Audiometria feita dia 02/05/2014 na Clínica Lavinsky
Uma das coisas que mais mudou foi a minha relação com a minha casa, porque agora capto cada mísero barulho do ambiente. Se estou no quarto, ouço o som do gato chinês movido a pilha que fica balançando o braço e o tic tac do relógio da cozinha. Se estou no quarto do meu irmão, ouço toda e qualquer movimentação de quem vai ao banheiro ao lado. Se fecho a porta, continuo ouvindo o que acontece na casa inteira. Se fecho a janela, ouço os grilos e outros insetos barulhentos que estão na grama do prédio, já que moro no térreo. Se alguém toca no interfone, atendo. Aliás, ouço o interfone e a campainha de qualquer cômodo. Se estou no banheiro consigo identificar de qual cachorro é o choramingo que vem da área de serviço. Carros e motos passando o tempo todo, acho que nem preciso comentar.
Noite passada fiz um teste: dormir algumas horas com implante coclear e acordar com o despertador do iPhone. Acordei às 05:30 com um som estranho que demorei uns dez segundos até identificar: era o caminhão do lixo recolhendo o container. Lá pelas 06:00, começou uma cantoria desgramada de passarinhos. Me pergunto como as pessoas que dormem todos os dias ouvindo essas coisas conseguem, de fato, dormir. Desperto até com a minha respiração. Gostaria de me acostumar a dormir de implante, de teimosa. Afinal, os ouvintes adorariam ter um botãozinho de ‘desligar’ à noite para dormir o sono dos justos. Buenas, eu tenho. Devia aproveitar mais isso.
E o bloqueio continua: falar com outras pessoas ao telefone que não sejam minha mãe e o Luciano. O engraçado é que sei que consigo, mas travo e fujo disso como o diabo da cruz. Estávamos em Porto Alegre num final de semana, e o Lu disse ‘liga pra recepção e pergunta que até que horas vai o café da manhã’. Peguei o telefone, ouvi o sinal, que era bem alto, e…froxei. Espero trabalhar isso no próximo mês, marcando consultas médicas, ligando pro 0800 da operadora, atendendo telefonemas aleatórios. Comentário da mãe dia desses: ‘Quando tu me liga fico olhando para a tela do celular e ainda penso como assim a Paula me ligando?’. Comentário do Lu esses dias: ‘Você tá muito metida ao telefone!’.
Amor verdadeiro, amor eterno: o cabo de áudio do Nucleus 5. Visitei o Dr. Lavinsky dia 02/05 e tive consulta com a fono Adriana Laybauer. Não mexemos na programação feita no Rio de Janeiro pela Márcia Cavadas, mas adicionamos a opção de ouvir música através do cabo cancelando todos os outros sons. Acabei descobrindo que isso é apenas o máximo para falar ao telefone, porque cancela tudo e traz somente a voz – posso falar no celular em paz no ambiente mais ruidoso que existir sem problema algum. É diferente ouvir música com o IC, porque agora a voz vem quase perfeita; levo cada susto ao entender partes de músicas que não conhecia!! Mas percebo de um modo muito nítido as partes que perco com o IC das músicas que eu ouvia mil vezes com AASI antes da cirurgia. O engraçado é que antes, eu queria ouvir as vozes e entender, agora que sou capaz disso, sinto falta de alguns instrumentos que ‘sumiram’ pra mim. O cérebro é meio FDP, nunca se contenta com o que tem. Embora isso seja ótimo.
Decidi não fazer o segundo IC agora. Vou esperar mais tempo. Foi uma decisão pessoal baseada no meu excelente quadro clínico, no fato de não querer passar por tudo de novo tão rapidamente (cirurgia, recuperação, zumbido serra elétrica, etc) e na vontade de levar a reabilitação mais a sério. A única coisa que me faria mudar de idéia e operar hoje seria a garantia de exterminar o zumbido do ouvido esquerdo mas, como é impossível dar qualquer tipo de garantia quanto a algo assim, vou adiar o segundo IC por enquanto. Meu paladar do lado operado ainda não voltou, e sinto minha língua mais ‘calma’ nas últimas semanas – embora eu não possa chegar perto de cebola porque, se comer, a língua fica esquisitíssima por três dias, no mínimo. Bizarro!!!
Aos poucos vou me adaptando à nova ‘normalidade’. Peguei uma mania feia: basta a pessoa não entender ou pedir pra repetir algo duas vezes e já começo a perguntar ‘Você não acha que está ouvindo mal?’. E com isso percebi que, nos meus tempos de AASI, eu exigia uma paciência monumental de todos os que conviviam comigo e aiiii de quem se mostrasse um pouquinho insensível. Agora que escuto (até demais), notei que não tenho com eles a paciência que me ofereciam e me sinto mal por isso, ao mesmo tempo em que compreendo de um jeito mais profundo as pessoas que ouvem. Meu cérebro ouvinte é impaciente. Meu coração ouvinte é uma manteiga derretida cafona. Minha alma ouvinte sente uma gratidão indescritível todos os dias quando ligo meu IC.
Conversando com o Luciano, que é otorrinolaringologista (já ‘encomendei’ a ele um post gigantesco explicando todos os passos do implante coclear), não consigo esquecer do comentário que fez depois de me ouvir reclamar de trocentos barulhos que me irritam de um jeito ou de outro: “Você pensava que a vida de ouvinte era fácil, hein?”. Começo a pensar que se todas as pessoas fossem surdas, não haveria remédio para controlar o humor, a ansiedade, a irritação. Até que faz algum sentido. 🙂
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