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Por que você deve compartilhar vídeos de pessoas surdas ouvindo pela primeira vez

Por que você deve compartilhar vídeos de pessoas surdas ouvindo pela primeira vez? Em primeiro lugar, você compartilha se quiser. Em segundo lugar, não conheço ninguém que já tenha assistido a um vídeo de ativação de implante coclear ou do primeiro uso de aparelhos auditivos e não tenha se emocionado. Terceiro, porque ao compartilhar, você mostra ao mundo que EXISTE alternativa ao silêncio! Só acho que você não sabia que isso irrita muita gente…

Traduziram para o português um artigo que foi publicado em inglês por um CODA (children of deaf adults, ou seja, o filho ouvinte de pais surdos) cujo título é “Porque você NÃO deve compartilhar aqueles vídeos ‘Pessoa surda escuta pela primeira vez“. Capaz que pra encerrar o ano isso não apareceria na minha timeline, né pessoal? Obrigada à Haike, que me enviou. Baseada no besteirol generalizado que li, não me restou alternativa a não ser escrever um contraponto.

Primeiramente: você que perde seu tempo com esse papo chato de Surdos e surdos, fala com a minha mão. Não tenho paciência alguma pra isso. Você sabe que não existe caps lock mágico na vida, né? Se não sabe, fica a dica! 😉

Segundamente, os vídeos de ativação são lindos e emocionantes, mas é claro que não é assim para a maioria das pessoas. As minhas ativações não envolveram choro, chilique, pausa dramática, nada disso. Tem quem diga que esses vídeos causam expectativas desnecessárias em quem irá passar por isso; eu já acho que eles causam a coragem e a inspiração necessárias para enfrentar uma mudança radical de vida. Cada um, cada qual.

Vou só dar a minha opinião a respeito de pontos do texto.

“Escrever Surdo com um S maiúsculo separa as pessoas que não conseguem ouvir, das pessoas que consideram a surdez uma parte importante de sua identidade cultural e política”

Olha, eu diria que escrever Surdo com S ou com s dá na mesma, só quem vê algum significado nisso é quem sente a surdez como algo superior ou como uma bênção. Para o resto da população, não faz sentido. Como surda profunda que tem a possibilidade de ouvir com dois implantes, não vejo nada de cultural ou político em ser surdo. Minha luta é bem simples: por acessibilidade para TODOS os surdos (língua de sinais não é acessibilidade para surdos oralizados como eu) e pela divulgação CORRETA do que diz respeito à surdez.

“Os vídeos de “pessoa Surda ouve pela primeira vez” não me fazem sorrir. Eles me fazem querer jogar meu computador pela janela”

Nossa, quanto ódio no coração. Faltou à moça que escreveu o texto um pouco de serenidade. Talvez ela não tenha entendido que, embora a tecnologia disponível hoje não seja capaz de ajudar os seus pais, daqui para a frente todas as novas gerações de surdos conhecerão o som. E isso é fantástico! Não conheço a autora do texto, mas duvido muito que se seus pais pudessem ter a chance de ouvir uma música, a voz dela ou o barulho do mar, ela não os incentivaria a tentar. Eu também me sinto mal e lamento muito por todas as pessoas que ainda não são ajudadas pela tecnologia. Mas me sinto em paz e feliz ao pensar que as gerações futuras não precisarão passar por isso.

“Então, o que esses vídeos dizem a uma pessoa Surda que não quer ou não pode ter o implante? Dizem: “Esta outra pessoa já está curada, mas você ficará para sempre quebrada”

Volto ao que disse acima. Deve ser doloroso perceber, enquanto ouvinte, todos os obstáculos que seus pais enfrentaram ao longo da vida em função da surdez. Deve ser doloroso não poder dar a eles a chance de ouvir. Mas isso não invalida o que é possível para quem tem a chance. A vida não é justa, em termos gerais, com nenhum ser humano. Eu posso ouvir, mas inúmeros outros aspectos da minha vida que gostaria de mudar, não tenho como.

“E, embora esses vídeos muitas vezes têm uma momento feliz no final a realidade nem sempre é tão brilhante e perfeita”

E a realidade de quem vive no silêncio absoluto é perfeita? Ou de qualquer pessoa na face da Terra é perfeita? Esses vídeos mostram, de uma maneira poética e emocionante, o início de uma jornada que foi muito desejada e que durará o resto dos dias das pessoas envolvidas.

“A maioria dos médicos aconselha seus pacientes a não deixarem a casa por várias semanas após terem recebido um implante coclear, para que possam se acostumar com todos os tipos de barulhos novos, mais comuns, como a água que sai da torneira ou o vento que bate na janela. A maioria passa por terapia extensiva para lidar com sua perspectiva recém-alterada sobre a vida. Alguns já não se sentem bem-vindos na comunidade Surda ou optam por deixá-lo. Alguns têm problemas ao se relacionar com velhos amigos.”

Aqui, a moça apelou. Feio. Estamos carecas de saber dos casos de pessoas que foram maltratadas pela sua tão querida comunidade surda ao buscar um implante ou aparelho auditivo. Eu mesma estive uma vez num evento, com um integrante bem conhecido desta comunidade, que veio conversar comigo fazendo mil perguntas e animadíssimo sobre o IC, dizendo que tinha vontade de tentar. Quando a intérprete de Libras chegou perto, ele se transformou totalmente: passou a sinalizar, parou de falar e fazia cara feia pra mim. Recebo emails relatando esses casos TODOS os dias!

“Embora os implantes cocleares tenham ajudado algumas pessoas a recuperar quase 100% de audição, alguns usuários relatam que não podem distinguir entre vozes individuais ou que todas as falas são robóticas.”

É o mesmo que dizer que algumas pessoas fazem cirurgia cardíaca e vivem, enquanto outras morrem. Argumento pobre! O resultado varia de pessoa para pessoa e ninguém fala em perfeição!

“É muito mais fácil olhar para um vídeo de 60 segundos e se sentir muito bem sobre si mesmo para compartilhar uma postagem no Facebook do que aprender qualquer coisa significativa sobre as vidas de indivíduos Surdos ao redor do mundo.”

As vidas dos indivíduos surdos que querem ouvir são tão significativas quanto as vidas dos indivíduos surdos que não querem ou não podem sair do silêncio.

Para finalizar: os surdos que fazem uso da tecnologia para voltar a ouvir (seja esse ouvir pouco ou muito) são tão surdos quanto qualquer surdo que não faz uso da tecnologia porque não quer ou não pode. Esse mimimi chato já deu, né?

89 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

3 Comentários

  • Argumentis vazios de quem realmente não sabe absolutamente nada sobre ser Surdo, cultura ou identidade Surda, pois eh Deficiente auditiva e vive em outra realidade cheia de achismos.. Curto algumas coisas escritas por vc, mas realmente dessa vez foi bola fora demais…

    • Mariana, eu sei TUDO sobre ser surda, porque eu sou. Mas tens razão, não sei nada sobre ser Surda com S. Não sou ‘deficiente auditiva’, sou surda profunda bilateral e pouco me importam as denominações politicamente corretas ou acadêmicas. Eu sou o que sou. Não escuto nada quando estou sem implantes mas tenho a chance de ouvir com eles, e isso não me desqualifica como pessoa surda. Abraço,

  • Fantástico! Respeito muito a opinião de quem é contra. Mas se não quer ver algo maravilhoso relacionado ao IC é só parar de seguir tal pessoa. Quem ama o IC e se sente a vontade de compartilhar esses acontecimentos pode estar ajudando muitos outros. Ninguém é obrigado a assistir esses vídeos (ou será que são?) Esses vídeos devem ser compartilhados sim.

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