Deficiência Auditiva Histórias dos Leitores

A saga de um surdo que não é mudo

‘Estamos numa aula de inglês em curso patrocinado pela antiga Companhia Vale do Rio Doce, idos de 1975, na Avenida Getúlio Vargas, em Belo Horizonte. Trata-se de um etapa necessária ao trabalho funcional no Departamento de Comunicação Social. A professora Laura me pede para ler um texto de duas linhas na língua anglo-saxônica e me esbarro no pronome “she” (ela), que pronuncio como se fosse “si” e o certo é “xi”. Laura dá um berro e diz “é xixi, burro!”  Nada mais a fazer, saio de fininho da sala e vou, embalado, a pé, pela Avenida Afonso Pena acima, em direção ao bairro Anchieta. Lá toco a campainha em uma casa da Rua Odilon Braga. Porta aberta, me recebe, já noite, o Tio Godofredo.

Depois de recebido, um copo de água oferecido pela Tia Santa Nícia, isolamo-nos numa sala. Ele me prega, carinhosamente mas com firmeza, o sermão de que mais precisei naquele instante, depois do “burro” cruel e indispensável da professora do Number One. Obriga-me a pernoitar em sua casa, levantamo-nos cedo no dia seguinte e partimos para o otorrino Airton Rosemberg, que me crava outro sermão: “Você é o maior surdo que já entrou aqui na minha sala! Faz curso superior? Tenta aprender inglês? Ah, você é um herói também! Como falar se não ouve?” E pronto, em uma semana já estava com dois aparelhos auditivos embutidos numa haste de óculos. E concluí o curso de inglês com os abraços, desculpas e lágrimas da professora Laura não sei de quê.

A partir daquela época, comecei a recordar os meus anteriores anos de vida. Em criança, adolescente e jovem não aceitava que me taxassem de surdo de jeito nenhum. Inventava mil desculpas — “concentrado noutro problema”, “distraído”, “desleixado”, “desmazelado” etc. — tudo de ruim, menos surdo. Quase todas as minhas brigas na escola, em idades diferentes, eram pelo motivo mais besta do mundo: uma resposta aos que me qualificavam de portador de mouquice. Certa vez, um colega me chamou de “Tiú”. Arrasou-me de vez. Mais tarde, li aquela história do Geraldo Sebastião Magela Dias, o humorista do “Ceguinho é a Mãe” e pensei que essa teria sido a melhor resposta — Tiú é a Mãe! — mas desconhecia a réplica do Ceguinho.

Houve outras passagens incríveis em minha vida, as quais tentei superar. Certa vez um padre de missões em minha terra, eu coroinha, com 9 anos de idade, me chamou de tolo aos berros, no altar, hora da missa, porque não lhe servia vinho em quantidade suficiente à sua gula. Saí da igreja aos prantos íntimos e engolidos, sem alguém perceber. Na escola, em todas as etapas, do primário ao superior, tornava-me vítima indefesa quando não dava para assentar-me na frente e ouvir de perto o professor. Na terceira série do Ginásio São Francisco, em Conceição do Mato Dentro, quase levei bomba com notas inconcebíveis para meus esforços. Na CVRD, em Itabira, já adulto, era caçoado por amigos de formas as mais humilhantes. Lembro-me de que um vendedor de roupas me procurou no Cauê, onde trabalhava. Ao perguntar a outros funcionários quem era José Sana, disseram-lhe o seguinte: “É aquele ali, de óculos, com uma tabuleta nas mãos. Mas chegue perto dele e grite pra valer porque ele não ouve nem barulho de trator de esteira”. E ocorreu  aquele vexame que, sempre, tinha que aguentar calado e de cabeça baixa. Um vendedor desconhecido fez de mim, ao invés de ser humano, uma porteira. Acreditam que ainda comprei roupas do desaforado?

O constrangimento que fica mais caro para o surdo é ser marginalizado, e isso não tem preço que ressarça. Reparo bem que, quando as pessoas veem os meus aparelhos auditivos, preferem conversar com outro qualquer, mandando-me, às vezes, recados como se eu estivesse ausente. Outras facetas machucam ainda mais, como numa reunião, ou confraternização, ou bate-papo, quando adotam um procedimento discriminatório:  falam sempre em voz baixa quando ao sentirem  que não devo saber do assunto tratado ou aos berros (verdade, aos gritos) se precisam que lhes dê uma resposta. E como empurram, cutucam, dão tapas, pegam e repegam! Haja paciência! Não me digam que não sou pacífico!

E volto a afirmar que foram, primeiramente, 30 anos de tortura vividos no mais esforçado jeito de comportamento do ser humano. Minha mãe diz que aprendi a falar as primeiras palavras aos oito meses. Sinceramente, acho que é “corujice” dela, porque me recordo das mais tenras épocas quando as professoras diziam a mim: “Você não ouviu nada, né menino? O que foi mesmo que eu acabei de falar?” Coitado de mim, ouvia as metades e jogava na sorte, inventava frases e tentava escorregar de todas as maneiras possíveis para não assumir a surdez.

Sobrevivi, apesar de tudo. Mesmo na adolescência quando tive, por exemplo, que me sucumbir a um festival de “coques na cabeça” que um diretor de colégio me aplicou ao me ver distante da sala de aula, por não ter ouvido o tilintar do sino. Pensei que tivesse cassado irremediavelmente o resto de minha parca inteligência com tantas pancadas na cabeça. Contudo, vivi inesquecíveis momentos nos quais me saí bem por ser mouco. Por exemplo, no meu casamento, o padre, que era holandês e não falava sequer meia palavra em português, me permitiu bancar o bobo-alegre. Toda vez que ele se dirigia a mim e dizia alguma coisa eu gesticulava com um “sim”. Desta forma, na cerimônia., disse pelo menos uns vinte “sins”. E no fim, deu tudo certo, já que o sim sempre triunfa nesses momentos.

Depois de três décadas de vida no mais silencioso mundo da surdez quase total, passei a usar próteses e encarei o desafio de estudar outros idiomas. Dez meses de Francês com o Padre Dickens Remi, natural do Haiti, e uma viagem de trabalho à França, em seguida o enfrentamento de uma pendência quase infinita, o Inglês, na Wizard. Sempre encorajado pelo jovem professor Vinícius Lara e pela coordenadora Ester, atingi  praticamente o fim do curso. Mas, o destino emperrou o processo, fazendo-me chegar diante de duas opções agora: ou vou para o implante coclear, ou desisto do longo caminho já traçado. Na vida é sempre assim, as encruzilhadas são frequentes e inevitáveis. Desistir é como fracassar de vez e isso não pode acontecer.

Concluindo, sou grato ao apoio da família e, principalmente, da companheira Marlete, que balança, é claro, com a minha decisão a esta altura do campeonato, mas entende meu ponto de vista e o respeita. Os filhos, a mesma situação, além de tanta gente amiga, não se esquecendo da fonoaudióloga brasileira, que mora e atua em Londres, Carolina Leal e a ex-surda Paula Pfeifer, gaúcha e hoje morando no Rio de Janeiro.

Finalizando, ainda resta um desabafo e uma justificativa: Tiú é a mãe!  Com um especial e inusitado agradecimento: obrigado a quem pensou que me humilhava e fez o contrário, me ajudou! Justificando: ser surdo não é tão simples quanto quem ouve bem pensa. Até mais!’

José Sana (que está pensando seriamente em fazer um implante coclear) 🙂

74 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

14 Comentários

  • Nossa muito bom seu relato… parabéns pela força e a coragem qe teve até chegar aqui. Não é nada fácil. A vida de um deficiente auditivo… as pessoas não entendem debocham enfim… parabéns

  • José. Parabéns pela sua garra e persistência. Continue assim! Isso é fato de que ocorre com a maioria das pessoas.

    Teve uma parte da matéria que me deixou encabulada e com dúvidas. Pois afinal farei a minha cirurgia do IC. Não vejo a hora. Está parte cita que Paula é ex-surda. Fiquei intrigada. Será que deixa da surdez?

    Um forte abraço!

  • Linda história. Como sempre me emociono com estes relatos aqui escritos. Algumas passagem me identifiquei. Boa sorte!!

  • Ser surdo nao e tao simples….realmente as pessoas que ouvem nao fazem ideia da dificuldade. E a gente nem pode surtar..Parabéns e boa sorte..Vc realmente é um heroi…abs

  • Parabéns pelo belo texto José, muito bom… As vezes pensamos que já vimos e passamos por tudo mais não…
    Vai atrás do seu IC sim, o sr não vai se arrepender, fiz bilateral a cirurgia foi bem tranquila apesar de te durado 6hs, agora estou esperando a ativação…
    Deus abençoe sua escolha…

  • Com a publicação de meus textos não busco reconhecimento literário e quanto menos vantagem alguma. O meu único objetivo é quebrar o tabu de que o surdo não tem defeito, mas, sim, deficiência corrigível.

    Agradeço à Paula Pffeifer pela transcrição do meu texto que está também em crônicas da DeFato Oline, de Itabira, MG

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