Crônicas da Surdez Deficiência Auditiva

Surdez e o bullying que sofremos em casa: experiências dos leitores

Você sabia que quando falamos de surdez o bullying começa sempre dentro de casa? É triste, mas é real. Atire a primeira pedra quem nunca ouviu dos pais, dos irmãos, dos avós, dos tios, dos primos ou de parentes frases pejorativas sobre a sua dificuldade auditiva.

As pessoas se preocupam muito com “os outros” quando descobrem a deficiência auditiva. Mas são “os próximos” que nos presenteiam com comportamentos medonhos e frases horríveis. Confesso que não entendo o que desperta esse lado do mal nas pessoas que amamos, mas acho que precisamos falar sobre isso. Raríssimas vezes em que conversei com alguém com DA esse assunto não veio à tona. É como um elefante branco. É um tabu. A maioria esmagadora das pessoas com deficiência auditiva sofre bullying dentro de casa.

Tem sempre uma mãe que chama de “surdo” em tom de nojo, um pai que finge que o problema não existe, uma irmã que anuncia a surdez para todos com o objetivo de nos menosprezar, um irmão que morre de vergonha que os outros saibam da nossa surdez, um cônjuge grosseiro com aspectos da nossa deficiência, filhos impacientes. E esse “bullying do amor” é o pior de todos, porque nos tornamos reféns dele. Impossível não morrer de vergonha de contar para alguém que nossa própria família faz essas coisas conosco.

Já disse mil vezes: o acolhimento que recebemos da família é determinante para ditar o modo como nós encararemos essa deficiência. É difícil ser forte para não sentir vergonha quando todos ao nosso redor sentem vergonha de nós. É difícil amar os aparelhos auditivos quando a família inteira faz questão de lembrar que algo tão caro não nos transforma em quem eles gostariam que fôssemos.

Mães que nos encorajam a entender a deficiência auditiva e a mostrar os aparelhos auditivos sem medo são anjos. Pais que conversam conosco abertamente sobre o assunto são anjos. Irmãos que nos ajudam com delicadeza são anjos. Cônjuges que encaram essa caminhada de cabeça erguida conosco são anjos. Mas…raros.

Abaixo, as experiências dos membros do nosso grupo no Facebook. Tenho certeza que você irá se identificar com várias delas! 🙁

 

Néia

Vir falar no ouvido que não escuto e ainda dizer (escutou) com ironias.

Sil

Ex marido tinha vergonha de mim. Me considerava deficiente mental, falava comigo apenas uma vez, se não entendesse dava as costas bufando e falava “deixa quieto”.  Entrei em profunda depressão e tentei suicídio inúmeras vezes.

Anny

Meu filho tem 2 anos e usa Kanso e então minha família fixa chamando ele de lanterna verde e vaga lume. Mas de forma pejorativa pelo fato de deixarmos no modo criança. Os irmãos ajudaram a escolher desenhos e fizemos adesivos para os Kansos dele e nós temos maior orgulho da conquista do papapa dele. Infelizmente há preconceito mas temos que ensinar ele a lidar com essas situações. Infelizmente.

Joanita

Algumas vezes já aconteceu de estarem por perto e comentam alguma coisa comigo e alguém diz ” a não adianta ela não vai escutar…” E eu estar perto e responder : “Poxa como assim não adianta?” É chato isso.

Regina

Minha família quer tratar meu filho de especial…na minha opinião esta palavra esta carregada de preconceito…meu filho é deficiente auditivo, e isso não vai impossibilitar ele de ser quem ele quiser ser…odeio quando alguém vem dizer que ele e uma criança especial, pior ainda quando começa dentro da família.

Josi

Falam algo e quando não entendo ficam olhando pra minha e orelha e falam ” tá usando o aparelho não ??” “Troço caro e que não serve pra nada” sendo que eu ouvi a conversa toda mas a única frase que não entendi resulta nisso. Minha irmã também tem uma mania horrível de repetir gritando pra mim o que as outras pessoas falam. Tô conversando e ela cisma q não tô ouvindo e fica repetindo tudo.

Salete

Foram tantos bullying que quase entrei em depressão, por muito pouco, mas ainda assim me isolei de encontros familiares/amigos. Mas com o tempo fui aceitando e hoje brinco muito com isso.

Cassia

Mexer a boca fingindo que está falando, debochando da surdez.

Josilene

Ahhh, e dói, viu, quando a família diz que a gente finge que não escuta. Acontece comigo. Antes engolia o choro. Depois da terapia, aprendi a responder na lata ou simplesmente deixar que não me afetem.

Larissa

Você ouve ou finge porque o que não é do seu interesse você escuta. Isso me dá nos nervos. Você está com os aparelhos, parece que tá baixo. A pessoa nem sabe como conversar direito e quer regular o aparelho pra mim.

Dalva

Quando tomam decisões por mim, sem me consultar e ainda não avisam o que fizeram, tudo porque “ela é surda”.

Andressa

Minha irmã vive tirando onda tipo: “Não adianta falar com ela porque ela é surda!” Nossa, fico arrasada.

Rute

Eu tentando escutar pelo telefone com muita dificuldade, a pessoa do outro lado da linha baixando o tom de voz e às gargalhadas com o meu “hã?”

Cinara

“Surdinha”

Leticia

Ouve o que quer

Renata

Os aparelhos estão ligados?
Só ouve o que quer
Tem certeza que ta me ouvindo?

Ernesto

Da minha irmã. Não quero dar detalhes. Mas ela foi a pessoa que mais se aproveitou do meu problema de audição. Isso me machucou até hoje.

Fátima

Falaram: “Você nunca vai tirar CNH, é surda!” Doeu, passou. Superei. Eu ia desistir. Fui, o instrutor me disse: “Você não está preparada!” Mas a mulher da auto escola disse: “Você só tem que ter aptidão!”.  Fui pro exame e passei na primeira, aí o instrutor ficou com cara de peixe morto. Mas, antes eu já tive que ouvir da própria mãe.

Luciane

Falar algo por trás de você sabendo que você não entenderá na maldade, falar deixa pra lá não tendo paciência pra repetir, achar que somos menos por não compreender os sons e fala, nos evitar porque somos diferentes, fazer piadinhas toscas pra nos ferir, chamar de surda como ofensa, dizer pra todo mundo numa plateia alto e bom som: “Você pôs os aparelhos?”. Te chamar de coitada, etc.

Victor

Eu já fiquei muito de castigo por conta da minha tia, que achava que eu estava copiando a minha mãe de “não ouvir” (nosso caso é genético). Quando descobrimos que era verdade, ela me deu um par de aparelhos. E já uma vez estava discutindo com meu pai, dei as costas e sai, mas quando eu me virei, li os lábios dele me chamando de “surdinho”. Amo minha família e nunca vou deixar de amar, mas esses casos me marcaram.

Lucária

Sempre dizem que não sou surda, que escuto o que é conveniente. E não conversam comigo porque não querem repetir ou falar mais alto.

Viviane

Teve uma época que minha cunhada sempre fazia brincadeira do tipo: “Ela não houve quando chamam, vai acabar sendo atropelada!” E ria, minha sogra também e isso me magoava. Falava sempre que me via e dizia que não sei como eu saia podendo ser morta ou atropelada e ria. Teve um dia, eu muito p… disse a ela: “Cuidado, você tem dois filhos que podem ficar surdos porque eu não nasci surda, fiquei surda bem depois!” Ela parou e me olhou e NUNCA MAIS FEZ ESSAS BRINCADEIRAS SEM GRAÇA. No trabalho foram tantas que nem vale a pena contar

Suellen

Ser chamada de surda que não pode fazer nada, não vai conseguir passar. Algumas não conversam comigo na festa sempre assim… Depois que meu pai faleceu, meu avô veio falar pra mim: “Você não fala direito, não estou entendendo nada!” Ele nunca falou isso, só depois que meu pai faleceu. Isso me machucou e não fui mais lá.

Aline

Tenho um irmão mais velho que fala comigo e diz “Mãe, ela ouviu?”. Quando vou assistir filme eu fico perguntando o que ele falou o que ela falou ai eles falam “Assim não dá Lili você tá perdida e faz a gente se perder também “. No serviço a maioria evita falar comigo e fala que ouço quando quero. Já teve muitas ignorantes que bateram uma bandeja bem forte perto do meu ouvido doeu a cabeça a noite inteira. Piada o tempo todo….apelidos sem noção.

Daiane

Colocar a mão na frente da boca para eu não fazer a leitura labial e perguntar se entendi, para depois tirar uma risada bem forte. Isso me doeu tanto, nunca esqueci. Minha irmã sempre me chamava de: “Velha surda da praça é nossa”.

Luiza

O tempo todo dizem que surdez não é deficiência, que não é doença… É porque eles não sabem quão triste é ter feridas no ouvido de usar prótese auditiva e mesmo assim não ouvir direito. O quão triste é tomar banho e não ouvir, dormir e não ouvir, ir a praia e não poder usar a prótese por causa da maresia … só Deus sabe o que passamos…

Luana

Já escutei que não conseguiria realizar meus sonhos. Isso me deu medo e não consegui realizar muita coisa.

Vinicius

Eu sofri e ainda sofro bullying tanto na família quanto na escola (quando estudava) e em alguns outros lugares. Sempre me perguntam se estou de aparelho. Sempre me questionam quando não consigo entender algo que dizem. Muitos falam comigo gritando, o pior é quando fazem isso na rua, às vezes eu acho que fazem de propósito, já passei por muita vergonha e situações humilhantes por causa disso. Na escola os “colegas” sempre mexiam comigo, muitos falavam coisas ruins e desagradáveis pelas minhas costas, sempre zombavam de mim e sempre colocavam apelidos em mim. A vida do surdo não é fácil, você passa por muita coisa e na maioria das vezes é obrigado a tolerar

Tatiane

Aqui por enquanto sou eu que sofro com os olhares de pena, principalmente quando estamos em rodas de mães e o assunto são as coisas que nossos filhos fazem, as mães ficam me olhando com cara de piedade como que diz: “Coitada ela não sabe o que é isso, o filho dela mal fala!” Muito triste porque pra mim meu filho é o máximo!!!

Raquel

Testes auditivos… Nossa como eles me testam. Isso as vezes é muito triste

Sonia

Quando a minha mãe me diz que falo mal por causa da voz de surda e calar me para corrigir cada vez que tenho de me expressar durante uma conversa em curso. Pior coisa é interromper um surdo que tenta se esforçar a participar nas conversas de família por não articular bem a sua voz.  Fazer pressão para que um surdo fala bem o que se torna uma tortura por ter cofose nos agudos para ter um bom feedback auditivo.

Ana Lúcia

Já me aconteceu de pegar eles falando de mim, coisas que eu poderia resolver… mas como sempre eles acham que sou surda mesmo com aparelhos. E eu falo “eu escutei o que falaram” e eles reforçam “não escutou não!”

Kelly

Minha mãe só descobriu minha surdez quando eu e minha irmã gêmea tínhamos 14 anos (somos gêmeas idênticas com surdez idêntica). A primeira reação dela foi chorar e depois falou: “Ninguém precisa saber que vocês vão usar aparelho auditivo, o cabelo esconde!” Me sentia muito mal pois essa é uma condição que não dependia de mim. Minha outra irmã (não a gêmea) tinha muita vergonha quando eu prendia o cabelo e aparecia o AASI. As primas e tias sempre falavam: “Não vou na sua casa porque você não ouve”. Sofri muito bullying . Em uma empresa que trabalhei um moço perguntou se eu fazia parte do departamento da fábrica de monstrinho (se referia aos deficientes). Foram tantas situações que escreveria um livro… Hoje não sofro mais, superei tudo com a cabeça erguida tenho um marido e uma filha que me amam não importa minha condição.

Andreia

Quando escuto algo, eles falam: “O que não é pra ouvir você ouve!” Quando estou sem o aparelho batem na porta, claro que não escuto. Aí falam: “Tô há meia hora batendo aqui e você não escuta!” . Quando querem cochichar no meu ouvido eu digo que não escuto, são gargalhadas na certa.

Celia

“Você é surda de conveniência”, “só escuta o que você quer”

Aninha

Ja escutei: “Escuta sim, só se finge de surda”. “Do jeito que é surda não vai namorar nunca!” – dito pela minha tia.

Sara

Ouvir os gritos do meu irmão e da minha mãe quando não ouvi direito algo!Uma falta de respeito muito grande esses berros!

Ana

Além de surda é louca, pois decidi seguir minha vida e eles acham que é loucura.

Maria

Na grande família, dentro de casa, nunca. Parentes dizem que só escuto o que eu quero e que me finjo de surda. Coitados, totalmente ignorantes.

 

Di

Sofro em uma espécie de ignorância vindo da minha própria mãe. “Esse aparelho é uma merda. Você não ouve nada. Tem que aumentar esse aparelho.” Já peguei tanto ranço que hoje em dia, mesmo não querendo, me pego desejando que ela perca alguma considerável audição só pra sentir na pele o que eu passo. Ela fala de costas, ela fala pouco movimentando os lábios. E pra dentro. Ela fala muita coisa negativa quando coloco legenda nos filmes e quando falo pra ir no cinema e ver filmes legendados. Eu fico super chateada devido à falta de confiança e paciência dela, ainda mais uma pessoa que correu a vida toda pra me ajudar na educação e superar. Dói demais mesmo.

Camila

Sou constantemente lembrada pelos meus irmãos que não escuto, que sou surda mesmo com aparelho: “Você é surda!!” Num tom debochado, dá pra ver as irritações quando peço pra repetirem.

 

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Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

5 Comentários

  • Nossa! Parece que estão falando de mim, passei por quase tudo isso!
    Hoje isso aparelho auditivo e na CNH está mais discreto indentificado com a letra “B”

  • Oi Paula, como vai você ? Há quanto tempo ! Espero que esteja super bem, a última vez que trocamos e-mails foi em 2016, quando conversamos sobre você colocar seu segundo IC, e como conseguir estudar música, aprender a tocar piano, violão e guitarra sem ter nenhuma base anterior ! E um agradecimento especial a você pelas indicações que ofereceu de um excelente otorrino.

    Sobre este tema, acredito que tudo dependa da essência que cada pessoa tem. Não quer dizer que elas não sejam boas, mas infelizmente a maioria não carrega amor verdadeiro o mais completo possível. Veja o caso de casais casados há 10, 20, 30 anos que não trocam mais carinhos, afetos, ou haver pouquíssimos doadores de sangue (de medula, então…) e por aí vai. Com tantas lacunas no coração e na mente (e a falta de vontade de querer preenchê-las buscando se tornar um ser humano melhor, o que não faz o menor sentido), ficam voltadas mais ou totalmente a si mesmas, achando que têm mais direito a pedir (para exatamente preencher as próprias lacunas com as virtudes, qualidades e realizações dos outros) do que oferecer algo imaterial e significativo a alguém. As características advindas do amor mais completo, como empatia, compaixão, compreensão, carinho, realização de intenções, etc, nessas pessoas estão praticamente ausentes, sendo substituídas facilmente por palavras e promessas vazias, procrastinação, até maltratar deliberadamente (algumas pessoas são más, ao gostarem de fazer sofrer, gerar problemas, conflitos ou empurrar responsabilidades).

    Quantas vezes presenciamos nossos entes queridos e amizades próximas dizerem vão se mobilizar a aprender libras, ou falar mais devagar para que a leitura labial tenha mais qualidade ou prometerem escrever ou digitar para diminuir o desgaste proveniente da sobrecarga da atenção? E quantas vezes se fez cumprir isso ? Nem pedimos !! E ainda ficam enfurecidos, viram a cara quando nosso esforço fica dificultoso ou uma rara solicitação de momento para melhorar a qualidade de comunicação é feita, sobretudo, ao percebermos que um assunto é muito sério.

    Aprendi que uma simples frase apenas troca a ordem, para ilustrar bem essa realidade…

    Para quem não tem empatia (além de outras características do amor), é assim:
    -“Não tenho culpa de você ter ficado surdo(a)!”
    Você só tem a responder, de forma triste:
    -“Eu também não…”

    Para uma essência rara que quer te dar um pouco mais de normalidade numa vida sem sons (que é extremamente desoladora):
    -“Queria fazer mais, pois você não tem culpa de ter ficado surdo(a)…”
    Por reconhecimento e compaixão, a resposta é bem fácil, todavia também triste:
    -“Agradeço de coração… Você também não…”

    Sei também que, lamentavelmente, muitos deficientes (de qualquer natureza) usam a sua situação como muleta para se declararem incapazes de muitas coisas que podem ser superadas sem muita dificuldade, tornando-se um peso para quem está ao lado de fato e quer dar passos concretos para melhorar a vida de quem ficou ou nasceu assim. Vi isso bem de perto em centros de reabilitação, entidades, etc. Esses deficientes se julgam mais injustiçados que outros e acabam por não tomarem a iniciativa de mudar algo para melhor, ficando concentrados no que perderam, ao invés de oferecer algo para compensar, sobretudo a quem ama e luta corajosamente.

    Em resumo, amor com reciprocidade, algo tão precioso e fundamental na vida de todos, independente de tudo, é muito difícil de encontrar… Imagine quando o desamor oferecido pelos bullies, algo tão presente e comum, atinge uma pessoa com amor mais completo, deficiente ou não… Ela sofre com toda a consequência de ações totalmente incoerentes em troca do melhor que oferece.

    Como é uma eterna luta desequilibrada e injusta, a solução que encontrei foi a de aprender a dura lição de ficar e viver sozinho para não ficar perdendo muito tempo ficando magoado (senão não teremos mais motivações a realizar ações de amor e fecharemos a porta para quem tem amor de verdade), cair na situação de carência emocional e afetiva, e ficar insistindo em relações que já não eram grande coisa e que pioraram com a surdez… Afinal estar só tem duração indeterminada, é uma verdade que temos consciência, não há como pedir ou cobrar o que faz parte do amor, se não for voluntário, é improvável que seja real…

    Uma frase de William Shakespeare para encerrar: “depois de um tempo você aprende que não importa o quanto você se importe, algumas pessoas simplesmente não se importam”.

  • Descobri que tinha deficiência auditiva quando comecei a trabalhar, mas isso faz 36 anos, na época a deficiência era leve, porém degenerativa, fui recomendada a usar aparelho auditivo, mas sentia vergonha e não comprei nenhum até ficar surda moderada a severa, nesse momento compreendi porque as pessoas diziam que eu era desatenta e porque na escola eu sempre perguntava ao colega do lado palavras ditadas que havia perdido. Passei muito tempo me escondendo das pessoas, hoje acho muita graça das coisas que eu fazia pra ninguém saber que tinha problemas de audição. Na luta por um lugar na sociedade segui em frente com os estudos de meu interesse. É claro que sempre me zoaram! Mas eu nunca dei muita importância, mesmo achando chato “ouvir” colocações incorretas a respeito de como e quando ouço. Não sou escrava ou vítima da minha deficiência, prefiro tirar proveito dela. Sentir a audição definhando para o nada, é horrível. Mas também pode ser bom, porque me concede muito tempo com o silêncio. No silêncio posso pensar, posso ser tranquila, posso me concentrar, posso proteger minhas emoções. Nem todos tem essa sorte!
    Invejo as pessoas que podem ouvir nitidamente. Invejo-as por poderem ouvir: música, os animais, as pessoas com clareza. Mas a inveja vem, eu a sinto e depois deixo-a ir. Me desapego, me separo dela. A questão é aceitar o que sou e gostar.
    Sou Agente Administrativo concursada, estudei até o Nível Superior e gosto de escrever poesias e contos. Já fui casada 3 vezes, os deslaces não foram por causa da deficiência, tenho dois filhos e 2 netos e me considero uma pessoa bem resolvida com a vida. Agradeço a Deus por estar viva e com saúde!

  • Oi, Paula, tudo bem?

    Entendo essas pessoas. Entendo mesmo. Já passei por tudo isso o que essas pessoas falaram.
    Infância, família, adolescência, escolas, shoppings, áreas de lazer…
    o único momento em que estou mais calma e mais feliz é quando eu saio para passear com meu cachorro e escuto os barulho das ruas e tudo. Muito bom.

    A minha avó começou a perder a audição na infância, eu lembro que ela debochava de mim (mas eu lembro vagamente, eu era muito novinha pra entender as coisas…). O único apoio que tive foi a do meu pai, que começou a me levar pra fono e comprar aparelhos auditivos pra mim. Ele foi o único pai bom que tive.
    Lembro que conforme eu crescia, quando eu ia visitar a minha vó, alguns filhos e netos dela começaram a debochar dela, fazendo bullying também… e depois me atacavam também. Mas eu fingia que não era comigo. Mas imagine só o tempo em que não estou na casa dela, ela deve ter aguentado muitos anos… aí estranhamente, ela começou a parar de me debochar e me pedia desculpas várias vezes. Eu já a vi chorar algumas vezes. Fiquei com pena dela até hj.

    Ás vezes desejamos o “mal bem” para que essas pessoas que fazem bullying contra a gente parem de escutar, de ouvir, só pra sentir na pele o que passávamos. Eu presenciei isso. Foi muito triste.

    Eu perdôo as pessoas que faziam essas coisas, tive q perdoar todo dia pq lembrar machuca muito. Não é fácil, mas Deus sabe o que a gente passa.

    Hoje nem ligo mais. Fico feliz com meu Kansos(no lado esquerdo) e aparelho auditivo. Quando começam a fazer bullying comigo, que já noto os sinais, eu tiro meus aparelhos auditivos para não ter que ouvir e corro pro banheiro/ou quarto, tranco tudo e espero a situação passar. Quando mais ignora eles, mais eles vão parar e desistir. (ou não, só Deus sabe.)

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