdos usa LIBRAS E É COMPLETAMENTE integrado na sociedade. quando tu escreve que surdo se contenta com subemprego eu tenho certeza de uma coisa, que apesar de ser viajada conhecedora de muitas linguas e culturas o teu conhecimento sobre surdez esta devendo.Porque antes de escrever tu deveria ter feito uma pesquisa nas universidades , faculdades particulares, nas escolas estaduais e até mesmo nas grandes empresas. Já que esta ouvindo agora deveria ter escutado o listão da UFSM ONDE NADA MAIS NADA MENOS DO QUE 7 SURDOS FORAM APROVADOS HOJE. ESPERO QUE REALMENTE SEJAS FELIZ COM ESTE IC. MAS LIBRAS TAMBEM LIBERTA DA SOLIDÃO!!!!

    • Parabéns BIXO surdos 2014 – UFSM

      Angelisa Goebel – Terapia Ocupacional
      Lucas Eduardo Carlos Cravo- Engenharia de Computação
      Amanda Benaiter Doss-Publicidade e Propaganda.
      Matheus Soares- Administração Noturno
      Thomaz Severo- Educação Especial.
      Leandro Coronal Pinto Junior- Sistema de Informação
      Felipe Gabriel da Silva – Engenharia Civil. E todos usam LIBRAS

  • “Sinto que faço parte”…vc falou tudo Paula…foi exatamente assim que me senti quando experimentei os aparelhos auditivos pela primeira vez, na loja. É como se o som te puxasse para o aqui e agora…Que bom que tu estás curtindo cada momento! Grande beijo!

  • Fico muito feliz por mais essa conquista. Eu tenho surdez moderada nos dois ouvidos, uso aparelho auditivo, mas o problema é quando à noite os aparelhos são retirados e ouço zumbido, parece que tem um motorzinho, isso me incomoda bastante. Gostaria de saber se o teu zumbido desapareceu com o IC. Bjs, Marivone.

    • Oi, Marivone! Segundo a otorrinolaringologista, isso varia de pessoa pra pessoa. Eu fiz o IC e às vezes o motorzinho, a panela de pressão, aparecem. Mas que bom que vc só ouve o motorzinho quando tira os aparelhos… Deve ter notado que eu, mesmo com o aparelho, tenho de vez em quando estas visitas inconvenientes… Um abraço.

  • Olhos marejados de quem também conhece esta sensação, e viveu entre dois mundos, sim eu sei, por isso prefiro OUVIR sempre que me for possível todos os dias da minha vida. Eu aprendi que nada é impossível, e o quanto o IC nos devolveu a dignidade de podermos viver de verdade e do quanto podemos evoluir sem esperarmos por isso mas no final somos cercadas por uma admiração sem precedentes – em grande parte o IC elevou a minha confiança de enfrentar um país por mim então até hoje desconhecido – por isso – Happy Cyborg!

    Feliz descobertas!

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