Histórias dos Leitores

Sobre relacionamentos, parte III

*depoimento de uma leitora

“Primeiro, vou escrever um brevíssimo resumo da minha vida. Nasci com surdez moderada no OE e surdez severa a profunda no OD. Usava aparelhos e parei de usá-los quase 8 anos depois – eu tinha 14 anos e não me dava bem com eles durante essa época. Eram extremamente desconfortáveis e não era vaidade minha coisa nenhuma; meus pais diziam que eu tinha vergonha de usá-los. Aos 18 anos, voltei a usar um no OE, já que no OD não ajudava, mas não deu outra, deixei de usar poucos meses depois. Os sons do aparelho ainda me incomodavam bastante… Passei um bom tempo sem aparelhos, e conseguia até me virar bem, mas ainda assim precisava de um plus. Aos 22 anos, tive surdez repentina que até hoje (tenho 24 anos) os médicos não conseguem identificar a causa, meu OE piorou bastante e no ano passado voltei a usar aparelho com uma certa desesperança. Porém, era um aparelho diferente, digital, bem moderno e, imediatamente, me dei bem com ele e desde então não o deixo de lado; mesmo que não seja  suficiente para mim (pretendo ser implantada, se possível, esse ano). Sou a única surda da família e no meu círculo de amizade todos são ouvintes (e graças à internet, encontrei fóruns, blogs de deficientes auditivos). Sou uma pessoa bem introvertida com desconhecidos, muita gente pensa que sou chata, antipática e afins. Eu ficava triste com isso, mas depois comecei a não me importar mais. Com meus amigos, sou bem extrovertida, mas em um grupo de conversas, às vezes fico como um peixe fora d’água – mas sou bem tranqüila com relação a isso.

Sempre namorei ouvintes, não tive muitas chateações a respeito da minha surdez, talvez por não ter tido namoros longos… Conversava ao telefone normal (antes da minha audição piorar) apesar de detestar, prefiro ao vivo. Paquerava na internet também, era mais fácil para mim! E hoje, namoro um cara maravilhoso, há 7 anos! Sou apaixonada por ele e muito grata por ele existir. E foi só e somente com ele que eu tive algumas chateações. Por exemplo, ele não conseguia entender porque eu não me entrosava com a turma dele. Achava que era a coisa mais simples do mundo, que era apenas abrir a boca. Eu explicava, explicava e ele não via como isso era difícil para mim, acompanhar as conversas das pessoas. Já deixou de ir às peças, ver filmes nacionais, por minha causa -o que não me agrada, apesar de ser muito fofo. Claro que agora ele já desencanou disso. 🙂

A gente espera um filme nacional lançar em DVD, para que eu possa finalmente assistir com legenda. Ficou indignado quando viu que alguns DVDs brasileiros não tinham legenda, e mandava e-mails reclamando. Mas realmente, é um grande absurdo isso. Ele corrigia os meus erros léxicos, me ajudou a pronunciar melhor o x, s e z – eu tinha uma grande dificuldade. Falava “aRtrás” e não sabia até ele me corrigir, fiquei chocada! E ainda demorei a falar corretamente “atrás”. “Varrei”, “escovi”, são alguns outros exemplos. São erros de conjugação, eu sei, mas eu falava assim! Quando pequena então, eram milhões de erros. Tem paciência comigo, principalmente agora que a minha audição piorou… Quando não entendo 2x, ele escreve ou no celular, ou no PC, ou num caderno, o que tiver ao nosso alcance. Me apóia na minha futura nova etapa de vida, o Implante Coclear, para melhorar ainda mais a minha vida, e espero também, o nível social.

Aprendi muito com ele, como vocês vêem, mas também aprendi a me ver melhor, a me entender. Ele não sente na pele como é a vida de um deficiente auditivo, mas tem uma boa noção. Inclusive, tem um amigo francês que é surdo também, sinalizado, mas conversam em inglês via MSN. Só convivendo mesmo com a pessoa, que você entende melhor. Tenho muita sorte por ter ele na minha vida. Sonhamos com o nosso futuro, combinamos cotoveladas para quando o bebê chorar (só daqui a uns 5 anos, hein?), brincamos de ler os lábios sem voz, entre outras coisas. Sei que isso vai soar bem clichê, mas o amor supera as barreiras!

 Um beijão pra todos, M.”

—> Pessoal, quero inaugurar outra série de posts. Dessa vez, sobre as dificuldades que enfrentamos dentro da nossa própria família. Quem quiser enviar depoimentos a respeito disso, mande para sweetestpersonblog@gmail.com!

6 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

6 Comentários

  • Sensacinal M seu depoimento, eu tbm namoro um rapaz assim, meu parceiro, amigo me ajuda, apoia orientar da melhor maneira possível, desde a fala até decisões sobre o futuro q nós surdos somos limitados a algumas coisas, e isso é sensacional você poder ter o.privilégio de ter alguém assim…
    Amo ele mais q a mim msm…
    Ele é meu ponto de paz meu equilíbrio, meu ar q respiro.
    Um brinde a nossa sorte…

  • Que lindo! O relacionamento dá muito certo quando o ouvinte se coloca em nosso lugar, entende nossos limites e ainda corre atrás daquilo que pode melhorar nossa vida! Adorei. <3

  • No começo do texto parecia que tava me lendo! haha
    Me identifiquei demais!
    Quanto a relacionamentos, meus namoros sempre são curtos. E só tive problema com o último, que se chateava toda vez que eu deixava de entender algo que ele falava. Impaciente demais… Essa foi uma das desculpas dele pra não continuar o relacionamento. Mas melhor assim, né?!
    Concordo com a Greize: CASA com ele, M.!
    🙂

  • Que depo mais lindo, que namorado mais gente boa!!

    A gente que tem deficiência fica totalmente sorrindo de felicidade quando é lembrada que existem pessoas como o namorado da leitora no mundo.

    Toda felicidade pra os dois!

    bjus

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