Histórias dos Leitores

Relato de uma fonoaudióloga I

 “Oi Paula!

Agradeço a oportunidade de poder falar sobre o assunto sob o ponto de vista da minha profissão: fonoaudióloga. Esse depoimento era uma coisa que queria fazer a tempos e o teu chamado no Crônicas foi um estopim para minha inspiração. Durante os 4 anos de formação e 2 anos de formada, tive contato com os mais diferentes tipos de surdez, surdos e pais de surdos. Para mim, a pior parte de trabalhar com audiologia é contar ao familiar a realidade que ali se apresenta: seu filho tem perda auditiva.

A lembrança mais significativa que tenho também é a mais triste. Um mãe e uma vó chegaram até mim desconfiando que o menino que traziam pela mão não escutava. Ele já estava com 2 anos e 9 meses e não falava uma palavra sequer. Esta mãe procurou ajuda com 1 aninho, com 1 e meio, com 2, e escutou de outros profissionais da saúde que “é assim mesmo, ele é um preguiçoso…” ou então “menininhos demoram mais pra falar mesmo!”. Nenhum destes profissionais pediu um exame de audição sequer. Que mãe maravilhosa esta que não desistiu!

Tentei condicioná-lo para audiometria mas não consegui. Na imitanciometria, ausência de reflexos estapedianos e curva tipo A, o que eu mais temia: orelha externa e média tudo OK, mas a partir da cóclea… Alguma coisa estava errada! Expliquei o por quê daqueles resultado e o que poderia estar acontecendo, expliquei como se processa a audição, respondi a todos os questionamentos que surgiam e o encaminhei para o exame de Emissões Otoacústicas, o teste da orelhinha…  Nunca vou esquecer os olhos vidrados daquela mãe em mim tentando digerir toda a situação. No fundo, ela sabia o que estava acontecendo, mas acho que era mais fácil não saber. A avó se sentiu tão a vontade comigo que tirou da bolsa uma ecografia transvaginal para eu dar uma olhada, ela disse que eu era “dotora”  e iria saber explicar o que tava acontecendo, por que o médico que atendeu só disse que estava tudo bem e a mandou embora… Quantas vezes será que esta senhora ficou sem respostas?? As duas saíram em choque, segurando o choro provavelmente, agradeceram muito minha atenção e disponibilidade, muito mesmo, que até fiquei envergonhada.

Nunca mais encontrei esta família por que me mudei de cidade, mas fiquei sabendo que ele também não passou nas Otoemissões, sendo encaminhado para PEATE (o famoso BERA) e já está em processo de adaptação de AASI. Espero que em um futuro não distante, não tenhamos que passar por este tipo de situação. Com o teste da orelhinha obrigatório (por Lei desde ago/2010), as deficiências auditivas serão detectadas nos primeiros 6 meses de vida e com intervenção otorrino+fonoaudiológica precoce (adaptação de AASI, fonoterapia, implante, etc.), estas crianças ganham a chance de desenvolver a linguagem o mais próximo possível da normalidade.” 

Fonoaudióloga Marina Souto Dalmaso.

18 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

25 Comentários

  • Hoje estou com 37 anos, mas descobri a minha surdez no final da minha gestaçao novembro de 2015 procurei por ajuda e hj estou em acompanhamento na Pucc em Campinas já fiz auduometria, Bera mais nenhum desses exames estao batendo certinho nao sei mais o que fazer eu queria entender porque nao esta batendo os meus exmes se puder me ajudar ficarei muito grata.

  • Tanto a falta do diagnóstico correto (demora em perceber a deficiência auditiva) como também o diagnóstico precipitado (achar que é um problema de surdez, e, na verdade, não é) são perigosos! A intuição de mãe é importante, como também é a segunda opinião médica. No meu caso, meu filho de 4 anos estava com otites recorrentes. Queriam colocar um carretel em seu ouvido. Fui investigar mais. Conheci uma pediatra maravilhosa que fez o diagnóstico correto: o problema era alergia alimentar! Eliminada a causa, cessaram-se todas as otites. Ele hoje tem 10 anos, livre das otites e da alergia alimentar após rigorosa dieta por 4 anos. Cada caso é um caso, mas fica a dica!

  • Estou em estado de choque, descobrimos a algumas semanas a perda auditiva do meu filho de 2 anos e 8 meses, sempre no pediatra falava da falta de sua fala, que estava coçando muito a orelhinha, hj me lembrei das otites, enfim, tomou remédio, mas nada de investigação, a culpa me consome, como viver assim???? agora está usando aparelhos nos dois ouvidos, se adaptando muito bem….

  • Infelizmente tive uma noticia tardia q me deixou um pouco triste o , pois pelo filho tem perda auditiva severa. minha indignação foi q ele nasceu prematuro de 6 meses e recebeu alta da UTI neonatal depois de 2 meses. Quando pedi a pediatra o encaminhado para fazer o teste da orelinha ela falou q nao poderia ser feito pois ja havia passado o tempo de faze-lo pelo SUS entao falei que ela poderia me dar o encaminhamento pois faria o teste particular, mas mesmo assim ela relotou e nao me deu o encaminhamento, no fim da consulta bateu palma perto do ouvido e disse q ele escultava. Hoje foi feito o exame do Bera e otoemissao evocada transiente e foi constado a perda auditiva severa depois de 2 anos e 2 meses, pois ele nao fala. fica aqui minha história para ajudar outras maes.

  • Olá, boa tarde

    Você conhece algum caso de pessoas que ouviam e perderam a audição ou grupo de surdos que estudam ou participam de alguma atividade relacionada a musicalização?

    Eu preciso fazer um trabalho e pensei em focar nessas histórias, de crianças ou adultos que por meio da música conseguiram uma maior integração com os ouvintes.

    Eu posso te enviar um e-mail ou pegar o nome dessas pessoas…
    Aproveitando: O que acha do implante coclear?
    Obrigada e aguardo retorno,
    Rosemeire

  • Eu tenho um neto que estar com 2a e 8m , que ainda não fala nada, já lavamos a varios medicos todos sempre falam; tudo isso ai é da idade é preguiçoso tem criança que fala até com 4 anos etc.Agora levamos a uma fono que pediu para fazer este exame ai BERA, já estou mt nervosa com isso, porque já levei ha tantos médicos e todos sempre acabam dizendo só esperar.Ele baba muito, mais entende tudo que agente fala, pedi tudo, apontando com o dedo ouvi bem, quando chamamos ele logo ele olha presta a atenção em tudo, todos os barulhos ele percebe pedi agua comida etc.Agora seja o que Deus quiser.

  • É infelizmente hoje em dia a médicos e MÉDICOS, passei recentimente por um processo complicado até descobri a perda profunda de audição do meu filho! Bem meu filho teve algumas complicações após o parto devido uma bactéria ( STREPTOCOCUS GALACTIUS) que pegou durante o parto normal prematuro de 8 meses. Ficou internado durante 27 dias na UTI Neonatal sendo tratado com antibióticos fortissímos. Após a saída dele fui direcionada a fazer todos os exames possiveis para certificarmos de que não havia sequelas, e para o nosso alívio todos os exames deram normais ou seja tudo estava bem. Pois bem… durante o desenvolvimento do meu Filho notava algo diferente nele, só aos 9 meses ele começou a engatinhar falei com o Pediantra e dizia ser normal. Comentava com o Pediatra que achava estranho o desenvolvimento dele, pois estava muito lento até meu marido falou que eu estava arrumando problemas pro meu filho, Só com 1 e 9 meses ele foi andar assim mesmo sem equilibrio. Já cansada de ouvir que tudo era normal, quando meu filho fez 2 anos e 3 meses pedi a ele que me encaminhasse a um médico especialista para refarzermos os exames…o Pediatra falou que eu estava exagerando e até disse que era perca de tempo que não tinha nada de errado com meu filho e chegou até me dizer que se meu filho tivesse alguma coisa poderia ter AUTISMO de um grau fraco. Fomos para o Neurologista, quando ele olhou pro meu filho andar ele logo perguntou “ele ouve direitinho” então respondi – essa é nossa dúvida doutor. Então ele me repassou todos os exames que o meu filho já havia feito aos 4 meses de vida. ( BERA, AUDIOMETRIA, ELETROCEFALOGRAMA e encaminhou para fisioterapia e Fono) no exame do BERA constatou a perda profunda da audição. No exame de Audiometria foi confirmado. Fiquei desesperada…tive que sair do emprego…começou aí minha luta no tratamento dele…fui direcionada ao Centro de tratamento DERDIC – (Vila Mariana) no qual todos os exames direcionados a deficiência dele foram feitos e hoje ele está na fila do IMPLANTE COCLEAR, dia 30 de janeiro de 2012 será a primeira entrevista…mais uma vitória. Bem deixo meu relato como prova de que coração de mãe não se engana…acredite no seu coração e na sua intuição mesmo que for constatado exagero mas é melhor pecar pelo exagero do que a falta. A esta altura do campeonato alguém deve está se perguntando e qual foi a reação do pediatra com a descoberta da Perda auditiva? Caros… ele não teve palavras e nem conseguiu me olhar nos olhos…é claro que mudei de Pediatra, não havia mais confiança da minha parte. Obrigado por me ouvirem.

  • Uma fonoaudióloga gasta muito quando se forma, ?
    Tipo pra comprar os aparelhos ?
    ow só compra com um tempo , apos formada
    Pretendo fazer facul pra FONOAUDIOLOGIA
    mas tenho medo, de só poder trabalhar quando
    tiver os aparelhos, pra ter apos se forma, é muito complicado
    pra mim., sou de familia humilde, não ia ter nem tão cedo

  • Infelizmente esse tipo de atendimento ainda é muito comum. As pessoas ignoram os problemas alheios, especialmente se esses não forem visiveis, como é o caso da surdez.

    Acho que uma das coisas mais importantes numa consulta (médica, fonoaudiologica, etc.) é a escuta. O paciente e sua familia trazem-nos sempre dados MUITO importantes para um diagnostico. Pena é que muitos preferem achar que “é normal”, “ele é preguiçoso!”.

    A insistência dela foi otima! Mãe normalmente sempre sabe o que diz… A gente sente la no fundo o que acontece aos nossos pequenos (e muitas vezes grandes) amores.

    Beijo gde pra vc e mais uma vez, parabéns pelo teu blog que faz a gente nem querer ir embora, mesmo que precisemos! rs

  • Fiz um curso de libras, e a minha professora nos alertou sobre o teste da orelhinha principalmente quando a mãe do recém-nascido é surda (neste caso o hospital seria obrigado a fazer o teste totalmente de graça), o grande problema que podemos perceber é que a sociedade esta muito mal informada e boa parte das pessoas que fazem parte da área da saúde não se preocupa com isso. Adorei a sua postagem!

  • Olá!

    Sei o que é passar por tudo isso, encontrar alguns “profissionais” pela frente que não leva muito a sério o problema do paciente. A Deficiência Auditiva, precisa urgente deixar de ser uma deficiência Invisivel. Os profissionais da área tem que fica com a orelha externa, média é a cóclea deles em alerta. Quando ouvir qualquer queixa de uma mãe, alguém da família, ou o próprio paciente há que a algo estranho com relação a audição enviar para fazer exames para descobrir o que está acontecendo. Creio que essa deficiencia deixará de ser invisivel, e o portador da deficiencia terá lucro no seu tratamento e na convivencia com a sociedade.

    BJS

  • Sou estudante de fonoaudiologia e costume ler o blog crônicas da surdez…
    primeiramente parabéns pelo blog.. e infelizmente como a Fga. Marina comentou essa é uma realidade muito triste… falta muito reconhecimento deste grande problema por diversos profissionais da area da saúde e como consequência disso, a surdez acaba sendo diagnosticada muito tarde …

  • Tô de caraaaaaaa!!!Só uma perguntinha pelo SUS o teste da orelhinha, hoje em dia, é de graça não?Em um posto de saúde?!

    Qto ao relato tenho traumas, qdo adoeci com otites fui no Melhor Otorrinolaringologista(não gosto de escrever essa palavra tda..preguiça vai no otorrino mesmo..haha).Voltando, indo no Melhor da minha cidade no, Melhor Reumatologista, tdos, Melhoressss ,considerados “Crânios” do Estado, e me ferrei geral, com os Cabeças de ossos.affffffff.Uó.

    Um falou que eu tinha “Urucuba”???Oi?Resposta para quem não sabe o que o paciente tem, e não tem humildade de perguntar a outros médicos.
    A Uruca dele custou 3 meses de internação perda de audição, tenho horror a alguns jalecos brancos.
    Estou com uma Fonoaudióloga ótima,mas deixo o relato no outro post.Parabéns para essa profissional desse Post.

    Bjo.bjo

  • Bom-dia turma!

    Lendo o relato da Fga. Marina, lembrei-me de um caso de negligência médica pelo qual passei, na distaaaaaaaante época de piá, em que meus “programas de lazer” eram ir a consultórios e clínicas.

    Eu estava com uma forte otite. Na época, eu consultava sempre com uma conhecidíssima autoridade na área de Otorrinolaringologia (meu deus, adoro escrever e pronunciar esta palavra) daqui do RS.

    A quanidade de inflamação era tanta que o médico colocou um dreno no meu ouvido. Depois de medicado e orientado, fui pra casa. Até aí, tudo bem. Consulta vai, consulta vem, testes aqui, exames ali. Passaram se várias semanas, até que um belo dia, numa nova consulta, o infeliz “lembrou” que tinha um dreno no meu ouvido e precisava removê-lo.

    Acreditem vocês… o dreno estava PODRE. Imaginem a cara da minha mãe ao presenciar aquilo. Isso mesmo! Façam cara de nojo, pensem “blaaaargh!” ou se espantem com um “Capaz?! Como pode isso?!” A famosa autoridade simplesmente não consultou minha ficha (sim, ficha de papel… só pra terem uma idéia! rsrsrs!) e deixou o dreno lá dentro do meu ouvido, por dias a fio.

    Enfim, por sorte, nada de grave aconteceu na minha já combalida audição. Mas ficou aquela sensação de total falta de confiança no meu médico (sentimento terrível esse), daquelas que te fazem trocar de profissional e nunca mais voltar no consultório do outro.

    Às vezes eu dou risada das situações adversas, mas desta, em particular, não tem como.

    Um forte quebra-costela pra todos!

    ——
    P.S.: Paula, acabo de mer dar por conta de que este comentário serve tanto de resposta ao post da Fga. Marina, quanto como um relato de uma situação adversa pela qual passei.
    🙂

    • O teu relato vai pro ar amanhã!
      😉
      Que absuuuuuuuuurdo esse médico.
      Passei por isso com um que me dizia que eu tinha um canal que ia abrir quando eu crescesse e aí sim eu iria ouvir direito…UOH!
      Bjão,

  • Paula, obrigada por publicar meu relato. Espero que seja o primeiro de muitos e que inspirem outras fonos e otorrinos a escrever também! Adorei!

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