Histórias dos Leitores

Sobre as dificuldades que enfrentamos na família, parte I

Eu sei que o post é para falar das inúmeras dificuldades que enfrentamos dentro das nossas próprias famílias, mas vou começar publicando o relato de uma leitora muito fofa que me enviou seu depoimento 10 minutos depois que publiquei um post sobre relacionamentos amorosos – e ela fala sobre o quanto a mãe dela foi incrível. Confiram!

“Oi Paulinha!
Como você está? No mínimo feliz com o sucesso do blog, né? E eu estou feliz por você. Se já sentia você uma amiga próxima só com o Sweetest, agora com o Crônicas então… 🙂

É muito legal contar a sua história e ver muita gente na mesma situação.
Você já me sugeriu que mandasse minha história uma vez, mas como escuto bem de um ouvido, achei que não fosse necessário, que meu problema era “menor” e que as pessoas com algo mais grave pudessem achar que eu estava reclamando de barriga cheia. Sei que você quer montar uma sessão com as dificuldades dos surdos com a família, mas quero fazer o contrário, se me permite.

Quando era criança, minha mãe reparou que eu só atendia o telefone de um lado, me virava para conversar com as pessoas e até mesmo reclamava com ela porque não escutava. Ela achou que fosse coisa de criança, ciúmes da minha irmã mais nova, ou necessidade de atenção, sei lá. Mas como as reclamações ficaram constantes e ela realmente percebia alguma coisa errada,  me levou ao otorrinolaringologista. No consultório, ao receber o diagnóstico de dano no nervo no ouvido direito, minha mãe caiu no choro, na frente do médico. Eu tinha 6 ou 7 anos, não era nada que me abalasse muito. Como no meu caso não dava pra usar aparelho, e eu não entendia muito, minha mãe se empenhou para preservar meu outro ouvido. Nunca incentivou fones ( e eu mesma nunca gostei de usar, fico tonta), me levava para audiometrias anuais, me fazia sentar na frente na escola.

Nunca sofri preconceito. Se estou andando na rua conversando com alguém e essa pessoa de repente fica do lado que não escuto, desenvolvi uma habilidade estranha de praticamente pular para o outro lado – e todo mundo achava isso estranho. Quando a estranheza é demais, me sinto na obrigação de revelar: “Sou surda.” Odeio quando me gritam. Não tenho noção de que lado vem o som e fico rodando, procurando um rosto conhecido. Isso já gerou alguns desconfortos, tem gente que ri, tem gente que vem com grosseria e quando falo que sou surda, fazem uma cara de espanto, uns não acreditam, poucos pedem desculpa. Mas não ligo não.

Meu namorado é músico. Namoramos há 6 anos e meio e ele tem paciência de repetir, nunca foi rude comigo em relação a isso. Mas ele me diz que nunca vou ouvir uma música como ele ouve e fala vários termos musicais que na verdade não me importam. Pelo menos eu ouço. O que  quero dizer, na verdade, não é sobre preconceito, problemas, dificuldades.

 Pelo contrário. É da pessoa incrível que minha mãe foi, por ter conversado comigo e me feito entender que eu era uma pessoa normal. Por isso nunca tive problemas com isso. Meu pai me deu muita força também, sempre muito paciente, mas a minha mãe foi mais importante nesse sentido. Minha irmã também, meu namorado, e até todo mundo da minha (grande) família; que nunca olharam para mim com pena, me ensinando a não ter vergonha e a me aceitar.

E isso foi muito importante pra minha formação.  Sei que há muitos casos mais graves e com um desenrolar mais complicado. Minha mãe mesmo, que hoje é professora de LIBRAS, conta várias histórias tristes. Mas  só tenho a agradecê-los.

Enfim, Paulinha, é isso.
Espero poder contribuir sempre com você, ao que estiver ao meu alcance.
Beijo grande! ”

** refaço o convite, pessoal. Quem tiver histórias de dificuldades dentro da sua própria família, envie-as. A melhor parte deste blog é a nossa troca de experiências.

5 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

3 Comentários

  • Minha mãe…
    Sem ela não sei como teria sido.
    Ela é verdadeiramente minha heroína.
    Foi a única pessoa que ficou do meu lado, o resto “todos” foram embora.

    Eu sou/era musicista.
    Nossa! Amava o que fazia. Chego a encher os olhos d’água só de falar nisso.
    Sabe aquele sonho que acompanha vc desde a sua infância?
    Pronto! Eu e minha irmã nascemos com o mesmo dom musical.
    Nunca fizemos nenhuma aula relacionada a música, mas sabe quando vc já nasce com aquilo?
    Depois de tantos anos de batalha, gravamos nosso primeiro CD. Inclusive sou compositora tb, todas as musicas do Cd são nossas.
    Anos ralando, fazendo desde showzinhos em restaurantes, festas, a shows grande, com banda.
    E quando tudo estava começando a ir bem…
    Eu faço a bendita cirurgia do meu ouvido, que não deu certo!

    Hoje não posso mais trabalhar com música,
    A coisa que mais amooo e na minha opinião a única coisa que sei fazer bem.
    Tem noção de como me sinto?
    Ainda estou meio que perdida. Só tem 11 meses que fiz a cirurgia.
    Não sei o que irei fazer da minha vida ainda.
    Até faculdade de música eu ia fazer.

    Minha mãe tem sido o sustento da minha vida!
    Sem ela não sei o que seria de mim nesse momento.
    Ela que tem me sustentado, me cuidado como ninguém nunca fará por mim!

    Ela é quem chora junto cmg, quem me acompanha nas consultas, na terapia auditiva..
    semana passada, qnd a fono nos disse que eu nunca mais iria ouvir pelo OE. pq a cirurgia não deu certo, ela chorou muiito na sala. Fiquei pensando: como pode alguém amar tanto assim?
    Nem meu pai, nem minha irmã, nem ngm tem sido pra mim o que minha mãe é!

    Por eu não estar mais tocando, não tô ganhando mais grana, e é a minha mãe que compra aparelho, paga consulta, enfim, ta se desfazendo de tudo o que tem pra cuidar de mim.
    As vezes, acho que tudo isso aconteceu para que eu desse o devido valor a ela “minha mãe”.
    E visse que aquele monte de gente que vivia ao meu redor se dizendo meus “amigos” eram na verdade pessoas falsas e aproveitadoras.
    Enquanto eu tinha minha carreira, minha grana, minha saúde.. eu era “a melhor amiga”, depois que adoeci… Pergunta quantas pessoas vieram me ver?
    pergunta quantas perguntam se estou melhor?
    NENHUMA! te juro, não restou ninguém.

    E ela tava ali, segurando a minha mão…
    levando comida na cama pra mim, me dando banho..
    Minha mãe!
    Não sei como agradecer a Deus por ter me dado alguém tão especial!

    Um conselho que dou aqui, é que Nunca troquem ninguém pelas suas mães.
    Elas são enviadas por Deus! Acreditem! Ngm nos ama mais do que elas!

    Mãe! Aqui faço a minha homenagem pra senhora!
    Nunca vou esquecer o que tens feito por mim!
    Nunca vou em palavras dizer-te o quanto te amo!
    Obrigado por tudo!
    Te amo, mãe! ?
    #Prasempre

  • Oi anônima, creio que existam muitos casos como o seu, como o da Samara acima e o meu. Acredito eu, que muitas pessoas assim como nós não ouvimos de um ouvido e mesmo assim são consideradas”normais” porém passamos por alguns apertos também e adquirimos estas habilidades como vc mencionou de pular pro lado.

  • Nossa, sabe que esse post podia ser meu de alguma forma!

    Pq eu tenho perda audidita nos dois ouvidos, mas em um é super leve (nem se percebe) e no outro é severa… E tb descobri isso lá pros meus 6, 7 anos, depois que tive meningite.

    Essa coisa de ouvir bem só de um lado pode complicar sabe, tudo isso que ela disse eu passo de não saber de onde vem o som e girar a cabeça pra falar… mas com o aparelho (que no me ucaso dá pra usar) melhorou um pouco!

    Aihhh super fiquei com vontade de ser amiga hahaha

    bjus

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