Crônicas da Surdez Deficiência Auditiva

É verdade que quem ouve é o cérebro?

Sim, é verdade que é o cérebro quem ouve! O cérebro é o grande maestro da orquestra corporal. Há um emaranhado de nervos pelo corpo todo, por meio dele o cérebro rege a sua orquestra: o sistema nervoso. O sistema nervoso é responsável pelas ações sensoriais de tato, olfato, paladar, visão e audição.

Graças a esse complexo sistema nervoso, podemos sentir com as mãos as texturas dos objetos; podemos sentir com a língua o sabor e textura da comida; podemos identificar tons claros e escuros e as cores com os olhos; podemos também captar os sons, suas nuances e direções do som com os ouvidos.

Como o cérebro ouve?

Na nossa ignorância, achamos que estamos escutando no ouvido por causa da sensação auditiva, mas na verdade é o cérebro que está projetando a sensação do som no ouvido, por meio do nervo auditivo que sai da cóclea.

O som entra pela orelha, passa no duto auditivo, tímpano, martelo, bigorna e por fim chega à cóclea. A cóclea tem o formato de um caracol e é uma importante parte do ouvido. É ela a responsável por captar as vibrações sonoras e converter as informações em sinais elétricos que correm pelo nervo auditivo até o cérebro. Este recebe as informações de cada frequência sonora daquele som captado pela cóclea, monta um quebra-cabeça, dando forma e sentido ao som. A cóclea é a ponte para o cérebro, afinal possui no interior de sua estrutura nervos auditivos emaranhados, ou seja, faz parte do sistema nervoso.

O ouvido não funciona direito, como o cérebro vai ouvir?

Se os estímulos auditivos da cóclea são de baixa qualidade, o cérebro terá dificuldade para dar o tom e forma àquelas informações incompletas que recebe, o que gera um aspecto distorcido do som, causando a sensação de que escutamos, mas não entendemos. O objetivo das tecnologias auditivas, como aparelhos auditivos e implante coclear, é fazer com que o som chegue até a cóclea com mais qualidade e mais completo. Assim o cérebro poderá ouvir melhor!

Uso o aparelho auditivo, ouço, mas não entendo!

Quando começamos a usar um novo aparelho auditivo, podemos estranhar o som tão diferente e acharmos incômodo. Isso acontece porque o cérebro não está acostumado a ouvir daquele jeito e reage com uma estranheza um estímulo tão novo e diferente, precisando reinterpretar aqueles sinais sonoros. Com o passar do tempo, ao insistir no uso do aparelho auditivo ou implante coclear e com treinamento auditivo, o cérebro se adapta e passa a dar um tom mais natural àquele som.

Também é importante ter uma programação do aparelho auditivo muito bem feita e usar a tecnologia adequada para o seu tipo de perda auditiva.

Sinto que a surdez me deixou burro…

Algumas pessoas relatam a impressão de terem um entendimento mais lento, ter raciocínio mais lento por causa da surdez, como se tivesse ficado burra ou mais desatenta.

Na verdade, o que ocorre é que quando você tem a audição comprometida, o cérebro tem que percorrer um caminho mais longo para ter o entendimento. Um ouvinte só precisa ouvir e mais nada. Já um surdo tem que fazer esforço para ouvir + esforço para leitura labial + esforço por dedução linguística para preencher as lacunas. Por isso pode acontecer de demorar um pouco mais para se processar as informações.

Por causa deste imenso esforço cerebral, nós podemos nos cansar com facilidade. É muito importante realizarmos o treinamento de processamento auditivo para melhorar a nossa resposta auditiva. O cérebro é como se fosse um músculo que precisa fazer ginástica para ficar mais forte e esperto.

Um ouvido completa o outro!

Não temos por acaso dois ouvidos! O cérebro usa as informações recebidas dos ouvidos para determinar a direção do som e também ter aspecto 3D dele. Quem escuta somente com um ouvido, terá dificuldade para saber a direção de onde vem aquele som ou terá de realizar um esforço maior para entender as conversas em ambientes barulhentos.

Memória auditiva

Ao longo da vida, um ouvinte aprende a ouvir os sons do mundo e constrói a sua relação com eles. O cérebro guarda estas informações, criando a memória auditiva.

Um adulto, que tenha ficado surdo, tem que usar os aparelhos auditivos para poder preservar a memória auditiva. Se um dia precisar realizar o implante coclear, as chances de ter ganhos no entendimento da parte de fala são maiores, porque o cérebro é muito esperto e se reorganiza usando o que aprendeu a ouvir no passado.

Um surdo de nascença terá mais dificuldade de criar memória auditiva se não usar aparelhos adequados para a sua perda. Por isso a intervenção precoce da criança surda é muito importante por causa da plasticidade cerebral que só existe nesta fase da vida!

Se um adulto surdo, sem memória auditiva, fizer implante coclear tardio, terá de aprender a ouvir o mundo, pois o seu cérebro não sabe como dar forma e sentido aos sons. O treinamento auditivo com um fonoaudiólogo especialista será fundamental para a sua evolução, mas poderá ter limitações. Nesta condição, o conhecimento da língua portuguesa e a habilidade de fala são fundamentais, pois o cérebro usará estas informações para fazer ligações do som da fala, por isso conseguem reconhecer algumas palavras ou frases durante o treino auditivo, sem nunca as ter ouvido antes, ainda que com limitações no entendimento. Esta capacidade cerebral é incrível!

Estimule o seu cerebro a ouvir melhor!

Vamos estimular o nosso cérebro para ouvir cada vez melhor! Como? Usando sempre os aparelhos auditivos e buscando sempre o ajuste perfeito. Se desafie ouvindo músicas diferentes, vá ver filmes no cinema, tente ouvir áudios em outro idioma, converse ao telefone com as pessoas mais queridas! Viva as experiências sonoras e mantenha o cérebro sempre ativo! Faça do seu ouvido a sua ligação com o mundo!

 

* Por Maria de Menicucci

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Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

2 Comentários

  • Caramba! Falou minha vida! nunca sei de onde vem os sons.. fico igual uma retardada procurando a origem. Me sinto muito mais burro que antes, me canso muito mais fácil .. e não me adaptei a aparelho auditivos.

  • Boa tarde !!! Interessante essa postagem. Vejo compartilhada Ana Elisa uma Fonoaudióloga.
    Bons os esclarecimentos

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