Aparelhos Auditivos Histórias dos Leitores

Pai e filho surdos usuários de aparelhos auditivos

“Me chamo Cristina e gostaria de compartilhar com vocês nossas vivências! Esses dois moços lindos da foto são meu marido Dieison e nosso filho Lucas – ambos usam aparelho auditivo bilateral!

Quando conheci o Dieison o fato dele usar aparelho não influenciou em nada, pelo menos não para mim…mas para minha mãe sim! Ela não aceitava e achava que havia algo errado com ele! O Dieison usava um aparelho auditivo apenas, sendo que a necessidade dele é de dois, e esse único era emprestado! Tinha dificuldade na fala! Mas nós fomos nos adaptando e nos informando! Fomos atrás de medicos, e através do SUS, conseguimos os dois aparelhos que ele necessitava!

A vida dele mudou: com a família e os amigos do seu próprio círculo ele era falante. Mas se saíamos com meus amigos ou minha familia ele se calava e tinha vergonha de falar pois falava errado. Quando colocou os dois aparelhos auditivos parece que perdeu o medo, se comunicava melhor, adquiriu confiança, procurou um melhor emprego e conseguiu. Começou a ir na fonoaudióloga, mas não se adaptou, odiava, achava chato, nao fazia os exercícios em casa e parou! Fomos atrás de revistas de carros, construções e futebol para ele ler e assim estimular a fala e isso deu algum resultado!

Após um ano eu engravidei e para nossa surpresa o Lucas também precisou usar aparelho auditivo e com sete meses colocou o aparelhinho! Falando assim parece facil, mas não é! Quando fiz o primeiro teste da orelhinha e ficou a dúvida foi um sentimento que não sei explicar, uma angústia, um medo! Segundo teste, depois BERA e depois a confirmação! Chorei e Dieison me perguntou: “Você não gosta de mim assim?” Não era isso! Era medo, medo dele sofrer preconceito, medo dele nao atingir as minhas metas – isso mesmo minhas metas – medo dele não falar direito, medo, medo, medo!

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Então percebi que de nada iria adiantar, percebi que eu estava tendo um certo preconceito, percebi que as metas eram minhas e que ele deveria ter suas metas e fomos adiante! O Dieison ficou todo orgulhoso porque o Lucas era igualzinho a ele, contava para todo mundo “Vocês acreditam ele vai ter que usar aparelho?“. Mostrava o Lucas como um troféu para os familiares, para os colegas de trabalho, “pessoal olha ele usa aparelho como eu, nem precisa DNA“… E aquilo me emocionava, e lutamos juntos. Então o Lucas precisou ir na fono e não gostava, foi aí que o Dieison começou ir com ele, para incentivá-lo, dizendo que ele era igual ao pai. Foram juntos e aprenderam muitas coisas juntos!

Hoje o Lucas tem 5 anos está se alfabetizando, troca alguns fonemas, mas vai na fono sozinho e não precisa mais do pai, ele sabe que o papai tem que trabalhar! Apredi muito com essa dupla, aprendi que temos que aceitar os problemas para saber lidar com eles, aprendi que usar aparelho nao é problema, existem muitos problemas reais! Aprendi que meu filho tem seu próprio tempo! Aprendi a olhar nos olhos para falar! Aprendi a brincar sem tocar no aparelho “assim ele apita, mãe“. Aprendi a me emocionar com a primeira vez da pronúncia da letra ‘p’, aprendi quue o sorriso fala muito mais, aprendi que um toque fala mais alto que um grito. Essas duas pessoas, esses dois amores só vieram para me ensinar a amar, para sempre!’

96 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

4 Comentários

  • Chorei quando li,Cris que história linda o amor vence qualquer barreira.Muito orgulho de ter vcs como parte da família.Diei e Lucas vocês são vencedores.

  • Meu Deus! Que lindo!! Estou chorando!!! Estou numa fase difícil, pois estou com surdez súbita bilateral direita. Tá muito difícil concentrar, fica tudo muito confuso, sons, pensamentos, atenção, distinguir sons, ser atenta com pessoas, exames…. medos, medos…. E acompanhando este Blog e os depoimentos, tenho sentindo-me mais forte. Não quero mais consultar o Dr. Google, agente pira com tanta informação, na maioria negativas. Então linda família, Parabéns!! Vocês são vitoriosos. Obrigada por tanta energia boa e positiva. Deus os abençoe sempre!!

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