Crônicas da Surdez Destaques

Sobre a surdez de músicos famosos

Sem querer desmerecer a surdez de ninguém (até porque, né?) mas confesso que me chateio um pouco quando a mídia fica frenética em cima da surdez de algum músico famoso! Basta que mais um perca a audição de um modo que impossibilita a sua carreira para que saia um link sobre a notícia e 300 pessoas me marquem nele. Quando isso acontece, fico pensando nos seguintes pontos…

1. Não conheço nenhum que tenha saído do armário da surdez e tenha feito algo em prol de quem também não ouve. Junte a isso o fato de os garotos-propaganda e porta-vozes da indústria da audição serem sempre ouvintes, o que parece uma piada de mau gosto. Somados, os fatos passam a seguinte mensagem: ser surdo é tão ruim que nenhuma pessoa em posição de destaque quer expor sua surdez, e, quando um famoso fala sobre o assunto, é apenas por $$$ já que ele OUVE. Se alguém conhece algum músico popstar que tenha usado sua fama, imagem e alcance com o grande público em prol da causa da reabilitação auditiva de bom grado por favor me avise que entro em contato e faço uma matéria com ele aqui no site para me redimir. PS: em defesa dos músicos posso dizer que já fiz um post sobre famosos que têm deficiência auditiva e todos eles fogem do assunto e da exposição de seus AASI como o diabo da cruz! Há uma campanha publicitária que conta com dezenas de pessoas famosíssimas falando sobre cuidar da audição. Todos ouvintes. Vocês conseguem imaginar uma campanha sobre obesidade apenas com famosos magérrimos e malhados apontando para suas barrigas de tanquinho? Só na surdez temos que achar essas excentricidades ‘normais’. De quem é a culpa? Não sei, mas me parece há anos que o dia em que colocarem surdos nos departamentos de marketing e relações públicas de marcas ligadas à indústria da surdez, a coisa muda. Ah, não, pera: grandes marcas acham que a cota de deficientes se cumpre apenas em cargos de baixa escolaridade, então, talvez isso não aconteça!

2. Músicos deveriam saber, acima de tudo, que seu trabalho é absurdamente perigoso para a saúde auditiva! Os caras não se protegem e acham que a surdez só não vai acontecer pra eles? Nã dá para entender essa mentalidade. Vamos fazer um rápido paralelo. Se um trabalhador braçal que opera uma britadeira, ganha um salário irrisório e possui escolaridade básica fica surdo porque usa um equipamento ruim de proteção, o que você vai pensar? Agora quando um músico famoso que ganha milhões e é assessorado por uma equipe gigantesca de pessoas fica surdo porque não se protegeu, o que as pessoas pensam? Ah, coitadinho! Ah, porque isso aconteceu com ele? Ai, minha banda favorita vai acabar! Seria bom se a mídia e as pessoas parassem para raciocinar por dois segundos e então percebessem que a surdez vai afetar a vida do músico e do trabalhador braçal da mesmíssima maneira: mesmas dores, mesmo sofrimento, mesmo desespero, mesmas limitações. Músicos famosos ‘não merecem’ ficar surdos? NINGUÉM merece ficar surdo. É para este fato que se deve atentar!

3. A mídia fica tratando-os como azarados, infortunados, pobrezinhos. A surdez pode acontecer para qualquer pessoa – não precisa ser rockstar ou nada do tipo! E ela ACONTECE. Para milhões de pessoas no mundo todo. O tempo todo! E o pior é que as matérias são feitas em 99% dos casos sem pesquisa, sem fonte segura (não vale a fonte ser o patrocinador, né?), usando termos errados sobre surdez e deficiência auditiva e com um sensacionalismo que beira o ridículo. Vejam esta barbaridade que fala em um ‘aparelho que vai restaurar a audição do Brian Johnson‘. Oi? Só me resta dar os parabéns aos marketeiros que sabem aproveitar como ninguém a chance de mídia espontânea quando se trata de um assunto que os jornalistas não dominam. Clap, clap, clap.

4. Os desavisados (leia-se ouvintes que estão tendo seu primeiro contato com a surdez através da noticia sobre músico-famoso-que-ficou-surdo) acabam com aquela primeira impressão horrorosa de “coitado, ficou surdo, sua carreira acabou, sua vida já era“. De desserviço para nós já basta o Beethoven que até escreveu que a surdez era a pior coisa e que queria se matar por causa disso. Ele merece um desconto de 95% porque naquela época realmente não havia nada que a tecnologia pudesse fazer para ajudar. Mas em 2016 notícias com títulos que apelam para o coitadismo e falam em ‘cura milagrosa‘ e ‘reversão da surdez‘ me dão nos nervos, e deveriam dar nos seus também.

5. Brian Johnson, Eric Clapton, Pete Townshend, Phil Collins, Jeff Beck, Neil Young, Noel Gallagher, Ozzy Osbourne…essa galera toda tem perdas auditivas acentuadas. Alguém já viu algum deles falando sobre isso abertamente, espalhando informação, conhecimento e ajudando as pessoas a não ficarem surdas – especialmente os seus ouvintes mais jovens que usam fones de ouvido explodindo os tímpanos de tão altos? E as pessoas que frequentam seus shows, sem proteção auditiva nenhuma, com amplificadores com milhões de megawatts de potência? Preocupação zero consigo mesmo e com os ‘clientes’, que também podem voltar para casa surdos ou com zumbido por trauma acústico. Ah, pois é. Enquanto isso, Hearing Health Advocates do mundo todo (me incluo nessa) estão por aí desnudando a alma, a vida, os sentimentos e a tecnologia em prol da saúde auditiva. E isso muda vidas. Isso devolve a felicidade para as pessoas. Não tem preço!! Se os músicos famosos fizessem o mesmo, imaginem o poder do alcance que isso teria, gente. Seriam milhões de pessoas aprendendo a verdade sobre a surdez, a tecnologia e o impacto da deficiência auditiva na vida social, financeira, emocional e profissional das pessoas. Além disso evitariam a surdez de muitos músicos iniciantes que não têm a preocupação de se proteger.

6. Para terminar o pensamento, me veio à cabeça que shows barulhentos – de rock ou não – são um perigo para a nossa saúde auditiva!! Preocupação zero com este detalhe por parte dos produtores e realizadores. Cadê as empresas de AASI fazendo ações de marketing oferecendo protetores auriculares na entrada, nas salas VIP, etc? Em tempos de preocupação obssessiva com acessibilidade, os potenciais futuros surdos do mundo estão sendo esquecidos. Ou poderíamos dizer que estão sendo incentivados a ficarem surdos? Pra pensar.

Lembram da avó do Homem Aranha falando que com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades? Pessoas públicas não podem fugir disso. Músicos dependem da audição para trabalhar e para fazer milhões de pessoas felizes. Porque não abraçar a causa saúde auditiva antes da chegada da surdez? E, ainda mais importante, porque não abraçar essa causa depois e revolucionar o mundo? 🙂

54 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

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