Ícone do site Crônicas da Surdez – Surdos Que Ouvem – por Paula Pfeifer

Sobre a minha voz de surdo

Confesso que nunca parei pra prestar atenção à minha voz de surdo. Para mim, ela é normal, dentro do possível. Nunca fiz fonoterapia. Esses dias, publiquei dois vídeos lá no meu outro blog, o Sweetest Person, e fiquei meio chocada com alguns comments odiosos que recebi – e obviamente não aprovei, porque eram ofensas. Pessoas falando que minha voz era horrível, isso e aquilo. Que maldade!

Eis o tal do vídeo:

Pedi para a fonoaudióloga Michele Vargas Garcia escrever um pouco sobre o assunto. A Michele tem conhecimento de causa pois participou ativamente da minha adaptação às próteses auditivas e conhece bem a minha voz:

Sobre a minha voz de surdo

O indivíduo com deficiência auditiva tem grande possibilidade de apresentar desvios do padrão normal de voz. Isso vai ter relação direta com o grau e tipo da perda auditiva. A voz do deficiente auditivo tende a ser mais nasalada (com foco de ressonância no nariz) devido a redução do feedback (da percepção) da própria voz. Isso faz com que a voz fique mais grave (grossa), menos aguda (fina). A qualidade vocal que pode apresentar características como soprosidade, a articulação pode ser imprecisa, a intensidade, ritmo e entonação podem ser inadequados devido à dificuldade de controlar tudo isso, por não se ouvir com precisão. A voz da pessoa com perda de audição fica mais grave, ” parece que sai pelo nariz”.

A voz da Paula seria mais fina e mais aguda se ela não tivesse perda auditiva. A voz fica menos feminina, parecendo um pouco mais agressiva e com menos entonação. A voz da Paula é muito boa pensando no grau e no tempo de perda auditiva que ela possui. Se fôssemos levar em conta o tempo da perda, ela teria muito mais dificuldade articulatória.

Muitas leitoras comentaram que imaginavam minha voz completamente diferente, fininha e mansinha. E aí descubro que tenho a voz do Cid Moreira. Pelamordedeuss!! (pausa para me imaginar apresentando o Jornal Nacional, ou seria o Fantástico?)  🙂

Acho que esse episódio ilustra bem o fato da surdez ser uma deficiência invisível. As pessoas te olham, não vêem nada de errado e presumem que você seja ‘normal’ (aspas porque normal é o conceito mais inútil que existe, creio eu). O impacto social da surdez é que deixa qualquer deficiente auditivo em pânico. Os ‘normais’ se sentem desconfortáveis ao perceber os ‘diferentes’ e os detalhes que os tornam diferentes.

A gente se esforçando para tentar ouvir a própria voz e poder falar, e os outros incomodados com a beleza ou com a feiúra da nossa voz. É por essas e outras que acredito que só dá para ser feliz sendo surdo se você aprende a não levar tudo isso para o lado pessoal. Minha voz é estranha, and so what? Não tenho a voz da Celine Dion ou de alguma atriz delicadinha, vou perder o sono com isso?? Não. Meu foco é sempre no positivo.

Porém, sou de carne e osso. Fiquei bem chocada com algumas grosserias. Inclusive saí perguntando para todas as pessoas próximas se minha voz era tão terrível assim. Até comecei a considerar fazer algumas sessões de fonoterapia para ver como é e se me ajudaria de alguma maneira.

Não sou o tipo de pessoa ‘diferente’ que pára a sua vida na tentativa desesperada de se encaixar e agradar os ‘normais’. Isso, de jeito nenhum. Mas me intriguei com o assunto e vou tentar descobrir o que a fonoterapia poderia fazer de bom por mim. Só para constar, minha voz não me incomoda e nem incomoda as pessoas que convivem comigo.

Se alguém se interessar, encontrei um link muito educativo: “Esclarecendo mitos sobre a deficiência auditiva”.

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