Aparelhos Auditivos Crônicas da Surdez Deficiência Auditiva

Problemas comuns da surdez: dicas para enfrentá-los

No decorrer da nossa vivência, pensamos ser o único surdo no mundo que enfrenta problemas pessoais de socialização e acessibilidade por causa da surdez. Isso acontece porque não conhecemos pessoas semelhantes a nós, com quem poderíamos compartilhar as nossas experiências e descobrir que temos tantas coisas em comum.

Quando temos a oportunidade de conhecer outros surdos, nos surpreendemos ao descobrir que eles que também sofreram as mesmas coisas, independentemente do grau de surdez, se é leve, moderada, severa ou profunda; se usam AASI, Implante Coclear ou até mesmo nenhum deles; se usa língua de sinais ou língua portuguesa oral.

Problema 1: Interagir com amigos/colegas

Quem vive a falta de audição, sente na pele as dificuldades para socializar com amigos, parentes, colegas de escola ou trabalho. Fazemos um esforço hercúleo para entender o que os outros falam, seja por audição com uso dos aparelhos auditivos ou por leitura labial, ainda mais quando o ambiente envolve muito barulho de pessoas conversando, de veículos passando na região ou música alta; ou quando o ambiente é mal iluminado, dificultando a percepção dos rostos das pessoas para realizar a leitura labial.

Quem nunca saiu com amigos e se sentiu deslocado entre eles ou se sentiu sozinho? Em um ambiente barulhento, não conseguimos entender o que as pessoas conversam com tanta empolgação, um atravessando a conversa do outro, maior zona! Os nossos olhos funcionam como uma partida de um pingue-pongue, não conseguimos olhar para a boca de todos ao mesmo tempo! Também sofremos com a falta de paciência das pessoas. Se perguntamos a alguém do nosso lado o que se passa na conversa tão animada, a resposta que recebemos é “ah, estamos falando de bobagem!”. A surdez nos torna solitários no meio de tantas pessoas. Também nos torna pessoas cansadas de tentar lidar com muita gente ao mesmo tempo, nos levando a desistir de tentar socializar e assim nos isolamos.

Para podermos lidar com essa exclusão social, devemos primeiro entender que o problema não é a nossa pessoa, não somos os culpados por passarmos por isso. Devemos reagir! Como? Fazendo pequenas reuniões, assim conseguimos lidar melhor com poucas pessoas. Tome as rédeas das conversas, puxe os assuntos, dê as opiniões. Fale que quer muito participar das conversas dos seus amigos, demonstre interesse! Faça escândalo, agite os braços para que os outros notem a sua presença na reunião. Os verdadeiros amigos irão te deixar a par do assunto da roda de conversa.

Problema 2: Somos mal educados e esnobamos as pessoas?!

Há momentos em que as pessoas vêm nos cumprimentar ou perguntar alguma coisa, e o que recebem é o vácuo, que julgam ser esnobamento de nossa parte, só porque não ouvimos ou vimos a pessoa tentar interagir conosco. Com isso, essas pessoas acabam ficando ressentidas e acham que somos mal educados! Pior ainda se espalharem que somos pessoas frias e metidas.

Para evitar este tipo de situação, a única maneira é: tornar pública a sua surdez! Quando chegar a um novo ambiente, pode ser de trabalho ou escola, comunique a todos sobre a sua surdez! Assim as pessoas irão entender melhor quando não ouvirem a resposta de sua parte e chamarão a sua atenção para um cumprimento, aviso ou uma pergunta.

Problema 3: Ambiente escolar

Além de enfrentar o problema de socializar com as pessoas, temos também o problema que afeta o nosso rendimento escolar. As salas de aulas são barulhentas: ar condicionado, ventilador, colegas conversando sem parar e professor gritando ou falando baixo!

Também temos professores que não possuem a menor empatia conosco. Explicam a matéria de costas, voltados para a lousa. Falam de trabalhos ou provas e não nos avisam, e quando chega o dia somos pegos de surpresa, sem termos nos preparado! Os professores andam para lá pra cá enquanto dão aula. Alguns chegam a mascar chicletes ou bala, dificultando a leitura labial. Pior ainda é quando o professor resolve ditar a matéria, ao invés de escrever no quadro, isso é impossível para os surdos pois não temos como fazer leitura labial e olhar para o caderno ao mesmo tempo.

Como contornar esses problemas? Peça para se sentar na primeira carteira, pois estando perto do professor melhora a sua qualidade auditiva, se sentar longe fica mais difícil de ouvir devido à distância. Converse sempre com os professores sobre as suas necessidades como um surdo. Pergunte sempre se há provas ou trabalhos, se tem algum cronograma da disciplina.

Você não entendeu a matéria? Está com dificuldades? Peça ao professor para explicar e devore os livros na biblioteca! Pela nossa dificuldade para ouvir durante a aula, devemos estudar em dobro, triplo! Leve os livros relacionados à disciplina e leia durante a aula.

Houveram episódios em que os professores me falaram para xerocar o caderno de anotações do aluno mais caxias da turma, mas o problema é que as anotações são quase sempre muito resumidas, em forma de esquemas e fica parecendo que são um monte de códigos. Por isso prefiro e recomendo a leitura de livros relacionados à disciplina, porque são mais completos.

Você usa tecnologias auditivas como aparelhos auditivos ou Implante Coclear? Neste caso, usar acessórios como sistema FM, Roger Pen, Mini Mic ou similares podem ajudá-lo a melhorar o entendimento nas aulas. São microfones que são colocados na roupa do professor e o som vai direto para o aparelho auditivo, fornecendo uma qualidade melhor do som, mais claro e limpo.

Nós, como alunos, não podemos deixar a peteca cair no ambiente acadêmico! Não podemos esperar que os professores façam algo por nós, os responsáveis somos nós mesmos!

Problema 4: Tenho medo de não conseguir aprender inglês!

Várias vezes aparecem pessoas perguntando se serão capazes de aprenderem novos idiomas estrangeiros mesmo com a surdez. Até parece que não acham que são capazes de tudo. Ficam com medo de enfrentar novos desafios…

Ouvir e entender as pronúncias da fala em língua estrangeira pode ser sim um desafio e tanto, mas a surdez não nos impede de aprender coisas novas. O estudo do idioma não está relacionado somente à audição, mas também à redação e interpretação de textos. Quem não consegue entender a fala, devido ao seu grau de surdez, pode se dedicar à escrita, que é visual!

O ideal é fazer aulas particulares, com o professor só pra você! Ele irá ter todo o tempo para você, explicando sobre as pronúncias, escrevendo no papel como se fala. Tendo um professor só pra você, também será mais fácil tirar as dúvidas sobre a gramática, expressões, gírias e seus significados.

Na minha opinião, o inglês é a língua mais difícil de ser entendida labialmente, pois é falada para dentro e também a pronúncia não possui regra certinha. Os outros idiomas como alemão e italiano possuem regras muito específicas de pronúncia, o que facilita bem no aprendizado e é mais fácil de falar. Não é só você que passa por este problema, todos os outros surdos também passam!

Você pode não saber falar bem, fazer uma boa conversação, mas só de saber ler e escrever uma língua estrangeira já é muita coisa. Se viajar ao exterior, poderá se comunicar por meio de papel e caneta. Isso já é libertador!

Uma vez, estava em Roma e por acaso acabei conhecendo um surdo profundo bilateral em um hotel. Ele queria conversar comigo, abriu o leque de opções de idiomas e me pediu para escolher o idioma para nos conversarmos: inglês, alemão, italiano, sinais de inglês americano, sinais de italiano. Escolhi o italiano falado e nós conversamos longamente por meio da leitura labial, eu e ele! Foi uma experiência incrível!

O limite não está na surdez, mas na sua cabeça!

Problema 5: O aparelho auditivo não é como óculos!

Quando colocamos aparelhos auditivos para ouvirmos melhor, as pessoas à nossa volta esperam que sejam como óculos, só de colocar já escuta tudo e muito bem! Mas na realidade não é bem assim…

Se pedimos para repetirem, eles perguntam: “cadê o seu aparelho?”, “não está usando o aparelho?”, “para que está usando se não entende a fala?”. É preciso respirar fundo, contar até 10. Precisamos entender que isso acontece por desinformação da parte dessas pessoas. Temos que explicar como funciona a nossa audição, o que conseguimos entender, o que não conseguimos.

É preciso colocar de forma clara as nossas limitações auditivas para que os outros entendam, mesmo que minimamente, como funciona a nossa audição com as tecnologias. Este é o nosso papel: fazer com que os surdos que ouvem sejam mais conhecidos dentro da sociedade.

Problema 6: Todo surdo se comunica apenas por sinais!

Quando nos apresentamos a uma pessoa e dizemos que somos surdos, ela se congela, trava, começa a gesticular conosco igual a um bobo, mesmo que estejamos conversando em português oral! Ela também começa a exagerar na mímica facial e falar super devagar igual a uma tartaruga, ou até mesmo, começa a gritar achando que está nos ajudando. Isso acontece porque o mundo acha que um surdo não consegue falar bem a sua língua, que é mudo, ou que tem problemas cognitivos.

Também pode acontecer da pessoa olhar para a nossa cara e dizer: “Me desculpe” e vai embora, nos deixando no vácuo!  Evitam interagir conosco, os surdos.

É super cansativo passar por essas situações, que acontecem também por desinformação deles. Temos de explicar que falamos português, que fazemos leitura labial, e que somos pessoas pensantes e comunicativas como qualquer uma outra; que eles devem falar normal, de forma natural, sem ser muito rápido ou muito devagar. Sabia que falar devagar demais ou gritar distorce o som?

Saiba que você não está sozinho neste mundo com os seus problemas da surdez! Participe da comunidade do Facebook, onde há milhares de surdos iguais a você.  Lá trocamos as experiências da vida, as tristezas e alegrias!

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Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

5 Comentários

  • Tenho dois meninos gêmeos de 6 anos e um deles foi diagnosticado com surdez, moderada, bilateral, ainda estou no inicio de uma longa caminhada… Ele está com aparelho de teste e está muito muito feliz, e eu fiquei muito triste por não ter percebido que ele não ouvia… Mas estamos começando a nos adaptar e estamos muito confiantes.
    O nome do meu filho que tem deficiência auditiva é Roberto Gabriel, ele é lindo, alegre, inteligente, fala tudo, está começando a ler e escrever , e agora com o uso do aparelho ele está ainda mais feliz.

  • Meu nome é Letícia Neves Leite. Tenho 62 anos. Há 5 anos fui diagnosticada com surdez súbita no ouvido esquerdo. Desde então não ouço nada deste ouvido. Alguém igual a mim?

    • Oi Leticia, eu sou Inês tenho 50 anos , no ano passado meu timpano abriu nao sei como fiz a cirurgia timpanoplastia duas vezes no mesmo ano e tbm fiquei sem audição, cronica do ouvido esquerdo.
      Ainda estou fazendo tratamento para usar aparelho so nao qual tipo o medico vai receitar.
      Mais [e dificil no trabalho nas festinhas nao intender o que as pessoas estão falando.
      A gente so ficar falando ( Hemm, Como , Naão intendi…..).

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